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Trapezista na Vida
Trapezista na Vida

TRAPEZISTA NA VIDA

VENTURAS E DESVENTURAS DE GLORIA VANDERBILT

 

EM LIVRO RECÉM-LANÇADO NOS EUA, ESCRITO A QUATRO MÃOS POR MEIO DE E-MAILS TROCADOS COM O FILHO CAÇULA (O APRESENTADOR DA CNN ANDERSON COOPER0, GLORIA VANDERBILT, 92, NARRA SUAS MEMÓRIAS.  À LUZ DOS HOLOFOTES EXPERIMENTOU GLAMOUR E TRAGÉDIAS.  FILHA DE FAMÍLIA RIQUÍSSIMA, ELA FOI ATRIZ, ARTISTA E DONA DE UMA GRIFE DE JEANS.

 

Por um ano, o jornalista norte-americano Anderson Cooper, 48, mais popular apresentador da rede de notícias CNN, trocou e-mails com a mãe, Gloria Vanderbilt, 92, para que ela revelasse detalhes “de uma era e de um mundo que não existem mais”, nas palavras do filho.  O resultado dessa entrevista cúmplice é o livro de memórias “THE RAINBOW COMES AND GOES” [Harper, impresso na Amazon e em e-book, 304 páginas] (O arco-íris vai e vem).

 

Gloria nasceu em uma das famílias mais ricas dos EUA, que basicamente espalhou a navegação a vapor e as ferrovias pelo país no século 19.  Seu tataravô, Cornélius Vanderbilt, foi o criador do depósito que daria origem à estação de trens Grand Central, em Nova York – no local, há uma estátua em sua homenagem.

 

Atriz em Hollywood, artista plástica e designer, ela faria sua própria fortuna nos anos 70 e 80 com uma linha de jeans que vestiu milhões de mulheres americanas.

 

Nascida em 1924, vi vendo sua juventude em uma era severa com o comportamento feminino. Gloria namorou Frank Sinatra, Errol Flynn, Marlon Brando e Howard Hughes.  Casou-se aos 17 anos com um agente de Hollywood ligado à máfia.  Seu segundo casamento, aos 21, foi com um maestro 42 anos mais velho, com quem teve dois filhos.  Em seguida, veio o terceiro marido, o cineasta Sidney Lumet, de “Serpico” e “Rede de Intrigas”.

 

Aos 43 anos, no quarto casamento, ela daria à luz seu quarto filho, o caçula, Anderson Cooper.  Até pela distância etária, mas mais ainda porque Gloria Vanderbilt não era uma mãe convencional, havia muito que o apresentador parecia não saber sobre ela.

 

A ideia do livro nasceu durante as filmagens de um documentário para a rede HBO que tratava da relação entre as duas celebridades, “Nothing Left Unsaid” (nada por dizer), dirigido por Liz Garbus, realizadora também de “What Happened, Miss Simone?”, sobre a cantora Nina Simone.  Gloria enfrentou problemas de saúde no final da filmagem, e o filho quis entrevistá-la antes que fosse tarde.  Livro e documentário foram lançados no mês passado (abril) nos EUA.

 

Na superfície, o livro poderia oferecer a intimidade da herdeira que viveu nos dois polos de glamour da América, Nova York e Los Angeles, uma espécie de revista de celebridades aprofundada, mais “Vanity Fair” que “Caras”, que os nomes de um mundo que realmente provocam curiosidade e voyeurismo.

 

Espertam ente, contudo, o filho aproveita essa terapia epistolar em dupla para fazer a mãe narrar as transformações das últimas nove décadas, nas quais mesmo na mais privilegiada das classes as mulheres viviam sufocadas em um espartilho moral, do qual ela conseguiu se livrar aos poucos.

 

CUSTÓDIA

Da infância, ela conta em detalhes a disputa por sua custódia, depois de perder o pai alcoólatra com menos de um ano e meio.  De um lado a sempre ausente mãe dela, Gloria Morgan, que levou a filha com sua babá para a Europa para poder se esbaldar no circuito Paris-Cannes-Londres (a irmã gêmea da mãe, Thelma, namorava então o príncipe Edward, que teria sido rei da Inglaterra se não tivesse abdicado para casar com outra americana, Wallis Simpson); do outro lado, sua avó, Naney, e a tia, a escultora Gertrude Vanderbilt Whitney, que fundou em 1930 aquele que se tornaria o principal museu de arte americana de Nova York, o Whitney Museum.

 

Aos dez anos, a “pobre menina rica”, como era chamada pelos tabloides, foi cercada por cem repórteres na saída do tribunal.  Em plena Grande Depressão americana, em 1934, a imprensa se esbaldava com os infortúnios dos Vanderbilt (que mantinham um fundo milionário ao qual a menina órfã teria direito ao cumprir 21 anos).

 

Em uma audiência fechada, por se tratar de “crime terrível”, sua mãe foi acusada de ser lésbica e de deixar a filha todo o tempo com a babá para viajar com as amantes.  Gloria seria criada pela tia e pela avó por alguns anos.  Mas, durante uma visita à mãe em Los Angeles, aos 16 anos, decidiu tentar a vida como atriz em Hollywood.

