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Antunes Filho, Diretor Teatral
Antunes Filho, Diretor Teatral

ANTUNES FILHO, O MAIOR

 

Diretor teatral lembra da carreira com seis décadas do diretor paulista, que morreu no início do mês (maio)

 

Seis décadas de trabalho contínuo e surpreendente transformaram José Alves Antunes Filho, nascido em dezembro de 1929, na capital paulista, no mais festejado e importante diretor teatral brasileiro. Antunes Filho, que há pouco nos deixou, aos 89 anos, mostrou até o fim o que a expressão “homem de teatro” significa. Como nenhum outro, Antunes personifica a própria evolução da cena nacional, em seus paradoxos, impasses e avanços. Seu legado é gigantesco.

 

Em 1952, ingressa como assistente de direção no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, onde convive com nomes seminais dos palcos brasileiros, como Ziembinski e Adolfo Celi. No ano seguinte, estreia profissionalmente com a montagem de Week-End, de Noel Coward. Sua trajetória teatral, sem dúvida, se divide em antes e depois de Macunaíma, que estreou no já longínquo ano de 1978, espetáculo de quatro horas de duração e que, falado em português, foi apresentado nos palcos do mundo inteiro com um sucesso retumbante. A montagem do célebre texto de Mário de Andrade revolucionou o teatro brasileiro. Nada nem ninguém dedicado ao ofício passou incólume à sua criação.

 

As diferenças evolutivas dessas duas faces são facilmente detectáveis. Nas primeiras três décadas de carreira, Antunes foi um diretor que acumulou erros e acertos, sucessos e fracassos, trabalhando com os maiores e mais famosos atores do Brasil. Raul Cortez, Juca de Oliveira, Laura Cardoso, Eva Wilma, Cleide Yáconis, entre outros, foram dirigidos por ele, em espetáculos que privilegiavam grandes textos do teatro mundial. Yerma, de Garcia Lorca, A Megera Domada e Júlio César, de Shakespeare, entre dezenas de outros títulos, já mostravam um diretor atento e determinado. Data dessa época seu primeiro contato com a obra de Nelson Rodrigues, quando dirige “A Falecida”, em 1965. Nelson, autor recorrente em sua história teatral, será regularmente encenado por ele.

 

Já nesse período se ouvem opiniões contraditórias sobre a forte personalidade do diretor. O tratamento autoritário e a exigência de uma disciplina exemplar por parte de seus elencos, geravam críticas e revoltas. Em entrevista da época, acusado de massacrar seus atores, o diretor não perdoa nem se desculpa: “Se massacrar é obrigar o ator a estudar, a assumir responsabilidade do momento em que vive, é fazer do ator o senhor dentro do palco e da história em que ele participa, então, nesse sentido, massacro o ator. Eu o quero independente, eu o quero senhor absoluto do palco.”

 

O sucesso avassalador de Macunaíma muda tudo. O SESC paulista encampa o diretor e as arrojadas propostas de seu projeto artístico. Surge, em 1982, o

CPT – Centro de Pesquisas Teatrais, sediado até hoje nas dependências da unidade SESC Vila Nova, que se transforma rapidamente na principal referência dos estudos experimentais que invadem a cena brasileira a partir de então. Rareiam, a partir daí, os grandes e consagrados nomes da nossa cena, substituídos por atores jovens e desconhecidos, afinados com as premissas e propostas de seu trabalho autoral. Com o grupo, Antunes estabelece o que ficou conhecido como “O Método”, uma série de conceitos e exercícios que querem preparar os atores para o exercício pleno da profissão. O diretor acredita que não seja possível haver uma estética isolada da realidade social em que se vive. Estabelece como meta um tipo de encenação que rompa com o cotidiano, mas que aprofunde a realidade objetiva do tempo vivido no presente.

 

Na formulação de seu Método, Antunes assume tanto a influência de Carl G. Jung e sua teoria sobre o inconsciente coletivo quanto os ensinamentos de Mircea Eliade. A ideia arquetípica em busca do homem mítico encanta o diretor. A mão e a luva. Era o que Antunes buscava para conceber a cena tal como um ritual sem tempo, a evocar incessantemente o arcaico em busca da apreensão do presente dissecado. Em Macunaíma, as marcações do diretor causam deslumbramento e admiração. A noção circular de tempo indígena é empregada em contraponto ao tempo linear ocidental. O sagrado exige uma caminhada própria, forças maiores que nossa vida presente. São essas forças primordiais que o diretor quer imprimir ao grupo em seus mais simples exercícios diários.

 

Lembro, ainda, o impacto produzido com a montagem que deu sequência ao êxito retumbante de “Macunaíma”. O diretor reuniu nada menos do que seis textos do nosso dramaturgo maior, em um espetáculo chamado Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno. Mais uma vez, as teorias de Eliade dão o norte cênico às invenções de Antunes. Lembro que, estupefato, vi diante dos meus olhos “Álbum de Família”, a segunda peça da empreitada. Nenhuma outra montagem produziu em mim tal maravilhamento. Testemunhei ali que a perfeição cênica existe. Dificílima, raríssima, quase inatingível. Mas Antunes a atingiu exemplarmente.

 

O diretor era fã confesso das tragédias gregas, em especial das obras de Eurípedes. As montagens de “Fragmentos Troianos”, “Medeia I” e “Medeia II” foram belíssimos espetáculos vitoriosos. Também dignos de registro, o Romeu e Julieta, que revelou uma Giulia Gam, então com apenas 15 anos, Julieta inesquecível, embalada em sua tragicidade pela música dos Beatles. A trilha sonora causou furor e polêmica. A cena do balcão, usando apenas uma escada, é antológica. Lembro, também, como destaque dessa fase, a montagem de Nova Velha História, recriação do mito de Chapeuzinho Vermelho, onde os atores falavam um dialeto incompreensível, inventado por eles e Augusto Matraga, que reuniu o consagrado Raul Cortez aos jovens atores da companhia. Nunca esqueci a cena final, onde os atores representam uma manada de búfalos ao redor do personagem.

 

Na sua busca de perfeição e experimentalismo, há, obviamente, resultados desiguais, alguns decididamente frustrantes como Xica da Silva e Carmem Miranda. Esse último, encomendado para homenagear o mestre da dança butoh, Kazhuo Ohno, misturava referências nipônicas e brasileiras. Mesmo com a assinatura do mestre, o espetáculo era decididamente irregular. Aos 89 anos, porém, sua última direção, novamente surpreende, pois fugiu do escopo dessa identidade brasileira tão insensata em sua obra. Eu estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse, se debruçava sobre a obra de Jean-Luc Lagarce, “enfant terrible” do teatro francês. Ponto para Antunes e sua eterna inquietação.

 

Nenhum outro diretor brasileiro me comoveu, encantou e influenciou tanto quanto ele. Numa terra de excelentes diretores, o gênio desse homem gerava na classe teatral uma inquietação exemplar. Suas montagens moldaram o diretor que eu queria ser, um modelo de rigor apolíneo que me mostrou um mundo melhor e um teatro mais qualificado, o respeito à profissão e a necessidade de ousar permanentemente. Ninguém como Antunes encarnou esse modelo de artista. Ficará para sempre presente sua genialidade como um artista raro. Só resta agradecer, aplaudir e reverenciar Antunes Filho.

 

Ao Mestre, todos os aplausos e homenagens. Com carinho.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Luciano Alabarse/Diretor de teatro, secretário municipal da Cultura de Porto Alegre em 11/05/19