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Grama, HQ de Keum Suk Gendry Kim
Grama, HQ de Keum Suk Gendry Kim

MEMÓRIAS DE UMA ESCRAVA SEXUAL

Com quase 500 páginas, HQ da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim biografa uma das chamadas "Mulheres de Conforto", vítimas de cárcere e estupro durante a segunda Guerra Mundial

 

A leitura de GRAMA, poderosa e portentosa (488 páginas) história em quadrinhos da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim lançada no Brasil pela Pipoca & Nanquim (tradução de Jae Hyung Woo), foi cruzada por duas reflexões recentes.

 

Em entrevista para divulgar o romance A VIDA MENTIROSA DOS ADULTOS, a italiana Elena Ferrante queixou-se que mesmo os homens cultos sequer tentam ler escritoras, negando a essas à "dádiva da universalidade" - mulheres escreveriam somente para mulheres. Meses antes, à época do filme O HOMEM INVISÍVEL, que em sua nova versão simboliza relacionamentos abusivos, a brasileira Dani Marino, mestre em Comunicação pela USP e uma das organizadoras do livro MULHERES E QUADRINHOS (2019), reclamou da prevalência de narrativas ficcionais que sentenciam a mulher ao papel de vítima - como se só essa condição pudesse despertar um interesse masculino.

 

GRAMA é uma história escrita por uma mulher e protagonizada por outra, em mais uma trama de sofrimento, violência, silenciamento, anulação, trauma, como outras HQs "femininas" que tenho entre as melhores dos últimos tempos: DESCONSTRUINDO UMA, da britânica Uma, DUPLO EU, da francesa Navie, MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO, da americana Emil Ferris, BEZIMENA, da sérvio-canadense Nina Bunjevac, e JUÍZO, da brasileira Amanda Miranda. Será que nós, homens, ainda que não intencionalmente, ficamos atraídos por uma autora só quando ela resolve expor suas dores e seus fantasmas? É um voyeurismo perverso o que nos move? Às mulheres não concedemos a honra de serem livres, engraçadas, empreendedoras, heroicas?

 

Bem disse a personagem de Jessie Buckley no filme ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO (2020): há um risco ocupacional de ser mulher. São elas que dão à luz, mas as condenamos a viver à sombra dos homens. Escondidas involuntariamente ou simplesmente enclausuradas.

 

É o que ocorre com a protagonista de GRAMA, Ok-sun Lee, que narra suas memórias a Keum Suk. A tristeza e a secura das palavras são acentuadas pela arte em preto e branco. Mas a autora também vê resiliência (o título da obra alude à capacidade de a grama sempre se reerguer) e esperança, simbolizada pelos pássaros que volta e meia surgem nos desenhos.

 

 

Ok-sun foi uma das tantas meninas vendidas pela própria família na infância, diante da pobreza avassaladora na Coreia sob domínio do império japonês, na primeira metade do século 20 - situação que durou até o fim da Segunda Guerra Mundial e que acabaria por dividir o país entre do Sul e do Norte. Muitas dessas meninas não se tornaram apenas escravas domésticas: também foram forçadas a virar escravas sexuais, para servir a soldados do Japão nas chamadas "casas de conforto" espalhadas pela Coreia e pela China.

 

Keum Suk evita a representação gráfica da violência. Mas não economiza em seu peso. A sequência em que Ok-sun descreve seu primeiro estupro ocupa oito páginas. Metade delas consiste somente de quadros pretos, 19 deles totalmente vazios e uns poucos servindo de suporte para algumas palavras que dão início à reflexão da protagonista sobre a dor e a humilhação. Ok-sun tinha 15 anos.

 

GRAMA retrata e sintetiza uma série de agressões e privações impostas às mulheres. Ok-sun não podia estudar porque isso era privilégio dos meninos. As oportunidades de trabalho eram restritas. E é sobre a vítima da violência sexual que recai a desonra.

 

 

Mas GRAMA, como diz sua autora no posfácio, não é só uma história sobre homens e mulheres, muito menos de mulheres para mulheres - "É sobre o significado de ser humano". E é também sobre a enorme e espantosa capacidade humana para a atrocidade, a hora em que a coletividade vira um monstro, como visto no massacre de Nanquim (China), em 1937, reconstituído em GRAMA, e em outras duas vigorosas HQs recentes que abordam a Segunda Guerra. A primeira é O RELATÓRIO DE BRODECK, com um denso chiaroscuro que encontra eco na obra sul-coreana. Na segunda, HEIMAT, a alemã Nora Krug, a exemplo de Keum Suk, mergulha em um capítulo vergonhoso do passado de seu país - no caso, o nazismo e o Holocausto.

 

Contra tudo e contra todos (aí incluídos soldados soviéticos ao fim da guerra, o desamparo pelo governo e o preconceito da sociedade), Ok-sun se aferrou à vida. Resistiu para tentar refazer seus passos, em busca da família, e para contar sua história. Embora tenha dito a Keum Suk que nunca conhecera a felicidade, em seus depoimentos há espaço para sorrisos e até senso de humor. O que não há é lugar para o esquecimento. Para a resignação. Ok-sun virou uma das vozes de protesto para que o Japão peça desculpas e indenize adequadamente as "mulheres de conforto".

 

As últimas páginas do livro apaziguaram um pouco a minha consciência: GRAMA é a história de uma heroína.

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno Doc/Ticiano Osório (ticiano.osório@zerohora.com.br) em 15/11/2020