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Entrevista com Escritor na Amazônia, Márcio Souza
Entrevista com Escritor na Amazônia, Márcio Souza

ENTREVISTA COM MÁRCIO SOUZA

 

UM ESCRITOR NA AMAZÔNIA

 

Segunda-feira de manhã, 2 de maio de 2019, o mercado público de Manaus fervilha de gente. A atmosfera é deliciosamente popular e elétrica. Lá estamos nós, Antonio e eu, numa conversa animada com Márcio Souza, 73 anos, presidente do Conselho Municipal da Cultura local, escritor consagrado, autor de livros traduzidos como GALVEZ, O IMPERADOR DO ACRE e MAD MARIA, que virou minissérie de sucesso na televisão. Sem contar os ensaios importantes, entre os quais AMAZÔNIA INDÍGENA. Márcio levou-nos a Manaus, junto com a atriz Lucélia Santos, para ter o olhar de fora sobre a capital do Amazonas. Antonio falou da sua Manaus literária. Lucélia, de Manaus em cena. Eu, de minha Manaus imaginária. Mas o melhor de tudo foi ouvir o anfitrião. Márcio é o judeu que ri de si mesmo, conta piadas divertidas sobre sua cultura e vive literatura e arte o dia todo. Um intelectual nos trópicos.

 

 

Juremir – É mais difícil ser escritor e intelectual em Manaus do que no Rio de Janeiro ou em São Paulo em termos de reconhecimento?

Sim. Mas a nossa região tem vários escritores renomados. O Milton Hatoum saiu daqui por acaso. Ele foi estudar em Brasília, assim como eu fui estudar em São Paulo. Ele voltou e era professor de francês. Saiu de novo para o Rio de Janeiro. Eu retornei depois de morar 22 anos no Rio. Nós, que vivemos em províncias, temos a impressão de viver meio abandonados, mas a minha única mágoa de Manaus é que não vendo nada aqui. Todos querem que eu dê meus livros. Um juiz me ligou pedindo um exemplar de GALVEZ, adotado no vestibular, para a neta. Disse que não tinha. Ele não gostou e falou: “Reze para que nenhum problema seu caia na minha mão”. Fora isso, a cidade tem uma vida cultural intensa. Manaus tem cinco orquestras sinfônicas. É um dos parâmetros da Unesco de nível cultural. É uma cidade musical graças ao Festival de Ópera. Isso obrigou a Universidade Federal do Amazonas a criar um curso de artes cênicas e música. Muitos dos músicos da Filarmônica já são garotos daqui. O governo criou o Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro. Os estudantes de Ensino Médio podem fazer complementação de matérias lá. Os professores trabalham individualmente com os alunos. Isso já funciona há uns dez anos. Tem a Orquestra Filarmônica do Cláudio Santoro com a garotada. Já a Amazonas Filarmônica é mais importante do Brasil. Claro que os paulistas acham que não. Não importa.

 

 

Hohlfeldt – Como é aqui a questão editorial?

Temos a editora Valer. Ela vinha reeditando textos do século XIX. Como caíram em desgraça com a Secretaria da Cultura, quase faliram. Conseguiram sobreviver. Hoje, já não possuem livraria, pois a Saraiva chegou aqui e matou tudo. A venda e no site e na livraria Nacional. A Muralha, primeiro poema épico de língua portuguesa da Amazônia, foi republicada pela Valer. Tem os poetas do ciclo da borracha, tem o Tenreiro Aranha, obras importantes. O problema é que o Manaus tem o mais baixo índice de leitura do Brasil. Faltam bibliotecas. Vendi a minha, de nove mil volumes, para um amigo empresário, quando precisei por questões de saúde na família, mas ficarei com ela enquanto viver. Depois. certamente vai doar.

 

 

Juremir – Como é a tua relação com Manaus e a Amazônia? Amor e Ódio? 

Com a cidade de Manaus. Com a Zona Franca, Manaus piorou muito. Praticamente foi destruída pela migração interna. Era uma cidade pobre, mas muito integrada. Não é por acaso que a ópera aqui é mais importante que o futebol, pois isso vem desde o século XIX. Apresentações de ópera lotam. Custa R$ 8,00. O povo assiste e conhece. Ensinam o pessoal de Rio e São Paulo quando aplaudir. Na inauguração de um espetáculo são colocadas 30 mil cadeiras na praça. Agora, as apresentações vão por estrada ou barco para o interior. O meu problema mesmo é com a elite da cidade. Aí é que critico.

 

 

Juremir – Qual é o problema da elite?                               