 

A mãe era amiga do “cidadão Kane” da vida real, o magnata da mídia William Randolph Hearst, que lhe abriu as portas das provas de elenco dos estúdios.  “Estava determinada a não ser a ‘pobre menina rica’”, descreve.

 

“O maior presente que o dinheiro dá é a noção de independência.  Se você tem sorte bastante de tê-lo, aprenda como guardá-lo bem.”  Quando os filhos ainda eram pequenos, ela lhes comunicou que não herdariam nada.  Depois da faculdade, teriam que “se virar”.

 

No diálogo do livro, o jornalista pouco fala de si mesmo (reservado, apenas revelou sua homossexualidade em 2012, quando já era o famoso ganhador de nove prêmios Emmys), e a mãe não parece ter o mesmo interesse de entrevistar demonstrado pelo filho.  Cooper brinca a respeito desse desequilíbrio de curiosidade pela vida alheia.  “Não é todo mundo que descobre que sua mãe teve uma vida sexual muito mais ativa que a sua.”

 

DETALHES

Ela não poupa detalhes diante das perguntas cordiais do filho (“Algumas noites, quando o sono não vem, prefiro contar amantes que carneirinhos.  Esses trovadores emergem da escuridão, um atrás do outro, antes de desaparecerem de vez”, confessa).  Aos 85, revela ter namorado um “Nijinski da cunilíngua”.  O filho apenas ruboriza no papel.

 

A franqueza e vitalidade da jovial Gloria, que se define como uma trapezista na vida, vai além de um hipotético “jantando com as estrelas”, ainda que Charles Chaplin, Marlene Dietrich, Ernest Hemingway, Truman Capote, Liza Minelli e Rita Rayworth de fato frequentassem sua vida.  Com classe, ela não coloca roupa suja no varal, nem acerta contas.  A menina segue viva ao descrever como se escondeu no quarto durante uma visita de Katharine Hepburn, por não conseguir encarar uma musa assim de perto.

 

Sua carreira nas telas não seria nada memorável, mas, nos bastidores, encantaria meia Hollywood dos tempos áureos.  A menina sem pai se sentiria atraída por homens fortes, que decidissem tudo por ela.  Namora Howard Hughes, o bilionário produtor de cinema (que ganhou cinebiografia pelas mãos de Martin Scorsese, em “O Aviador”), com quem, diz, “pela primeira vez” não teve de fingir orgasmos”.  Mas ela se envolveria simultaneamente com um empregado de Hughes, Pat DeCicco, o tal agente mafioso de 33 anos, suspeito de ter matado a primeira mulher (“ele era violento, me deixou com o olho roxo várias vezes, mas eu o achava fascinante”, confessa).

 

Nos capítulos seguintes, a artista narra o casamento com o veterano maestro Leopold Stokowski (ex de Greta Garbo), com quem tem dois filhos, estranhamente ignorados em quase todo o livro, e o namoro com Frank Sinatra, já então um patrimônio americano.  E, depois, o casamento com o cineasta Sidney Lumet, que lhe foi apresentado pelo amigo fotógrafo Richard Avedon.

 

O último casamento, que duraria 15 anos, foi com Wyatt Cooper, que lhe deu estabilidade, alegria e dois filhos, Carter e Anderson, nascidos em 1965 e 1967, respectivamente.  O quarto marido vinha de uma família enorme e muito unida (“o oposto da minha”) do Mississipi, no sul do país.  Ele também seria um pai presente e amoroso, “como nunca tinha visto”, “dançando com Carter e Anderson, cantarolando bossas de Jobim para niná-los”.   Mas ele morreu durante uma cirurgia para colocar uma ponte de safena, depois de dois enfartes.

 

Menos de um ano após ficar viúva, aos 54, Gloria abraça uma nova carreira e lança sua linha de jeans.

 

Nos anos 80, sofre o que chama de sua pior tragédia.  Após se separar da namorada e sentindo-se muito desorientado, seu filho Carter se jogaria do 14º andar do prédio onde a mãe morava, segundos antes de Gloria tentar detê-lo.  Ver o suicídio do filho, então recém-formado na Universidade Princeton, aos 23 anos, deixaria Gloria e Anderson arrasados, mas também mais próximos.

 

É nos últimos capítulos, quando Gloria chega à idade “que jamais pensou alcançar”, que o livro cresce.  Multiplicam-se serenas reflexões sobre a morte, o envelhecimento e o tempo.  “Minha carreira só decolou para valer aos 54 anos, quando lancei os jeans.  Escute sua ‘mamacita’: você tem tempo demais”, alerta ao filho autodenominado “realista e catastrofista”.

 

O jornalista então relembra quando foi estudar vietnamita na Universidade de Hanói, no Vietnã, depois de se formar em ciência política em Yale.  “Aprendi um ditado lá que diz que quando nasce um bebê muito bonito, não se fala ‘que bebê mais lindo’.  O certo é falar ‘que bebê mais feio, como pode ser tão feio?’.  É uma maneira de se afugentar os espíritos malignos, que podem raptar esse bebê.  Isso me ensinou a não dizer nada muito positivo sobre mim.”  Gloria parece discordar, contando aventuras e tragédias sem pudor.  E o filho fez um livro com a melhor autoajuda: os conselhos de mãe.

 

 

Fonte: Folha de S.Paulo/Raul Juste Lores em 15 de maio de 2016.