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Anotações sobre Thomas Mann
Anotações sobre Thomas Mann

ANOTAÇÕES SOBRE THOMAS MANN

 

Autor alemão demonstrou mais compreensão do mundo em sua monumental ficção do que em seu ensaísmo um tanto ensimesmado.

 

 

                                       

 

Thomas Mann (1875 – 1955) é tão conhecido no Brasil  que muitos leitores de sua obra e conhecedores de sua importância ignoram que sua mãe foi brasileira: seu estofo de autor é maior do que sua origem patrioticamente nacional.  Se é um dos grandes escritores do século 20, Mann é também autor de um romance que definiu os descaminhos artísticos e políticos do mesmo século à perfeição, o DOUTOR FAUSTO, além de deixar outras obras que hoje fazem parte do cânone da literatura universal, como os romances A MONTANHA MÁGICA e OS BUDDENBROOK e as novelas MORTE EM VENEZA e TONIO KRÖGER (reunidas em um único volume em uma edição recente da Companhia).

 

                               

 

Descendente da burguesia orgânica de Lübeck, no norte da Alemanha – o pai foi senador –, Thomas Mann se estabeleceria em Munique a partir de 1894, depois de perder o pai, e inclusive trabalharia numa seguradora de incêndios, abandonada logo em seguida por uma espécie de incompatibilidade kafkiana com o trabalho.  O sucesso literário viria bem cedo, sobretudo a partir de uma viagem decisiva e goethiana à Itália em 1897 – Goethe também fugiu da Alemanha para a terra onde os limões florescem em busca de inspiração –, logo sedimentado com a publicação do conto O PEQUENO SENHOR FRIEDMANN.  Em 1929, Thomas Mann receberia o Prêmio Nobel de Literatura, condecorado pela obra monumental que escrevera quase 30 anos antes, OS BUDDENBROOK, publicado em 1901; o autor inclusive ficaria magoado, apesar da premiação, demonstrando mais uma vez a melancolia que sempre o caracterizou, pelo fato de a academia ter ignorado solenemente outro romance, bem m ais recente e também monumental, A MONTANHA MÁGICA, de 1924.

 

                              

 

A combatividade de Thomas Mann durante a II Guerra Mundial faria com que seu nome fosse lembrado em 1945 para o cargo de primeiro presidente da República Federativa da Alemanha após o final da guerra.  Mas as dificuldades do escritor com sua nação, tão grandes que impediram seu estabelecimento na pátria destruída, fariam com que a ideia não vingasse.  E Mann se cansaria definitivamente dos Estados Unidos apenas em 1951, depois de anos de benesses e bons tratos.  A nova paranoia estatal americana, o macarthismo institucionalizado, se tornaria hostil inclusive a ele e registraria Thomas Mann oficialmente como um dos mais famosos apologistas de Stálin e companhia.

 

                                  

 

Aquilo era demais para um escritor que, apesar de saudar a I Guerra, se posicionara de modo tão convicto, e já desde bem cedo, contra as manifestações ainda incipientes da tirania, atacando o nazismo.  Depois do assassinato de Walther Rathenau em 24 de junho de 1922, Mann acordaria de seu sonho germânico e passaria a defender a República e seus valores, arrolando suas ideias sobre o assunto no discurso DA REPÚBLICA ALEMÃ e se tornando membro do Partido Democrático Alemão.  Após a grande votação alcançada pelos nacional-socialistas em 1930, Mann faria um novo discurso, desta vez na Sala Beethoven de Berlim, intitulado APELO À RAZÃO, em 17 de outubro.  O discurso ficaria conhecido universalmente como DEUTSCHE ANSPRACHE, e nele Thomas Mann já refere visionariamente o nazismo como “uma onda gigantesca de barbarismo excêntrico e crueza de mercado público”, cheio “de primitivismo” e marcado por convulsões de massa, barulho de boteco, aleluias e repetições mistificantes de chavões monótonos, até que todo mundo espume pela boca”.  No mesmo discurso, Mann se pergunta se poderá se tornar realidade “o desiderato de uma singeleza primitiva, pura de sangue, simples de coração e de juízo”, misturada como “carne moída” e “toda obediente em seus olhos azuis”, se essa “completa simplicidade nacional” poderá mesmo dar certo num “povo cheio de cultura e maduro e experiente como o alemão”.  A resposta definitiva e desconsoladora à pergunta do autor viria já três anos depois, em 1933, com  a vitória do partido nazista nas eleições.

 

                          

 

Na vigorosa obra de Mann, o DOUTOR FAUSTO ocupa um lugar privilegiado e à parte.  Talvez em nenhuma obra Thomas Mann seja tão autoral, revele tão profundamente o que pensa e defenda seus verdadeiros princípios quanto em DOUTOR FAUSTO.  Mesmo no ensaísmo, um gênero autoral por excelência, e sobretudo quando fala de outros autores, Mann é menos autêntico e sempre se mostra suavemente elogioso, se limitando muitas vezes a esboçar retratos e fazer discursos fúnebres, responder a perguntas de jornais e homenagear aniversariantes.  Na obra ensaística se percebe que Thomas Mann não mergulha de verdade quando se ocupa de questões externas, envolvido conforme sempre esteve com seu mundo interno.  Thomas Mann afinal de contas é o autor que se limita a registrar em seus DIÁRIOS, no dia 6 de agosto de 1945:  “Em Westwood para comprar sapatos brancos e camisas coloridas.  Primeiro ataque com bombas ao Japão, no qual se mostram os efeitos do átomo fissionado.”  A indiferença não deixa de lembrar a de outro autor, muito ocupado consigo mesmo em outra guerra, que iniciava 30 anos antes; em 2 de agosto de 1914, Franz Kafka anotaria em seu diário: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, escola de natação.”  E, no entanto, como ambos os autores,  aparentemente tão diferentes, entenderam o funcionamento do mundo lá fora olhando para a alma aqui dentro...

 

Fonte:  ZeroHora/Marcelo Backes (Escritor e tradutor, doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Freiburg, na Alemanha. ) em 20/12/2015