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Ainda se Leem Eça, Flaubert...
Ainda se Leem Eça, Flaubert...

AINDA SE LEEM EÇA, FLAUBERT...

 

LITERATURA:  ESPECIALISTAS ANALISAM POR QUE LER AUTORES COMO EÇA, FLAUBERT, MUSIL, DRUMMOND E DYONELIO.

POR QUE ESSES AUTORES E NÃO OUTROS?  TALVEZ PORQUE A LITERATURA SEJA UM LABIRINTO NO QUAL NOMES SE CRUZAM E SE AFASTAM COMO NUM JOGO EM QUE TUDO É POSSÍVEL E SUPOSTAMENTE ALEATÓRIO.  O LEITOR É CONVIDADO A CONTINUAR O EXERCÍCIO: AINDA SE LÊ MACHADO DE ASSIS? AINDA SE LÊ KAFKA? AINDA SE LÊ ESPONTANEAMENTE TOLSTÓI?

 

Há perguntas que, por não encontrarem resposta objetivas, tornam-se ainda mais presentes e interessantes: quem foi melhor, Pelé ou Maradona?  Em tempos de Feira do Livro, não é incomum, trazida pelo vento, chegar aos nossos ouvidos uma questão inquietante e provocativa:  “Ainda se lê...?”  Mas não é uma questão genérica.  Ela tem complemento:  “Ainda se lê Eça de Queirós?”.  Ou, “ainda se lê Flaubert?”  Boas perguntas são aquelas que, mesmo não encontrando respostas, permanecem no imaginário das pessoas.  Será que os grandes da literatura são lidos ou apenas conhecidos por força das obrigações escolares?  Outra forma de fazer essa pergunta é: por que ler?  Por que ler tal autor?  Por ser um clássico ou por ainda despertar prazer?

 

 

Um “efeito sépia” doura o passado tornando-o sempre melhor?  Seriam os escritores do passado objetivamente mais geniais por serem do passado?  Ninguém pode superar Pelé por ele ter sido o melhor ou ele é melhor por pertencer a esse passado amarelado pelo tempo e por um efeito que o torna clássico?  Ninguém pode ser melhor do que Balzac, Dostoievsky e Machado de Assis ou isso é um efeito de nostalgia que interdita a superação e condena o presente a reverenciar o que se foi?  Teria o melhor da arte ficado no passado enquanto o melhor da ciência está sempre no futuro?  Não se pretende dar resposta a questões tão maravilhosamente polêmicas e complexas.

Em contrapartida, pode-se pedir a especialistas que respondam: ainda se lê (ou por que ler?) Eça de Queirós?  O escritor Luiz Antônio de Assis Brasil responde.  Ainda se lê Gustav Flaubert?  A professora e crítica literária Léa Masina nos conduz pela mão na busca da solução para esse enigma.  Ainda se lê Robert Musil. Kathrin Rosenfield dá preciosas pistas para entender o universo do autor de O HOMEM SEM QUALIDADES.  Ainda se lê o poeta Carlos Drummond de Andrade?  (Ainda se leem os modernistas?).  Luiz Maurício Azevedo investiga.  Ainda se lê o gaúcho Dyonelio machado?  O escritor Alcy Cheuiche é quem responde.

 

 

Por que esses autores e não outros?  Talvez porque a literatura seja um labirinto no qual homens se cruzam e se afastam como num jogo em que tudo é possível e supostamente aleatório.  O leitor é convidado a continuar o exercício: ainda se lê Machado de Assis?  Ainda se lê Kafka?  Ainda se lê espontaneamente Tolstói?  Alguns desses grandes nomes parecem acionar uma resposta automática: sim.  Outros apesar de suas obras-primas, deixam dúvidas.  Se alguns deixaram de ser lidos, de quem é a culpa?  Dos leitores de hoje?  Da tecnologia?  Da internet?  Da pós-modernidade?  Da Sociedade do espetáculo?  Da vulgaridade dominante?  Da decadência da nossa cultura e da educação?  Da mídia?

A pergunta pode assumir outras formulações:  por que não se lê muito mais certos autores que marcaram época, impressionaram o mundo e fizeram história?  O que faz que um grande autor seja um grande autor? Literatura não é ciência.  Muito menos ciência exata.  A sua magia está também  no fato de que, como no futebol, muitas especulações são possíveis.  O imaginário se alimenta de perguntas e respostas sem fim.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Juremir Machado da Silva em 31 de outubro de 2015.