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Nelson Rodrigues, Festival Londres 2019
Nelson Rodrigues, Festival Londres 2019

NELSON RODRIGUES PARA INGLÊS VER

 

Novas traduções levam obra do dramaturgo para outros públicos.

 

“A ação se passa em qualquer tempo, em qualquer lugar”. A rubrica de Nelson Rodrigues no início da peça ANJO NEGRO, de 1948, soa como um prenúncio da internacionalização da sua obra, que acontece agora, 70 anos depois, na Inglaterra de William Shakespeare, autor fundamental para o escritor brasileiro.

 

“Como se exporta um dramaturgo? Publicando e montando. Chegou a hora de apresentar Nelson à plateia inglesa, a mais exigente e bem-informada do mundo”, afirma Sacha Rodrigues, neto do autor e um dos idealizadores do Nelson Rodrigues Festival London, com leituras dramáticas, palestras e exposição de objetos pessoais do autor que cresceu na Aldeia Campista, Zona Norte do Rio, mas tomou conta da embaixada do Brasil em Trafalgar Square, um dos endereços mais famosos de Londres.

 

Como parte do evento, sete das principais peças do maior dramaturgo brasileiro acabam de ser reunidas em nova tradução. Sob os cuidados do Departamento de Estudos Latino-Americanos do prestigioso King’s College of London, maior autoridade inglesa na tradução de textos latinos, chega às livrarias NELSON RODRIGUES – SELECTED PLAYS, pela editora Oberon, uma referência em publicação de dramaturgia na Inglaterra. Fazem parte da coletânea: VESTIDO DE NOIVA (The wedding dress); PERDOA-ME POR ME TRAÍRES (Forgive me for your betrayal); TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (All nudity will be punished); OS SETE GATINHOS (The seven littlekittens); VALSA NÚMERO 6 (Waltz #6); ANJO NEGRO (Black angel) e ÁLBUM DE FAMÍLIA (Family portraits).

 

Esta não é a primeira vez que a obra de Rodrigues é traduzida para o inglês. Em 2001, 10 peças foram vertidas para o idioma por iniciativa por um dos filhos, Joffre Rodrigues, e da Funarte. Em 2009, A VIDA COMO ELA É ganhou uma edição norte-americana. No entanto, havia questionamentos sobre a qualidade das traduções e a capacidade de transpor as sutilezas da linguagem de Rodrigues para outros idiomas. A obra do autor que melhor traduziu o subúrbio carioca seria intraduzível para o resto do mundo?

 

“É um desafio porque ele é um cânone. A forma como escreve e as idiossincrasias que usa são referências até hoje. Nenhum outro dramaturgo brasileiro criou um universo tão complexo e marcante”, avisa Almiro Andrade, radicado em Londres há 11 anos e responsável pelas novas traduções, ao lado de Susannah Finzi e Daniel Hahn. “A tradução teatral é diferente da literária. Não é uma relação solitária do tradutor com o texto, como num romance. O texto teatral vai ser falado, é preciso saber se ele flui bem para o ator.”

 

Informações fundamentais nas obras, como as localizações geográficas e a moeda (cruzeiro), foram mantidas nas novas traduções. Andrade acredita que o mais importante é fazer justiça às palavras escolhidas por Nelson Rodrigues. “Nosso objetivo é que elas tivessem o mesmo impacto poético que ele propôs no idioma original. Apesar das referências, a gente não quis que o texto ficasse preso a uma época. A obra dele tem uma memória afetiva forte das décadas de 1950 e 1960 do Rio de Janeiro, mas toca em temas muito universais”, relata.

 

Para o diretor Luís Artur Nunes, responsável pelo prefácio das novas traduções, a obra de Nelson Rodrigues se filia à tradição da dramaturgia ocidental. “Por mais que se queira reduzir a obra dele a exotismos dos costumes brasileiros, asa peças do Nelson Rodrigues estão ligadas à tradição da dramaturgia, como o melodrama, o naturalismo, o realismo e o absurdo. Fellini falava de Rimini e tinha uma aceitação universal. Se Rodrigues não foi conhecido até agora fora do Brasil é porque a língua era uma barreira”, informa ele.

 

Em tempos de protagonismo feminino e denúncias de casos de feminicídio, que espaço existe hoje para o autor que afirmou que “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais”?

 

“É um equívoco entender o Nelson como um inimigo das mulheres. Examinando a obra, a gente vê que ele retrata com muita intensidade o abuso e a exploração contra a mulher na sociedade contemporânea. É preciso ir além do Nelson frasista de efeito, debochado, e chegar no homem mais preocupado com as questões substantivas do ser humano”, defende Nunes.

 

“Quando Nelson diz que mulher gosta de apanhar, ele fala de um posicionamento machista que ainda existe no Brasil e no mundo. Para o racismo, o machismo, a misoginia e a pedofilia serem combatidos, eles precisam ser apontados, e é isso que a obra do Nelson faz. O que parece politicamente incorreto hoje, na obra de Nelson é arma de denúncia”, complementa Almiro.

 

Para Andrade. o texto de Nelson se situa claramente em uma época, mas não é datado. “Por mais aviltante que seja o tratamento de um personagem e cause revolta ao leitor ou ao espectador; trata-se de uma crítica, para que a sociedade veja o quão absurdo é o seu comportamento. Fugir do horror proposto pelo Nelson é não se manter fiel à provocação do autor”, resume o tradutor.

 

 

Fonte: Jornal do Comércio/Panorama em 20/06/19