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Zama, de Lucrecia Martel
Zama, de Lucrecia Martel

COM AS TREVAS NO CORAÇÃO

 

Diretora Lucrecia Martel adapta para o cinema ZAMA, obra-prima do escritor argentino Antonio Di Benedetto sobre o passado colonial latino-americano.

 

ZAMA, a mais nova produção dirigida pela elogiada cineasta argentina Lucrecia Martel, bem poderia ser um parente distante do clássico O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad, mas vai além. Adaptado do grande (e infelizmente pouco conhecido) romance homônimo do escritor Antonio Di Benedetto (1922-1986), ZAMA é um retrato da colonização americana como uma empreitada vagamente absurda na qual um homem vai gradativamente perdendo a sanidade não pelas trevas que o circundam, mas por aquelas que já habitam dentro dele.

 

Ambientado na década de 1790 em uma localidade remota da América do Sul colonial (o livro é um pouco mais específico em mencionar o Paraguai), ZAMA narra a lenda degeneração de seu protagonista. Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho). Assessor letrado do governador local, Zama começa o filme instalado há 18 meses na colônia, apartado da mulher e dos filhos. Embora seja funcionário da coroa, sua posição na estrutura hierárquica não é boa o bastante para solicitar ao rei a própria transferência, ficando suas pretensões entregues aos caprichos dos governadores que se sucedem na função em uma terra tão distante do centro político que os funcionários são pagos irregularmente com meses de atraso.

 

Não ajuda também o fato de que Zama não tem a habilidade política de conseguir as graças de seus superiores ou do arremedo de sociedade em que transita. Com a passagem dos anos, ele vai gradativamente abandonando algumas das características “civilizadas” que sustentavam sua personalidade. Abre mão da fidelidade à esposa, tem um filho bastardo, torna-se agressivo. Até se convencer de que a única maneira de voltar para sua família é liderar a caçada a Vicuña Porto, um bandoleiro que há anos desafia a administração colonial. Em uma interpretação poderosa, o mexicano (nascido na Espanha) Daniel Giménez Cacho cria um Zama ao mesmo tempo passivo e expressivo, amparado em silêncios intensos e em um leque de emoções expressos no olhar de animal enjaulado. O filme conta ainda com a presença do ator brasileiro Matheus Nachtergaele.

 

PROJETO FOI REALIZADO APÓS FRACASSO DE OUTRA ADPTAÇÃO

 

Zama chega aos cinemas 10 anos depois da última produção dirigida por Lucrecia Martel. Antes de tentar rodas ZAMA, a diretora chegou a trabalhar numa tentativa de transformar em filme o quadrinho argentino clássico de ficção científica O ETERNAUTA, escrito por Héctor Germán Oesterheld com arte de Francisco Solano López.

 

- Na verdade, ganhei o livro (ZAMA) de presente em 2005. E só fui lê-lo em 2010. Em 2008, me ofereceram a adaptação de O ETERNAUTA e trabalhei um tempo nisso. Mas em 2010 já estava claro que não conseguiríamos entrar em um acordo com os produtores. Daí desembarquei do projeto e li várias coisas que não havia lido, incluindo ZAMA – diz Lucrecia Martel, em entrevista por telefone.

 

A diretora, contudo, afirma que a mudança de uma ficção pós-apocalíptica para um filme de época ambientado no século 18 não representou uma grande guinada na forma como ela decidiu trabalhar.

 

- Todos os os que fizemos ZAMA, figurino, maquiagem, arte, os atores, a equipe de direção, a de direção de fotografia, todos pensamos que estávamos trabalhando em um filme de ficção científica. Foi algo que compartilhamos desde o início, para não nos atarmos a nada e nos sentirmos mais livres – fala a cineasta.

 

Essa abordagem mais livre não significa necessariamente anacronismos gritantes ou falta de cuidado com os aspectos técnicos de recriação do passado (eficiente mas não minuciosa), e sim uma atmosfera contemporânea muito palpável, expressa em cenas em que a própria natureza local é um elemento onírico que recria o laconismo denso da obra original.

 

- Penso que sempre tivemos vergonha de pensar que a história é algo absurdo. Sempre tratamos de encontrar razões, uma vontade clara, quando me parece que a história está repleta de coisas absurdas.

 

A impotência e o isolamento que vão corroendo a personalidade de Zama também ecoam angústias bastante modernas, bem como o olhar crítico à própria formação do continente. Contudo, o filme, para Lucrecia, chega em um momento trágico, o da morte da vereadora Marielle Franco.

 

- Lamento que este filme, no qual tentei fazer uma reflexão sobre algumas taras históricas de nossa sociedade, estreie depois do crime contra Marielle Franco. É como uma cacetada. É um crime que torna tudo tão frívolo, tão superficial que me afetou muito. Acho que foi a notícia mais trágica desse tempo – finaliza a diretora.

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=DIyCHcT-zwQ

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 30/03/2018