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A Morte de Argos
A Morte de Argos

A MORTE DE ARGOS

PERSONAGENS QUASE HUMANOS – PARTE 2

 

Na minha primeira viagem à Grécia, surpreendeu-me o afeto com que as pessoas tratam os cachorros de rua.  Não falta quem, ao sair de casa, carregue Sacola para alimentá-los.  Ocorreu-me Diógenes, um pensador que despontou no ocaso da cidade-Estado.  Por terem tomado o cachorro como modelo de comportamento, Diógenes e seus discípulos ficaram conhecidos como cínicos (caninos), palavra derivada de kýon (cão).  Conta-se que Alexandre, o  Grande, rei da Macedônia e conquistador da Grécia, resolveu, em manhã ensolarada, visitar o cínico dos cínicos, abrigado, como outros miseráveis, numa barrica.  O brilhante triunfador, condoído do intelectual carente, perguntou e que lhe poderia ser útil.  “Não me tires o que não me podes dar”, foi a resposta.  O desamparado se referia ao sol que o herói equestre escondia. Diógenes e os atenienses de agora contribuem para compreender os vínculos afetivos que ligavam Ulisses e Argos, cachorro que, velho e alquebrado, só se rendeu à morte depois de rever Ulisses, ausente por quase 20 anos.  Homero, econômico no relato de empresas desastradas, dedica dezenas de versos a Argos.  O nome enobrece o cachorro.

 

                      

 

Ao perambular, ébrio de antiguidades, entre colunas, erguidas por Pisístrato, de um templo consagrado a Zeus, e de olhos voltados ao Partenon, apareceu-me Ulisses em pessoa.

- Que faz você por aqui?

- Senti frio no Hades, vim abastecer-me de calor.

- Você sai a hora que quer?

- Tenho regalias.  Argos fez amizade com  Cérbero, cachorro de três cabeças, encarregado de guardar a entrada no Reino dos Mortos.  Enquanto os cachorros brincam de caçar, saio para espairecer.

- Por que você deu o nome de Argos a seu cachorro?

- Aventuras povoaram-me a cabeça.  Argos, filho de Frixo, construiu a nau que levou a Cólquida Jasão, aventureiro que embarcou com o propósito de capturar o velo de ouro.  Eu vivia sonhando.  Não podia imaginar que o destino me conduzisse a Troia, a uma guerra que me distinguiu com feitos memoráveis, superiores aos dos aguerridos argonautas.  A sorte me reteve longe de Ítaca por quase  20 anos.  Na minha ausência quem cuidou da minha mulher e de Telêmaco,  meu filho, foi Argos.  Ele me identificou, embora revestido de trapos, expediente a que recorri para não ser atacado pelos pretendentes de Penélope.  De olhos cansados, Argos reconheceu-me pelo faro.

Ulisses e Argos falavam calados.  Se você quer um ser que se move entre o mais baixo e o mais alto, como sugere Joyce, pense em Argos.  Gestos dizem mais do que palavras.  Mares, sucessos e insucessos não tinham rompido os laços da amizade.  Ulisses reviu nos olhos de Argos o mundo anterior a Troia.  Argos, indiferente a passado e futuro, vivia no presente.  Em combate, o cachorro não pensava em vantagens, ele era todo pernas, dentes, pescoço, músculos.  Argos era exemplo de guerreiro e de vida.  Platão, ao arquitetar, mais tarde, a constituição de uma República justa, propôs cachorros, dignos à maneira de Argos, como modelos dos guardiões do Estado.  Argos sorvia deliciado cada instante.  Enquanto levantava os olhos apagados a Ulisses, escorriam anos de ausência.  Argos experimentou visceralmente a presença de Ulisses.  Fechou os olhos como quem pede licença para dormir.

Ulisses vê no Argos agonizante mais do que a morte de um amigo, o monarca se despedia de um guerreiro.  Aprendera de Argos, a arte de combater.  Argos não lutava por si, arriscava a vida para proteger agredidos.  Do sub-humano ao divino, Argos era exemplo de luta acontecendo, nunca concluída.  Com  o retorno de Ulisses, cumprida a tarefa.  Argos sentia-se no direito de descansar.  Um dia Ulisses seguiria os passos de Argos ao reino escuro, Argos e Ulisses se fizeram literatura para o encanto de muitos.

 

                                

 

A visão da morte nos dá projetos de vida.  Ulisses viu na fraqueza do seu cachorro uma Ítaca envelhecida.  A morte de Argos ativa a sanha de Ulisses.  O rei de Ítaca viu na insolência dos pretendentes o ímpeto de interesses pessoais.  Encenou a luta por uma Ítaca renovada.  Ítaca só poderia tornar-se uma terra justa a partir de si mesma.  Ulisses rebelou-se me Ítaca contra os males de Ítaca.  Sonhava com um país em que o bem-estar de todos estivesse acima dos privilégios de alguns, uma unidade política em que se reuniriam cidadãos para estabelecer em liberdade normas de convivência, lugar em que emergiriam inventores de seu próprio futuro.  Como ser livre, se aqueles que deveriam cuidar de nós, minam a liberdade de viver, de sonhar, de dormir?  Ulisses desejava enterrar a Ítaca de magnatas gananciosos para legar a seu filho um território em que se elaborassem projetos promissores.

Depois de limpar o palácio, Ulisses parte sabiamente para aventuras longe de Ítaca.  Novas energias deverão construir convivência renovada.

Potentados endinheirados não impeçam que brilhe sobre nós em raios fúlgidos o sol da liberdade.

 

Fonte:  Correio do Povo/Donaldo Schüler(Doutor em Letras na UFRGS, professor, ensaísta e tradutor do grego) em 12/09/2015