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Inventário das Sombras de José Castello
Inventário das Sombras de José Castello

A BOA LITERATURA NÃO É SAGRADA. É PROFANA, IMPERFEITA E ESTÁ VIVA

Entrevista com José Castello — Escritor e jornalista, autor de INVENTÁRIO DAS SOMBRAS — 17 Retratos de Grandes Escritores

Livro: INVENTÁRIO DAS SOMBRAS — 17 Retratos de Grandes Escritores de José Castello, Editora Record, 324 páginas

 

Publicado originalmente há mais de duas décadas, INVENTÁRIO DAS SOMBRAS é uma coletânea de minibiografias de grandes escritores calcadas em entrevistas que seu autor, o escritor e jornalista José Castello, realizou com eles. A nova edição, que acaba de chegar ao mercado, acrescenta à lista de autores retratados o gaúcho João Gilberto Noll e o pernambucano Raimundo Carrero, além de um autorretrato do próprio Castello, carioca que editou os suplementos culturais de alguns dos maiores jornais do Brasil, biografou o poeta Vinícius de Moraes e ganhou três prêmios Jabuti.

— Noll é um gênio — ele justifica a escolha do autor de HOTEL ATLÂNTICO, posicionando-=o ao lado de Carrero:

— São escritores limítrofes. Seus relatos ultrapassam o literário e a própria literatura.

Trata-se de uma característica que une os 17 perfilados, de Clarice Lispector a José Saramago, de Raduan Nassar a Arthur Bispo do Rosário, de Nelson Rodrigues a Caio Fernando Abreu. Com sua arte, todos tocam "zonas sombrias" da natureza humana — "Aquilo que ninguém quer ver, ou que todos temos dificuldades de ver", explica Castello. Por isso o título, que faz referência ao que seria o contraponto do mundo superficial das aparências, cada vez mais em voga a partir do culto à superexposição, ao escândalo, ao brilho.

As perguntas a seguir, sobre a vida e a obra dos escritores, as luzes e as sombras da criação artística, ele respondeu por e-mail.

 

São as sombras que definem um grande escritor? Digo, é como o escritor encara suas sombras e as transforma em literatura que o faz grande?

Quando penso em sombras, penso em tudo o que permanece oculto, abaixo das superfícies e das luzes. Penso em nossos segredos mais antigos, nossas ruminações íntimas, nossos pesadelos, nossos sentimentos inomináveis. Vivemos em um mundo devassado, superexposto, em que as pessoas e as coisas se exibem todo o tempo. A internet e as redes sociais exacerbaram um culto às imagens, ao brilho e ao superficial.  Todos querem aparecer, todos querem brilhar, ser conhecidos, se expor sem limites. Os grandes escritores trabalham na contramão desse processo de escândalo. Sua matéria é aquilo que ninguém quer ver, ou que todos temos dificuldades de ver.

 

Um escritor sem tormentos seria um escritor com menos a dizer?

O homem sem tormentos não existe, não passa de uma ficção criada pela sociedade do sucesso, do desempenho e da vitória. Hoje todos querem ser vencedores, e, no entanto, o fracasso é parte essencial de nossas vidas desde o nascimento. Nascer, de certa forma, já é fracassar, pois significa abandonar para sempre o mundo perfeito e acolhedor do ventre da mãe. Só os cínicos e os falsários simulam trabalhar em um estado contínuo de felicidade. A derrota é parte essencial da existência humana. Estamos sempre aquém de nós mesmos, e só por isso nos dedicamos à arte.

 

Você diz que prefere ler aquilo que os escritores têm a dizer do que aquilo que os teóricos formulam sobre suas obras. Por quê?

