Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
10





                                              

                            

 

 

 


Jovem Mulher, de Léonor Serraille
Jovem Mulher, de Léonor Serraille

RETRATO DE UMA JOVEM MULHER À DERIVA

 

Léonor Serraille estreia como diretora em filme que acompanha protagonista após o fim de relação abusiva

 

Por Luiz Carlos Oliveira Jr.

Folhapress

 

Primeiro longa-metragem de Léonor Serraille, JOVEM MULHER é o que alguns chamariam de “estudo de personagem” ou tão somente de “retrato”. A câmera cola em uma jovem de 30 anos e a acompanha durante todo o filme, registrando seus movimentos inquietos, suas oscilações de humor.

 

A protagonista, Paula (Laetitia Dosch), acaba de ser rejeitada pelo namorado mais velho, que a mantinha numa relação abusiva, conforme rapidamente percebemos. Sem ter onde morar e sem se entender muito bem com a mãe, Paula fica à deriva; sua vida se torna um vaivém incessante, entre lares provisórios e interações mais ou menos passageiras com outras pessoas.

 

No cinema, um retrato se distingue de uma narrativa mais convencional por não priorizar o encadeamento romanesco ou a amarração cuidadosa dos eventos dramáticos, preferindo se concentrar no registro de pequenas vivências que, ao final, configuram o quadro existencial de um sujeito, seu modo de ser, sua personalidade.

 

Trata-se de representar uma pessoa não por suas ações ou por seus feitos notáveis, mas pelos traços definidores do seu caráter.

 

Em JOVEM MULHER, a moldura do retrato é incerta e a figura dentro dele é polimorfa, não cabe no clichê da personagem feminina à beira de um ataque de nervos.

 

Numa cena no metrô, um rapaz de terno e gravata alerta Paula de que ela se esqueceu de tirar o crachá da loja de lingerie onde trabalha. A réplica de Paula quebra qualquer expectativa: “Sim, e você se esqueceu de tirar a gravata”.

 

Uma vez que Paula está em praticamente todos os planos de JOVEM MULHER, a performance da atriz que a interpreta se torna o centro energético do filme, cuja força depende muito do tipo de magnetismo que ela estabelece com a câmera.

 

Os limites plásticos e dramáticos dos planos – sua composição, sua duração, sua intensidade – não parecem vir de fora, mas serem criados internamente, pela dinâmica de expansão e contração da área em que o corpo da personagem principal atua.

 

Assim, o trabalho da diretora não consiste em arquitetar o quadro em que a ação se inscreverá segundo regras de mise-en-scène ditadas de cima, mas em criar as condições para que se potencialize a performance transbordante de Laetitia Dosch

 

É algo que John Cassavetes sempre fez muito bem e que os irmãos Dardenne em algum momento souberam fazer, e que tem a ver com a ideia de usar o cinema não para dar contorno e forma à realidade, mas, inversamente, para enfatizar que a vida é uma sucessão caótica de experiências.

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=9gcWDpixXu0

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno em 22/12/2017