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O Ano em que Matamos o Corvo
O Ano em que Matamos o Corvo

O ANO EM QUE MATAMOS O CORVO

 

No século I d.C., Nicarco, um poeta da Grécia Antiga, escreveu o seguinte epigrama:  “A tristeza da morte está nas asas do corvo, / A música da morte também está em seu choro, / Mas quando Demófilo inicia o seu coro, / Morre o corvo.”  Não chegou aos nossos tempos a peça de Demófilo sobre a qual o poeta se referiu com tom tão ácido, mas o fato da crítica ter sobrevivido à obra demonstra que, assim como existem anos de avanço cultural, também precisamos ultrapassar períodos de estagnação.

Um observador incauto, analisando as prateleiras das livrarias ou as listagens de e-books, diria que nunca se lançou tantos livros no país.  Um leitor atento, contudo, perceberia que, no meio do mar de livros, poucas obras mereceriam destaque em 2015.  Constata-se uma grande fragilidade narrativa, uma superficialidade de pensamentos que reflete a indigência cultural de um país imerso em insano binarismo, no qual quem não é amigo só pode ser inimigo, e, acima de tudo, um medo atroz de contar histórias para, nas palavras de Caio Fernando Abreu, enfiar o dedo na garganta.  A literatura atual não responde questões existenciais e está mais parecida com os livros colocados em mesinhas de centro das casas; literatura para ostentar, não para sentir.

 

 

Algumas obras se destacam em meio ao deserto em que os leitores esperam a chegada dos tártaros.  Tratarei dos livros produzidos no Rio Grande do Sul, mais vibrantes e com mais vontade de correr riscos narrativos, pois a mesmice da literatura brasileira atual mereceria uma reflexão própria.  Assim, 2015 foi  um ano feminino, tanto em quantidade de lançamentos quanto em qualidade.  Entre os romances, RUÍNA Y LEVEZA, de Julia Dantas, apresenta uma viagem física e espiritual pela América Latina, que, apesar de momentos de irregularidade, consegue se sustentar e VOLTO SEMANA QUE VEM, de Maria Pilla, o qual, em uma combinação de alegria e amargura, retoma boa parte da sombria história da segunda metade do século XX.  Entre os contos, AMORA, de Natalia Borges Polesso, aborda, sem concessões, o amor homossexual entre mulheres e, apesar de alguns contos destoarem em termos formais de outros, o resultado final é não só surpreendente, como agradável.  Entre as poesias, tivemos o lirismo levado às últimas consequências, quase clássico, de AINDA É CÉU, de Gabriela Silva, e as imagens poéticas condensadas em palavras de POEMA-PÁSSARO, de Juliana Meira.  Perceber o protagonismo literário das mulheres, longe de desmerece-las ou de criar uma categoria por gênero, implica em concluir que mais mulheres não só estão escrevendo como lançando suas obras, o que é alvissareiro para quem gosta de boas histórias.

Mas 2015 também foi o ano em que a experiência falou alto.  Ivo Bender, com QUEBRANTOS E SORTILÉGIOS, mostrou que, quem possui o dom de contar histórias, não interessa a forma, seja teatral ou literária, sempre vai ser capaz de transmiti-la.  Aldyr Garcia Schlee, com FITAS DE CINEMA, trouxe o cinema para dentro da ficção literária, estabelecendo um diálogo entre Hollywood e o Pampa gaúcho.  Tabajara Ruas, com GUMERCINDO, utilizou-se da linguagem cortante de um roteiro para contar a lendária história da cabeça cortada de Gumercindo Saraiva.  Chama atenção que os três autores mais arrojados na estrutura das suas obras sejam os mais experientes, o que põe por terra a ideia de que maturidade literária conduz à repetição de antigas fórmulas.

 

Escritor Gustavo Melo Czekster

 

Em um cenário de relativa calmaria, três romances acabaram se destacando.  O primeiro foi NOITE ÉGUA, de Nelson Rego, que utilizou duplos, espelhos e fantasmas para contar os relacionamentos repletos de dissimulações de uma família.  Outro foi RESPEITÁVEL PÚBLICO, de Henrique Schneider, que lança mão de técnicas tradicionais de narrativa para contar uma história de amor no melhor estilo do realismo mágico, com circos e cidades conservadoras, em um resultado interessante.  Por fim, LONGE DAS ALDEIAS, de Robertson Frizero, a narrativa sensível de um homem em busca do próprio pai e de algo que lhe forneça identidade.  São três romances diferentes, mas que, com competência, apresentam tramas versáteis e bem escritas.

É provável que o 2015 literário seja marcado por dois eventos trágicos, mas emblemáticos: o encerramento da editora Cosac Naify, com a sua ideia um pouco utópica de investir em livros para leitores de verdade, e o incêndio do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.  No entanto, não podemos esquecer que a literatura sobrevive, não nos grandes centros, mas nas regiões periféricas da cultura: está no pujante crescimento da literatura fantástica, está na evolução dos quadrinhos locais, está no steampunk que lança seus vapores literários, está no ressurgimento rebelde das poesias bradadas em saraus, está até nas frases que se escondem nos muros das cidades.  Apesar de tudo e de todos, a literatura perdura nas suas mais variadas facetas e, se 2015 foi o ano em que, sem querer, matamos o corvo, 2016 será o momento de ressuscitá-lo.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Gustavo Melo Czekster (Escritor, autor de O HOMEM DESPEDAÇADO – Dublinense, 2011) em 2 de janeiro de 2016.