Tenho imenso respeito pelos teóricos e pela teoria. No Brasil temos grandes teóricos da literatura — basta pensar em Leyla Perrone Moisés, Silviano Santiago, Flora Sussekind, Antonio Cândido, entre tantos outros brilhantes estudiosos. Ocorre que não sou um teórico. Muito raramente leio teoria literária. Com frequência, as pessoas se referem a mim como "crítico literário". Sei que é uma referência respeitosa, amorosa, mas não a considero verdadeira. Considero-me mais um "leitor sentimental". Minha bagagem teórica é muito pobre, quase nula. Meus instrumentos de leitura são a intuição, o devaneio, os sentimentos. Prefiro me definir, também, como leitor comum. Quando me entrego à leitura de um romance, ou um poema, leio como qualquer um movido sobretudo pelo desejo de sonhar. Minhas "críticas literárias" são, na verdade, "cartas" que escrevo para relatar a viagem que fiz através de um livro. Podia escrever sobre uma viagem à montanha, à Ásia, à Lua. Em vez disso, escrevo sobre a viagem que fiz a Kafka, a Clarice, a Dostoievski.

 

De algum modo, ao expor suas ideias sobre literatura, pode-se considerar que um escritor também poderia construir teoria?

Não sei se "teoria" é a palavra certa. A teoria aponta, em geral, para um pensamento mais organizado, sistemático, baseado na construção e na aplicação de conceitos. Se minha escrita se aproxima de algo que vai além da ficção, provavelmente é do ensaio — gênero livre, sem compromissos dogmáticos, "flutuante". Na verdade, desde jovem aprecio os escritos híbridos, fronteiriços. Penso que as classificações e os gêneros funcionam mais como camisa de força, engessando a escrita. Quanto a mim, prefiro a liberdade interior, o caos, a desordem, que me parecem instrumentos mais produtivos na aproximação do real, que é ele mesmo complexo, dinâmico, imprevisível.

 

Vivemos hoje uma "cultura do cancelamento", com autores sendo interditados pelo que fizeram ou deixaram de fazer em suas vidas pessoais. Olhar para um escritor para além de sua obra pode aumentar o interesse pela sua literatura, como você afirma no prólogo, mas, ao mesmo tempo, não daria margem a ruídos na compreensão do que ele escreveu?

Entendo o que você diz, mas não vejo como ruídos, e sim como interferências. E dessas interferências ninguém escapa. Ao contrário: entendo que elas são partes fundamentais do processo criativo. Talvez o processo me interesse anda mais do que a obra. A obra é uma espécie de resto, é aquilo que o escritor conseguiu fazer de sua travessia. Não tenho nenhum respeito sagrado pelo texto. Tampouco me importo com a ideia de perfeição. Hoje em dia, pensa-se muito — não só nos textos literários — no "bem-acabado", no impecável, no funcional. A literatura, insisto, não é sagrada, ao contrário, é profana, imperfeita e está viva. Pense em Kafka, um escritor que nunca se importou com os "bons resultados". A ideia de eficácia domina nossa era pós-industrial. Pode servir para as empresas e para os negócios, mas para a literatura não serve. A arte é uma experiência viva. Você pega DOM QUIXOTE ou O ASNO DE OURO, ou uma tela de Tiziano ou um Rembrandt, e eles ficam cada vez mais vivos, renascem sempre que são lidos ou vistos por alguém. Ler DOM QUIXOTE não é se ater só às palavras de Cervantes, mas também aos sonhos, às experiências, às dúvidas que ajudaram a moldá-lo. Através da leitura, é a vida que você sempre retorna.

 

No texto sobre João Gilberto Noll, você aborda a dificuldade de se aproximar do autor perfilado e termina afirmando que só lendo um de seus livros ele parece falar com você3. Na sua experiência de entrevistador e biógrafo, trata-se de algo recorrente ou nem todo escritor é fechado assim?

Ninguém ignora que Noll foi — além de um gênio que ainda precisa ser descoberto — um homem muito fechado. Ele mesmo chegou a se definir, talvez em um exagero, como "esquizofrênico". Mas todos temos nossos segredos. Todos estamos envoltos em cadeados. E não penso apenas nas coisas que escondemos dos outros, mas sobretudo no que escondemos de nós mesmos. Escrever é rondar nosso núcleo duro e escuro ao qual ninguém, nem os melhores leitores, nem nós mesmos, chegamos. É rondar um enigma — que jamais será decifrado. Puxamos alguns fios, extraímos algumas pepitas preciosas, mas é só isso. O pouco que conseguimos arrancar, depois de longo e exaustivo trabalho, é a literatura. Mesmo o escritor mais extrovertido – penso, por exemplo, em Hilda Hilst – se torna transparente. A vida é, em si mesma, um segredo. Vivemos em um universo em expansão acelerada, que despenca no cosmos. Tudo se mexe e se transforma durante todo o tempo. Estamos em um ônibus cujo trajeto é desconhecido.

