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Escrevendo o Final de Um Romance
Escrevendo o Final de Um Romance

COISAS A PENSAR AO ESCREVER O FINAL DO ROMANCE

 

Luiz Antonio de Assis Brasil, principal nome brasileiro das oficinas literárias e dos cursos de escrita criativa, lançou ESCREVER FICÇÃO, um manual de alto nível para quem quer se aventurar na literatura.

 

Você terminará seu romance como quiser – não há regras, e, como já frisei, seria muito estranho se as houvesse, em se tratando de literatura. Então, o que vou dizer abaixo são apenas algumas atitudes autorais que podem prejudicar o resultado que você espera do seu livro.

 

Escrever demais é um problema. MILK (2008) é um filme com direção de Gus van Sant que conta a história do ativista Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público na Califórnia. Sean Penn vive o papel-título e foi contemplado com o Oscar de melhor ator. O filme começa com cenas reais da década de 60, entremeadas com notícias impressas sobre prisões de homossexuais em San Francisco, tudo isso para situar o espectador em relação ao contexto do filme. O ponto culminante é no final, quando ocorrem os assassinatos de Harvey Milk e de seu aliado, o prefeito de San Francisco, George Moscone. Ao mesmo tempo, um longo texto se encarrega de ilustrar a marcha-protesto que reuniu 30 mil pessoas em memória de Moscone e Milk. A seguir, o mesmo texto narra o destino dos personagens do enredo, inclusive de Dan White, o assassino, que pegou uma pena leve, suicidando-se dois anos depois de solto.

 

Esses textos informativos, nos finais de filmes baseados em fatos reais, justificam-se, porque têm a função de satisfazer a curiosidade dos espectadores referente ao que aconteceu depois do episódio trazido para a tela.

 

Antes que você se pergunte por que estou falando de coisas que você já sabe, explico: certos finais de romances se parecem com os finais desses filmes; isto é, o ficcionista sente-se na obrigação de dizer tudo o que acontece depois do fim, encompridando a narrativa e enfadando o leitor e, ainda pior, colocando a perder o final. Você e o leitor não precisam passar por isso. Há uma recomendação esperta de que gosto muito, e que, quando a repito para os alunos, provoca riso – mas, logo a seguir, um longo debate que, por vezes, avança além do horário da aula:

 

- Quando acabar seu romance, pare de escrevê-lo.

 

Li recentemente um romance em que o parágrafo final dizia (estou alterando um pouco, para evitar riscos de reconhecimento):

 

Anthony, depois da morte brutal de Clara, reconstituiu sua vida e aceitou um casamento de conveniência; mas isso não o impediu de ser feliz. Ainda teve dois filhos, que fizeram amizade com Robert e lena-Lou. Quanto à fábrica de calçados, ele pôs as ações à venda na Bolsa e se dedicou a fazer longos cruzeiros marítimos.

 

Sem dúvida, esse parágrafo está sobrando.O romance já acabou antes dele.

 

Termine com uma cena. Não quero lhe negar o direito de concluir com um sumário. Mas pense: é muito mais forte terminar com uma cena. Lembre-se dos finais de McEwan. Em vez de contar como terminou a história do romance, mostre. O leitor que tire suas conclusões.

 

Antes de ir a um novo tópico, fui até minha estante de livros e peguei 15 romances ao acaso, de autores diferentes. Queria escolher um final com uma cena, para exemplo. Na pequena pilha sobre a minha mesa de trabalho havia de tudo: Balzac, Jane Austen, Zola, Schnitzler, Benedetti, Ricardo Piglia, Murakami, Nadine Gordimer, Hemingway, Katherine Mansfield, Gutiérrez, Doris Lessing, Vila-Matas. Abri todos na última página: todos terminavam numa cena. Comprove. Faça o mesmo que eu fiz.

 

Isso deve indicar algo, não? E aqui podemos consolidar uma ideia:

 

- Nunca termine um romance num suário, mas, sim, numa cena.

 

Exceto se você usar a magnífica solução de Clarice Lispector no final do conto A GALINHA:

 

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

 

A frase contém uma microcena – “mataram-na, comeram-na” - e um microssumário - “e passaram-se anos”. Esse “passaram-se anos” não diz o que aconteceu com os personagens do conto – a menina e seu pai – que antes protegeram a galinha da morte. Mas isso não interessa mais, e o conto se realiza junto com essa ausência.

 

Não é preciso dizer o que o leitor já sabe. Às vezes, por insegurança, o ficcionista resume os eventos já narrados, mas sem nenhuma razão para que sejam lidos de novo, ainda que estejam escritos de outra forma. Melhor não fazer isso, pois seria subestimar a inteligência do leitor.

 

Evite considerações genéricas de natureza filosófica, estética, ideológica, política, religiosa e outras do gênero. Se você quiser fazer essas reflexões – e tem todo o direito de fazê-las – faça-as ao modo de Klaus Mann que, em MEPHISTO (1936), disseminou por todo o romance suas reflexões antinazistas, evitando colocá-las no final.

 

O risco maior ao terminar um romance: num romance, diferentemente da novela, trabalhamos com um tema e vários rios conflitos-satélites – portanto, com várias histórias. Pois dai advém o risco de que o romance apresente vários finais, tantos quantos são os conflitos. Isso é péssimo, pois nenhum leitor gosta de algo que termine aos pedaços. Não tenho uma dica infalível para resolver isso, a não ser: siga seu instinto, faça experiências; talvez leve tempo, especialmente se você não previu o final em seu planejamento. Não será má ideia considerar o conflito mais forte e fazer com que ele acabe o romance, ou então, para amenizar a existência de vários finais, criar uma cena unificadora, como o sepultamento do jovem Yliusha, em OS IRMÃOS KARAMÁZOV – dotando-a, naturalmente, do tom e das preocupações da literatura contemporânea.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Luiz Antonio de Assis Brasil/Escritor. ESCREVER FICÇÃO (cia das Letras, 2019) teve a colaboração de Luís Roberto Amabile, em 27/04/2019