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Viver é Ser Livre [Simone de Beauvoir]
Viver é Ser Livre [Simone de Beauvoir]

VIVER É SER LIVRE

 

Simone de Beauvoir, de criança estudiosa a mulher demolidora.

Por Themis Pereira de Souza Viana

 

Criança estudiosa, bonita, filha mimada e centro das atenções em casa.  Mais tarde, uma colegial aplicada num rígido colégio religioso para meninas.  Concluiu seus estudos com boas notas e bom comportamento no Institut Adeline Désir, uma escola católica em Paris, onde as alunas eram instruídas que a missão da mulher é casar e ter filhos.  Simone de Beauvoir passou a infância e a adolescência dedicada aos livros.  Estudou matemática, literatura e línguas.  Na Universidade de Sorbonne cursou Letras e Filosofia, onde conheceu intelectuais, entre eles Jean Paul Sartre.  Destacou-se pela sua erudição adicionada com ideias ousadas à época.

Ninguém imaginou que em pouco tempo, a outrora casta colegial, iria desmistificar todos os valores que fizeram parte de sua infância.  Sofreria uma estranha metamorfose, convertendo-se em uma mulher iconoclasta e irreverente a desafiar o catolicismo e questionar os costumes. Empunharia a bandeira da libertação feminina, da oposição às convenções sociais e familiares.

A busca pela liberdade fez com que saísse de casa e se instalasse num quarto modesto alugado por sua avó.  Passou a relacionar-se intimamente com a sua melhor amiga, apelidada de Zazá.  A morte precoce da parceira a abalou muito.  Mais tarde o espaço de Zazá foi ocupado por Geraldine e Stépha.

Aberta e assumida, dizia que a mulher tem o direito de escolher o gênero de seu relacionamento sexual.   “Ninguém têm a obrigação de prender-se apenas a uma pessoa.  Sexo é uma opção.  Mas deve ser falado frente a frente, abertamente.  Não se deve esconder nada.  Tudo se pode dizer um ao outro.  Sexo não pode ser traição”, era a resposta costumeira dada aos que a entrevistavam.  Nessa altura, Beauvoir já tinha assimilado o existencialismo de Sartre pautado em cima da frase:  “O ser humano não é nada mais do que aquilo que ele faz de si mesmo”.

Em 1949 lançou uma de suas mais polêmicas obras, O Segundo Sexo.  O livro que desmistificou radicalmente por vez o papel da mulher na sociedade.  Tornou-se uma espécie de bíblia dos movimentos feministas.  A frase mais famosa da obra virou bordão:  “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

A partir da publicação a sua vida virou alvo de manifestações nos restaurantes, bares e ruas de Paris.  Não foram poucas as agressões verbais que passaria a ouvir, como “depravada, vadia...”. Por outro lado, não faltavam, talvez, em número maior, as palavras de admiração e aprovação de suas ideias.

Simone tinha plena consciência que se indispusera aos costumes tradicionais.  “É muito difícil assumir a própria liberdade.  É duro, provoca angústia, gera responsabilidade”, justificando os seus atos.

Foi coerente com suas ideias:  nunca casou, apesar da insistência do escritor Nelson Algren, com quem teve um caso de 1947 a 1964, resultando uma correspondência de 304 cartas.  Nunca abdicou de seus relacionamentos abertos, seja com mulheres ou com homens.  Mas o companheiro decisivo de  sua vida foi Jean Paul Sartre, com quem conviveu desde que o conheceu aos quinze anos até a sua morte.

Mas não pensem que este casal nunca se desentendeu.  Apesar de toda a liberdade que se consentiram, a prática nem sempre fechou com a teoria.  O mais antigo impostor do mundo, o ciúme, mostrara-lhes que a liberdade plena cobra um preço muito alto, ou seja, a renúncia da posse do outro.

Desse modo, nem tudo funcionou na nova sociedade proposta por Simone de Beauvoir.  Porém não se pode desmerecer que as suas ideias abriram vários caminhos às mulheres de quase todo o mundo.  O principal deles é o de não ser um objeto nas mãos masculinas.  Além disso, algumas de suas obras, como o livro Todos os Homens são Mortais, leva o leitor a reflexões profundas sobre o sentido da vida e da morte, a ambição, a sexualidade, o poder, o absurdo das guerras e a face monstruosa de todo o poder absoluto que priva a pessoa de sua liberdade individual.

Juntando tudo que ela escreveu e por tudo o que ela lutou cabe numa pequenina frase:  viver é ser livre.

 

Fonte:  Jornal ZeroHora de 26/7/2015