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Entrevista com Fernando Aramburu, autor de Pátria
Entrevista com Fernando Aramburu, autor de Pátria

ENTREVISTA COM FERNANDO ARAMBURU

Escritor, autor de PÁTRIA, best-seller internacional adaptado para a TV, em série em exibição na HBO

"FORA DA DEMOCRACIA, ESTÁ O INFERNO"

 

Em uma Espanha sob a ditadura de Francisco Franco, surgia em 1959 o grupo terrorista ETA, que buscava a separação do País Basco. Naquele mesmo ano, na bela cidade basca de San Sebastián, nascia o escritor Fernando Aramburu. De lá para cá, a Espanha viveu a transição para a democracia, o ETA (sigla para "Pátria Basca e Liberdade") anunciou o cessar fogo e Aramburu viu um de seus livros tornar-se fenômeno literário, ao narrar as feridas abertas pelo extremismo do grupo.

Na obra, batizada de PÁTRIA, o escritor conta as histórias de duas famílias separadas pela atuação do ETA em uma vila próxima a San Sebastián. O livro, lançado em 2016, vendeu mais de 1 milhão de exemplares só em língua espanhola, chegando a cerca de 30 países. No Brasil, foi publicado pela editora Intrínseca. Após colecionar prêmios e elogios, deu origem a uma série com o mesmo nome. PÁTRIA, a obra televisiva, entrou na HBO no final de setembro.

Em entrevista concedida por e-mail, Aramburu conta detalhes da criação do livro e a experiência de vê-lo retratado em uma série. Hoje, ele se diz "incapaz" de pensar nos personagens da história sem associá-los aos rostos dos atores.

Desde meados dos anos 1980, o escritor vive na Alemanha, terra natal de sua esposa. Mesmo afastado do País Basco, guarda na memória ações praticadas pelo ETA, que anunciou o fim das operações em 2011. Mais de 800 mortes são atribuídas ao grupo.

Aramburu entende que movimentos nacionalistas e de extremismo político têm, atualmente, diferenças em relação àqueles defendidos por organizações como o ETA. Atualmente, diz o autor, estão relacionados à construção de "muros" e à ideia de "nação como uma casa com portas fechadas para quem vem de fora".

 

O senhor viveu parte de sua vida em San Sebastián. Quais são suas primeiras recordações da vida no País Basco?

Tenho recordações positivas. Fui criança e adolescente em um bairro periférico da bela cidade de San Sebastián, no seio de uma família modesta da classe trabalhadora em que não faltava afeto. O regime de Franco tinha tudo sob controle, mas começava a mostrar as primeiras rachaduras. Aos adultos não faltava trabalho. Eu jamais conheci a miséria.

 

 

 

Como era viver no País Basco nos tempos do ETA?

No princípio, acreditávamos que a violência era uma estratégia contra a ditadura e que pararia se ela desaparecesse, mas não foi assim. Com a chegada da democracia, aumentaram as ações terroristas e os mortos. Minha memória está cheia de fogo, explosões, sirenes, funerais, silêncio e medo. Teria preferido um ambiente mais propício para o desenvolvimento dos jovens.

 

 

O senhor mora na Alemanha desde os anos 1980. Por que decidiu viver no país?

Sendo estudante, conheci uma garota alemã. Nos apaixonamos, e fui viver com ela em seu país, onde formamos uma família. Trinta e sete anos depois, seguimos juntos.

 

 

Como surgiu a ideia de escrever PÁTRIA?

PÁTRIA se insere em um amplo projeto de relatos e novelas protagonizados por pessoas bascas do meu tempo, com ênfase nos comportamentos humanos durante largo período em que houve violência no País Basco. Não é o primeiro livro que dedico à questão. Por suas características, PÁTRIA alcançou dimensões notáveis e, de certo modo, ficou independente do projeto.

 

 

Um livro como PÁTRIA só poderia ter sido escrito longe de sua terra natal?

Escrevo meus livros em solidão. Necessito de calma, documentação e uma rigorosa disciplina. Se tenho tudo isso, não importa onde está meu domicílio. É verdade que viver na Alemanha me proporcionou uma perspectiva para a meditação e o sossego, o que pode ter resultado em benefício ao trabalho.

