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O Riso Popular na Literatura do Renascimento
O Riso Popular na Literatura do Renascimento

O RISO POPULAR NA LITERATURA DO RENASCIMENTO

 

O riso era condenado pelo cristianismo oficial da Idade Média.  O tom sério caracterizava a cultura medieval oficial, sendo a única forma de expressar a verdade, o bem e tudo o que era importante.  Valorizava-se o medo, a veneração, a docilidade, a resignação, a estratificação e a permanência da tradição, considerando-os o tom correto para os cultos, os rituais e as cerimônias oficiais.

 

Essa seriedade, entretanto, fazia com que se legalizasse o riso e a alegria em cerimoniais puramente cômicos, como as festas dos loucos, em que estudantes e clérigos inundavam as praças, as ruas e as tavernas, com máscaras, fantasias, danças e festivais.  Os ritos e os símbolos religiosos eram então degradados de forma grotesca, passando do plano espiritual para o material e terreno: embriaguez, comilanças, gestos obscenos, desnudamento, etc.  Eram dias dos bufões e das brincadeiras.

 

A cultura popular do riso na Idade Média viveu e desenvolveu-se, assim, fora da esfera oficial da ideologia e da literatura elevada.  E graças a essa existência extra oficial, ela se distinguiu por seu radicalismo e sua liberdade, por sua implacável lucidez.

 

Durante o Renascimento, o riso, na sua forma mais radical, universal e alegre, pela primeira vez, separou-se das profundezas populares e penetrou decisivamente no seio da grande literatura e da cultura “superior”, contribuindo para a criação de obras de arte mundiais, como Decameron, de Boccaccio, o livro Rabelais, o romance de Cervantes, os dramas e comédias de Shakespeare, etc.

 

Decameron – livro de contos em que o autor, o italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375), exalta a beleza e o amor terrenos.

 

Mil anos de riso popular extra oficial foram, assim, incorporados na literatura do Renascimento.  (...) Ele se aliava às ideias mais avançadas da época, ao saber humanista, à alta técnica literária.  Na pessoa de Rabelais, a palavra e a máscara do bufão medieval, as formas dos folguedos populares carnavalescos, a ousadia do clero, que parodiava as palavras e os gestos dos saltimbancos de feira, associaram-se ao saber humanista, à ciência e à prática médica, à experiência política.  Em outros termos, o riso da Idade Média, durante o Renascimento, tornou-se a expressão da consciência nova, crítica e histórica da época.

 

Mikhail Bakhtin. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo/Brasília, Hucitec/Universidade de Brasília, 1987. P. 62-87 – adaptado.