Translate this Page




ONLINE
14





Partilhe esta Página

                                            

                            

 

 

 


Sopapo Griô, de Ricardo Serraria
Sopapo Griô, de Ricardo Serraria

SOPAPO GRIÔ

É tempo de repensar a construção da tradição e valorizar a participação dos negros na formação cultural do Estado, defende músico e pesquisador. E isso pode se dar pela cultura oral e pela musicalidade dos tambores locais

"A fala é o poder criador mas tem a dupla função de conservar e destruir. Por isso é o grande ativo da magia africana."

Amadou Hampaté Bâ

 

A fala tem suas leis naturais, assim como traz consigo evidências da cultura em que estás embebida. A porta da minha casa, lugar de onde enxergo o mundo ao meio-dia: falavras negras ouvidas por um pardo morador da zona sul de Porto Alegre.

 

Escolha pessoal deliberada: a cabeça cheia de terra de areia, olho curumim encharcado de Litoral Norte, ouvidos saladeiros repercutindo vozes negras em cânticos com tambor espalhados pelo sul da Pachamama. Eis aí, junto do sopapo e de seus tambores irmãos, musicalidades e ancestralidades orais vindas da África.

 

Miro a cultura percussiva negra como materialização e pertencimento, avançando para a necessidade de ouvir a fala dos tambores negros do Rio Grande do Sul, da bacia do Prata e de arredores arrabaleros. Olhos de falar e boca de ouvir foi o que suguei no seio de mãe África. Alguém aí arrisca me dizer como se deu o sequestro do negro na formação cultural do folclore gaúcho?

 

Tambores negros, bem como indígenas, estão associados à tradição de cultura popular, mesclados muitas vezes com elementos europeus, em diferentes lugares do país como Bahia, Rio de Janeiro, Pará, Maranhão, Pernambuco, Espírito Santo, Minas Gerais etc. Quem respira está em dúvida: por qual motivo essa associação de tambores com cultura e folclore local não ocorreu ao longo do século 20 no Rio Grande do Sul? Em que medida se deu a exclusão de negros e indígenas da formação cultural do Estado? Será que não houve esforços deliberados de pertencimento à Europa através do branqueamento do folclore gaúcho? Não se pode pentear uma pessoa quando ela está ausente.

 

Impossível negar a histórica presença negra no período colonial na Bacia do Prata e arredores: mão de obra escravizada enquanto base da ocupação na região desde 1680, fundação da Colônia do Sacramento no Uruguai com a chegada de negros junto aos militares lusos que ali chegaram. Depois, em 1725, na fundação da Vila de Rio Grande, do mesmo modo, a frota de João Magalhães trazia negr5os e pardos em maior número e, já no final do século 18, assim como na primeira metade do 19, a pujança econômica das charqueadas em Pelotas confirma que o trabalho pesado no extremo sul do Atlântico era negro nessa época. Aquele que corrompe sua palavra corrompe a si próprio.

 

Aponto então a presença das falas negras em diferentes partes do cone sul e a riqueza das musicalidades quilombolas desde o período colonial, vivas ao longo do século 20 até o presente. Candombe uruguaio e em Entre Rios, na Argentina, ou ainda na comunidade Cambacuá, no Paraguai, perto de Assunção, sopapo sul-riograndense, rede de congadas no Rio Grande do Sul, Batuques de Ilú mais inhã e agês orixalizando toda a gente.

 

Tempo de questionar tentativas de apagamento, perscrutar escamoteamentos, formas concretas de enxergar nas entranhas a permanência de um discurso, que se quer tradicional, a embasar o folclore eurocêntrico. A língua que falsifica a palavra vicia o sangue daquele que mente, adagiou Komo Dibi, poeta de Mali.

 

Assim, reconhecer as poéticas negras na região através do tambor, da África às charqueadas e saladeiras sobrevivendo no Carnaval enquanto sopapo e candombe, permanecendo nas congadas e Batuques, é prática necessária na contemporaneidade gaúcha. A reinvenção negra na música popular da segunda metade do século 20 no Estado e no Uruguai comprovam porque tamboralizam isso também em potentes poéticas cancionais.

 

A noção de tamboralitura com ênfase no tambor sopapo e nas vozes entoadas junto a ele é parte dessa linha direta daquilo que precisa ser revisto como "gauchidade". O sopapo como sujeito de enunciação do negro gaúcho, não sendo apenas representação, mas também autoria. Invertem-se os papéis: o ser tão humano passa a ser instrumento, e o tambor se corporifica enquanto griô, trazendo com isso o reconhecimento da contribuição negra à construção econômica e cultural do Rio Grande do Sul.

 

Em suas entranhas de madeira compensado e couro de cavalo, fala a língua de um artefato político, para muito além de um instrumento musical. É urgente, portanto, a incorporação das poéticas negras praticadas junto aos tambores ao corpus da cultura desse Estado. Adágio, mais um: eu, que vivo de um punhado de comida, uns goles d'água e de alguns sopros de ar, já sei que o homem em suas invenções de tradição não é infalível. O sopapo me ensinou assim. O tambor é meu pastor, de lei eu sei, Oxalá é quem cuida de mim, meu Rei!

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Ricardo Serraria/Cantor, compositor e poeta, doutor em Literatura Brasileira (UFRGS) em 16/08/2020