 

 

O senhor esperou o fim do ETA para escrever PÁTRIA?

Escrevi livros relacionados à atividade do ETA quando a organização terrorista atuava. Agora, quem ler PÁTRIA comprovará que a história começa quando o ETA declara que não voltará a atuar. Esse fato marca o começo da minha narração nessa obra.

 

 

PÁTRIA é um fenômeno literário. O senhor imaginava que o livro poderia alcançar tamanho êxito?

O êxito é uma circunstância decidida pelos outros. Prevê-lo teria sido um ato de soberba. Eu tinha certas expectativas. Tenho-as cada vez que publico um livro novo. No geral, essas expectativas não se cumprem de forma modesta. Meu editor espanhol fala de um tsunami para qualificar o êxito de PÁTRIA. Um tsunami é produzido geralmente de surpresa.

 

 

O que a história tem que é capaz de chegar a tantos países?

Pode ser que tenha conseguido mesclar as doses justas de literatura e verdade humana, claro que sem propor isso friamente, nem aplicando uma receita. Trato no livro de temas universais: a família, a dor, o medo, a violência, o perdão e a reconciliação. Faço isso não de uma maneira teórica ou abstrata, mas a partir de nove protagonistas em suas circunstâncias cotidianas.

 

 

O quanto o senhor esteve envolvido com a adaptação televisiva?

Escrevi a história em que a série se baseou. Essa foi toda a minha participação. Não intervi mais porque entendo pouco de cinema e não gosto de ser inspetor do trabalho alheio, nem de incomodar. Isso foi possível pela grande confiança na equipe encarregada do projeto, começando pelo roteirista e produtor, Aitor Gabilondo. Aquela confiança inicial foi confirmada pelos excelentes resultados.

 

 

Como foi a experiência de ver uma série baseada em um livro seu?

Vi a série sozinho na minha casa, sem testemunhas, livre de ter de opinar rapidamente. Me emocionou muito reconhecer meus personagens na tela. Agora sou incapaz de pensar neles sem colocar as caras dos atores. A série é uma das coisas mais lindas que aconteceram na minha vida.

 

 

PÁTRIA mostra como os conflitos políticos podem causar danos à sociedade. O que o povo basco aprendeu como os momentos de tensão política do passado?

Parece que os bascos têm aprendido que a violência destrói a todos, não apenas os que a recebem, também aqueles que a exercem. Espero que as gerações futuras tenham aprendido essa lição e entendido que, fora da democracia, está o inferno.

 

 

Hoje é possível ver em diferentes países, inclusive no Brasil, movimentos nacionalistas e de extremismo político. Qual é a sua opinião sobre este momento? Quais são os riscos dessa situação para a sociedade?

Vivo em um continente em que o nacionalismo gerou enormes tragédias sociais. É bem verdade que os nacionalistas europeus atuais não são como aqueles do século 20 que postulavam a depredação dos territórios vizinhos e a liquidação de milhões de cidadãos em campos de extermínio. O nacionalismo dos nossos dias é mais de isolamento. Levanta muros, considera a nação como uma casa privada com portas fechadas para quem vem de fora. Eu não o apoio. Estou pela fraternidade dos homens, pela solidariedade e pelo respeito. Em suma, pelos valores do humanismo.

 

 

O que o senhor conhece sobre o Brasil atual?

Visitar o Brasil é um dos meus maiores desejos. Nem o país, pelo que li, nem sua literatura são totalmente desconhecidos.

 

 

Pretende voltar a San Sebastián e viver em sua cidade de origem no futuro?

Minha cidade de residência, hoje, é Hanover, na Alemanha, ao lado da minha família e dos meus amigos atuais, onde estou satisfeito. Isso não significa que não goste de visitar minha cidade natal. Pelo contrário. Me encanta voltar a suas ruas e reencontrar velhos amigos, mas não me vejo mais morando ali de maneira fixa.

 

 

Como o senhor tem passado o período da pandemia?

Como consequência da crise sanitária, suspendi todas as minhas viagens. Não me lembro de um período tão longo como o atual sem sair de casa. Devido a isso, dedico muito mais tempo do que antes à escrita e à leitura.

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno Doc/Leonardo Vieceli (leonardo.vieceli@zerohora.com.br) em 15/11/2020