Primeiro, ela é arrivista. A elite tradicional não aderiu à Zona Franca. Aí entram libaneses, judeus, o Oriente todo. A nova elite é a ligada a Brasília. É gente que veio, por exemplo, do Paraná e de São Paulo. Qualquer coisa horrorosa que acontece aqui tem um paranaense no meio. No Paraná tem coisas ótimas na cultura. Mas eu não gosto de Curitiba. O meu santo não combina com Belo Horizonte e Curitiba. Os paranaenses têm o monopólio das balsas de mercadorias de Porto Velho para cá. É um problema. Quer saber quem vai ser preso pela Polícia Federal aqui? É só ler coluna social. Ao Teatro Amazonas vão as famílias tradicionais, aquelas senhoras, certo tipo de universo.

 

 

Hohlfeldt – Como convivem essas duas elites?

Não convivem. Tanto que tem duas confederações              da indústria aqui. Uma com mais de cem anos e que fez muitos estudos sobre os malefícios da Zona Franca. Aí os paulistas criaram o Centro da Indústria do Estado do Amazonas. Eu já tive uma coluna no jornal A Crítica na qual chamava Manaus de a capital do mormaço. Parei por estar com um problema de visão, algo sem cura, mas estacionado. Eu me reservo para escrever meus romances. Tomo injeção todo mês no Rio.

 

 

Juremir – Continuas a escrever com afinco. Estás terminando o quarto volume de uma tetralogia dedicada a Erico Verissimo.

Já terminei o último livro dessa tetralogia, A DERROTA. Mais de 200 anos depois da Cabanagem, a universidade realiza um simpósio sobre o fato. São três narradores: um historiador que foi embora depois do golpe de 1964 e volta; uma mulher, que vem do Maranhão para Manaus com seis filhos; o terceiro é um pajé. O problema é que sou muito exigente com verossimilhança. Estudei antropologia. O pajé não estava verossímil. Quando escrevi A CONDOLÊNCIA, eu ligava para a Embaixada da França para saber a mão de uma rua em Paris na época da narrativa. Cheguei a eliminar o pajé da história, mas o romance desabou sem ele. Comecei também a trabalhar num romance sobre cinco amazonenses durante a Segunda Guerra Mundial. Fiz uma pesquisa exaustiva sobre todo o percurso de FEB, de Nápoles a Fornovo.

 

 

Juremir – Tens também uma carreira de gestor cultural, do Departamento Nacional do Livro à Funarte. Este é um momento complicado?

Está muito difícil, ainda mais com essa guerra contra o suposto marxismo cultural. Eu não sei o que é isso. O livro é uma das vítimas. O Ministério da Educação foi ideologizado pelo novo governo. Não havia de comunista no MEC, que era até bastante conservador, mas que atuava sob a inspiração de grandes educadores reconhecidos.

 

 

Hohlfeldt – Anísio Teixeira, Paulo Freire...

Não dá para saber como tudo vai acabar. Conheço o vice-presidente, o general Mourão. Aqui, sob o comando do general Villas-Boas, ele organizou um evento do qual participei. Antes, meu contato com o Exército fora como prisioneiro na ditadura...

 

 

Juremir – Quando, segundo tua mãe, foste torturado pelos melhores torturadores do país...

Mãe tipicamente judia é assim. Valoriza tudo o que acontece com o filho. No lançamento de um livro que fiz com o Moacyr Scliar, ENTRE MOISÉS E MACUNAÍMA, no Rio de Janeiro, ela saiu com essa para as amigas. O Villas-Boas me chamou para participar de um seminário sobre a Amazônia com os oficiais das Forças Armadas. Pediu para eu falar sobre os aspectos militares e políticos da Cabanagem e sobre a II Guerra Mundial. O Mourão foi às lágrimas na minha palestra sobre a Segunda Guerra. Alfinetei dizendo que aquele era o verdadeiro Exército brasileiro, o de Rondon, não o de Canudos.

 

 

Juremir – Quem sofre maior ameaça, a cultura ou as terras indígenas?

As terras indígenas. Falta respaldo popular. Aqui a população tem preconceito contra índio. Temos 350 mil índios destribalizados em Manaus. Forças parecem empurrá-los para isso.

 

 

Hohlfeldt – E aí acontece a desculturalização.

Claro. O índio sofre aqui o que o negro enfrenta em outros lugares. Se chamar a garçonete de índia, ela se ofende.

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Juremir Machado da Silva e Antonio Hohlfeldt em 11/05/19