 

O que o levou a incluir, nessa nova versão do livro, um perfil de João Gilberto Noll, se este autor faleceu em 2017, ou seja, você não o entrevistou recentemente?

Noll foi um dos maiores escritores do século 20. Sua obra, é verdade, escrita em linguagem explícita, radical e sangrenta, com frequência provoca repulsa. Já dirigi um grupo de leitura de SOLIDÃO CONTINENTAL, em Porto Alegre, no qual muitos alunos não suportaram o que leram e abandonaram o curso. Nem todos aguentam ler Noll. O mesmo se passa com Clarice Lispector, o que não impediu que ela se tornasse consagrada em todo o mundo. Incluí Raimundo Carrero pela mesma razão: apesar de seu inegável prestígio, ele ainda é um escritor, um escritor extraordinário, de que muita gente teme se aproximar. Noll e Carrero são escritores limítrofes. Seus relatos ultrapassam o literário e a própria literatura. Não fazem pose, nem gênero. Não querem ser elegantes ou palatáveis. Escrevem com ferocidade e paixão — e por isso são grandes escritores.

 

Qual a diferença de perfilar um autor vivo, como Dalton Trevisan, e um já falecido, como Ana Cristina Cesar? E ainda: a distância também faz alguma diferença ou não é tão distinto escrever sobre Adolfo Bioy Casares e Manoel de Barros?

Fazer o retrato de um autor vivo me parece sempre mais delicado. Trata-se de uma vida ainda em curso — muita coisa pode mudar, ser desmentida, perder a importância. Por outro lado, estando o autor vivo você tem a possibilidade de tê-lo como parceiro para desfazer dúvidas, corrigir datas ou nomes, esclarecer coisa mais obscuras. Mas isso pode também trazer problemas futuros: o retratado pode vir as não se reconhecer no retrato e não gostar dele. Seja como for, retratos exigem delicadeza, sutileza, elegância e perícia. Você tem que ter em mente, todo o tempo, que — vivo ou morto — você está lidando com a alma de uma pessoa.

 

Você termina o autorretrato que encerra o livro escrevendo que nunca se livrará de Vinícius de Moraes, autor que biografou nos anos 1990. Lendo INVENTÁRIO DAS SOMBRAS, parece que você "não se livra" de nenhum dos 17 perfilados, pela profundidade do olhar que lança e pela descrição das experiências de entrevistá-los. Isso é bom ou ruim? Fale mais sobre essa sensação, por favor.

Muitos pensam que, para fazer um bom retrato, você precisa tomar distância emocional e psicológica do retratado. Penso o contrário. O retratista não é um cirurgião, que lida apenas com órgãos e ossos. Ele lida com almas. Acredito que é impossível traçar um bom retrato de alguém sem se envolver, sem "se apaixonar" e, até, sem tomar o lugar de seu retratado. A canadense Claire Varin, especialista em Clarice Lispector, tem a esse respeito uma tese com a qual compartilho. Diz Claire que, para ler Clarice, é preciso "ser Clarice". Penso que, para retratar Clarice, também é preciso "ser Clarice". Colocar-se em seu lugar, não a julgar, tentar ver com seus olhos, escutar e ler, com atenção e sem pré-julgamento, seus pensamentos e palavras. Essa postura exige do escritor envolvimento com o retratado. E, ainda, um grande sacrifício de si — de suas convicções, crenças, ilusões. Essa experiência radical de envolvimento com o outro é, por fim, uma experiência de que você nunca se livra inteiramente. O outro se torna, de alguma forma, parte de você. E isso, minha experiência me diz, é para sempre.

 

 

Fonte: Zero Hora/caderno DOC/Daniel Feix (daniel.feix@zerohora.com.br) em 17/07/2022.