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Malu Mulher, Um Marco da TV Brasileira
Malu Mulher, Um Marco da TV Brasileira

MALU MULHER, UM MARCO DA TV BRASILEIRA

 

Seriado que estreou há 40 anos colocou em debate temas do universo feminino considerados tabus no Brasil sob censura

 

“Bate, bate bastante. Mata. Mas é a última vez que você encosta em mim”. Essa frase é dita por Malu, papel de Regina Duarte, para o então marido Pedro Henrique, personagem de Dennis Carvalho, no primeiro capítulo de MALU MULHER. A série da Globo marcou a TV brasileira por abordar temas do universo feminino considerados tabu até então, como violência doméstica, divórcio, sexo, menstruação e aborto, entre outros.

 

Logo no capítulo de estreia, em 24 de maio de 1979, há exatos 40 anos, Malu descobre uma traição do marido. Eles têm uma briga feia, elas leva um bofetão e decide pedir o desquite – a lei do divórcio, de 1977, estabelecia um período de três anos de separação judicial para, só então, o casal poder solicitar a conversão do desquite em divórcio (legislação alterada em 1988).

 

Em uma época em que o Brasil ainda vivia sob a censura da ditadura e uma mulher desquitada de 30 e poucos anos era vista com preconceito. MALU MULHER foi considerada uma revolução, uma série de vanguarda, que conseguiu sintetizar o sentimento de uma nova geração de mulheres, que não queria mais viver à sombra do homem. Malu era uma mulher de ideias liberais, que lutava contra o machismo do marido e da sociedade.

 

Para contar essa história, o diretor e criador da série, Daniel Filho, 81 anos, fez questão de que o papel principal fosse de Regina Duarte, a “namoradinha do Brasil”.

 

- A escolha da Regina Duarte era muito importante para mim. Como ela era tão querida, queria coloca-la como uma desquitada, tomando porrada do marido, porque pensei: isso vai tocar direito nas pessoas – conta.

 

Em meio a polarização das últimas eleições, quando a atriz declarou apoio ao então candidato Jair Bolsonaro (PSL), o crítico de TV Nilson Xavier fez uma provocação: “Malu Mulher votaria em Bolsonaro?”, Daniel Filho é categórico:

 

- É claro que não.

 

Daniel Filho era casado com Regina na época em que a série foi ao ar. Crítico ao atual governo, que julga “péssimo”, ele diz não entender a mudança de viés político da atriz.

 

- Regina e eu fomos juntos para Cuba e fomos recebidos pelo próprio Fidel Castro – relata, aos risos. – Não entendo essa mudança dela para a direita, assim, dessa forma. Ela era de esquerda, eu continuo (sendo).

 

Procurada, Regina não atendeu aos pedidos da reportagem para uma entrevista sobre a série.

 

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E PRAZER FEMININO

 

Para a criação de MALU MULHER, o diretor reuniu um grupo de autores, roteiristas e produtores em encontros em sua casa. Regina participou e levou uma amiga, a socióloga Ruth Cardoso (1930-2008), mulher do então suplente de senador e futuro presidente Fernando Henrique Cardoso:

 

- A Ruth participou de dois encontros e foi quem deu a profissão da personagem Malu: socióloga.

 

A cultura brasileira vivia sob as amarras da censura, e o diretor conta que tinha que ir a Brasília a cada 15 dias para liberar as novelas da Globo. Para evitar que as cenas fossem vetadas, era comum usar metáforas e sofismas nos textos da primeira versão de MALU MULHER. Quando Daniel Filho os mostrou a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (o Boni, então vice-presidente de operações da emissora), os textos foram recusados.

 

- Possivelmente ele (Boni) tinha informações que eu não tinha (sobre abertura política). Foi quando ele falou: “Daniel, pode pisar muito mais fundo”.

 

E assim a série passou a falar de temas como violência doméstica e prazer feminino. Um dos pontos altos de MALU MULHER foi mostrar, pela primeira vez na TV brasileira, UM ORGASMO FEMININO. A cena foi ao ar em 7 de junho de 1979.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Karina Matias/Folhapress em 24/05/19