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Michel Maffesoli/O Intelectual Pós-Moderno
Michel Maffesoli/O Intelectual Pós-Moderno

LITERATURA CONTRA EFEITO SÉPIA – PARTE 5

 

O INTELECTUAL PÓS-MODERNO

ENTREVISTA COM MICHEL MAFFESOLI

 

Em 2014, Michel Maffesoli, professor na Sorbonne e um dos grandes teóricos da pós-modernidade, lanço na França, junto com sua mulher, Hélène Strohl, um livro que provocou polêmicas incendiárias.  “O Conformismo dos Intelectuais” (Sulina) chega agora ao Brasil.  Com a violência de um panfleto, dispara uma artilharia pesada contra os modismos, a covardia e o compadrismo dos intelectuais.  Nada escapa.

 

 

 

Os intelectuais não conseguem se separar de uma utopia controlada e alimentada pelo Estado?  É uma dependência?

Não são só os intelectuais, mas toda uma elite (políticos, gestores, jornalistas, acadêmicos) que ainda funcionam baseados no antigo esquema da modernidade:  uma sociedade de indivíduos, ligados por um contrato social, que dependem do estado para o exercício da função de coesão e de solidariedade.  Os intelectuais, assim como o restante dessa elite, tiram o poder que têm dessa relação com o Estado.  Compreende-se, então, que sofram para aceitar as evoluções em curso na sociedade.  Vê-se muito bem, entretanto, que o individualismo cede lugar ao princípio da alteridade e da tribo.  Não é mais o Estado que tem o papel principal na vida das pessoas, mas as diferentes comunidades (tribos), às quais cada um de nós pertence em dado momento.

Nessa postura clássica do intelectual de esquerda apegado à ideia de emancipação pelo estado há certo conservadorismo?

Os intelectuais de esquerda não são reacionários, mas são, com frequência, conservadores.  Digo isso no sentido de que eles não querem ver as coisas como elas são, mas querem que elas sejam como eles gostariam que fossem:  uma sociedade imutável para a qual eles devem dizer como agir e pensar.  Estou acostumado a fazer, como faço neste livro, a diferença entre a opinião pública, o povo, todos nós, e a opinião publicada, a de todos os que têm o poder de dizer as coisas e de fazer, as elites, os intelectuais, os políticos, a mídia e os gestores.  Essas elites se agarram ao poder e não percebem a grande potência das mudanças em curso por toda parte na sociedade.

Qual deve ser o papel do intelectual na pós-modernidade?

O intelectual não pode mais querer ser uma vanguarda nem ser o guia das classes populares.  Isso não corresponde nem à nova organização social, muito mais horizontal, na qual o saber não pode mais ser afirmado com argumentos de autoridade, nem, de resto, à situação real dos intelectuais, que são, em geral, os últimos a compreender o que está acontecendo no mundo pós-moderno.  Apesar disso, considero que é o nosso papel de intelectuais encontrar as palavras justas para descrever o que está aí.  Servir de eco ao que se diz e ao que se faz no cotidiano.  É, sem dúvida, um papel menos glorioso que o do intelectual “engajado” do pós-guerra, em especial de todos os movimentos esquerdistas maoístas, leninistas, trotskistas e outros.  Não podemos esquecer que esses intelectuais engajados, tendo o filósofo Jean-Paulo Sartre à frente, defenderam os piores tipos de barbárie, os gulags stalinistas, Pol Pot, o castrismo, a revolução cultural chinesa.  O papel dos intelectuais na pós-modernidade não é certamente aquele prezado pelos velhos militantes, que não se constrangem de esquecer os seus erros mortíferos e continuam querendo ditar o que as pessoas devem pensar e fazer.  O papel do intelectual deve ser discreto.  O intelectual deve ser capaz de compreender o que está acontecendo e, humildemente, transmitir isso.  Ele não está à frente da sociedade, mas no meio dela.

 

Fonte:  Correio do Povo/caderno de Sábado/Juremir Machado da Silva em 05 de setembro de 2015.