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Julieta de Pedro Almodóver
Julieta de Pedro Almodóver

CONTO DA MATERNIDADE

 

Vinte vezes Almodóvar.  JULIETA, longa-metragem em cartaz desde ontem na capital gaúcha, completa a segunda dezena na filmografia do mais conhecido diretor espanhol.  O título chega ao Brasil ainda na crista da onda: há dois meses, era exibido dentro da mostra competitiva do Festival de Cannes, arrancando aplausos do público.  Apresentado em cores contrastantes, o trabalho explora o sentimento de culpa e a maternidade – temas que aparecem com pinceladas de suspense e muito melodrama.

 

Na narrativa, o realizador de MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS,  MÁ EDUCAÇÃO e A PELE QUE HABITO se debruça sobre a história de uma mãe cuja vida sofre nova reviravolta.  Quando o público conhece a personagem-título, ela está prestes a esbarrar em uma amiga da filha.  Acontece que a jovem Antía sumiu da vida de Julieta há 12 anos, sem dar nenhuma justificativa.  Com uma pista sobre o paradeiro da garota, a protagonista vê também os fantasmas do passado retornarem.

 

O roteiro passa a se valer, então, de uma série de flashbacks para destacar a trajetória desta mulher.  Entram em pauta sua relação com a filha, marido, pais e até com locais que remetem a afeto e memória.  De um realismo que só se desmente na própria ideia de ficção em longa-metragem – onde tudo ou quase tudo tem um porquê narrativo –, o filme acompanha o desenvolvimento de uma mente perturbada pela complexidade da culpa.

 

Nesse sentido, JULIETA não deixa de ser um estudo sobre a obliquidade no elo entre ações e reações.  Seja no cotidiano, em situações-limites ou no somatório do convívio, tanto o que foi dito quanto o que não foi dito são capazes de dar origem a faíscas incendiárias.  É neste mar de incerteza que tateia a protagonista, interpretada por Adriana Ugarte e Emma Suárez em diferentes fases da vida.  E a troca das atrizes, aliás, acontece de maneira peculiar sem deixar de denotar uma transformação emocional e psicológica.

 

A personagem entra para o rol de mulheres atormentadas às quais o cineasta vem se dedicando ao longo da carreira.  Entretanto, a diferença, conforme o próprio realizador já afirmou, é que esta pode ser vista como a mais vulnerável de suas personagens.  Se, por um lado, a sobriedade narrativa ressalta o que há de mais humano em Julieta, por outro, pouco a pouco, quebra a aura de mistério indicada no começo do filme.

 

E mesmo que o relacionamento com a filha no cerne da discussão, a questão da maternidade não fica atrelada às duas, assim como os tópicos levantados sobre casamento não têm foco apenas na protagonista e Xoan (papel de Daniel Grao).  No panorama apresentado pelo espanhol, pais e filhos se movem entre a ausência, desapego e o esquecimento em uma unidade quase cíclica.

 

Para desenvolver este trabalho, o espanhol teve como base um material já publicado – algo que não é comum em sua cinematografia.  O roteiro da obra é inspirado em três dos oito contos que compõem o livro FUGITIVA (Biblioteca Azul, 352 páginas), de Alice Munro, escritora canadense contemplada com o Prêmio Nobel da Literatura em 2013.  Já o elenco inclui também nomes como Michelle Jenner, Rossy de Palma, Darío Grandinetti e a atriz-mirim Blanca Parés.

 

Quinto título com o qual Pedro Almodóver concorreu à Palma de Ouro, o longa-metragem saiu do festival francês sem nenhum dos principais prêmios.  Como consolação, o realizador foi considerado o melhor diretor do evento pela Internacional Cinephile Society – formada por jornalistas, pesquisadores e outros profissionais ligados à indústria do cinema.

 

TRAILER:  https://www.youtube.com/watch?v=NHkGsbz8rLY

Fonte:  Jornal do Comércio/Ricardo Gruner em 10 de julho de 2016.