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Thê, Origem da Palavra Gaúcha
Thê, Origem da Palavra Gaúcha

TCHÊ

 

Versões populares para a origem das palavras, embora falsas, são muito mais interessantes do que a história verdadeira

 

Aos poucos, sem aviso, uma nuvem sinistra e invisível acabou tomando conta do debate político e científico desta década: a força persuasiva dos fatos virou pó de traque diante do apelo à emoção e às crenças pessoais. Para uma assustadora maioria, a opinião vale muito mais que as evidências – seja sobre o efeito das vacinas, a forma do globo terrestre ou o número de participantes desta ou daquela manifestação. Nas redes sociais, então, corre solto o princípio nada cartesiano do “Acredito, logo tenho razão” – e danem-se os pesquisadores, os cientistas, os especialistas, com seus trabalhos inúteis e dispendiosos...

 

Essa atitude, porém, não é novidade no mundo das palavras, que sempre se prestou às interpretações mais estapafúrdias – um bom exemplo são as Etimologias de Isidoro de Sevilha, do século VII da Era Cristã, que contém tantos “achados” mirabolantes que, não fosse ele um homem santo, nos levariam a dizer que estava sob a influência de alguma substância de venda controlada ou proibida.

 

Felizmente Agustina M., gaúcha radicada em Rivera, no Uruguai, ainda cultiva o saudável hábito da dúvida. Segundo ela, em sua rede de WhatsApp está fazendo sucesso uma explicação para o vocábulo  che que lhe pareceu tão suspeita que resolveu enviar o texto para esta coluna. A explicação é fantástica! O che do Espanhol, que veio dar nosso tchê, teria vindo do Latim, e de uma forma que ninguém até hoje tinha suspeitado (nem poderia, como veremos, tão absurda que é).

 

O texto explica que na Espanha, país profundamente católico, eram usuais  as saudações de cunho religioso, como “Vá com Deus”, “Que Deus o proteja”, etc. [Agora cito textualmente, para que os prezados leitores possam avaliar a extensão do delírio]: “Os espanhóis preferiam abreviar algumas dessas interjeições e, ao invés de exclamar “gente do céu”, falavam apenas Che (se lê/tchê) que era uma abreviatura da palavra caelestis (se lê/tchelestis/) e significa do céu. Eles usavam essa expressão para expressar espanto, admiração, susto. Era talvez uma forma de apelar a Deus na hora do sufoco. Mas também serviam dela para chamar pessoas ou animais”.

 

Finalmente, para fechar no mesmo nível pedestre com que começou, a autora do texto conclui, triunfante: “Portanto, exclamar tchê ao se referir a alguém significa considera-lo alguém do céu. Que bom seria se todos nos tratássemos assim. Considerando uns aos outros como gente do céu!”.

 

Você tinha razão em desconfiar, Agustina! As sandices aqui saltam como camarões no seco! Primeiro, a Espanha (exceto Valência) nunca usou che. Segundo, se é uma abreviatura, isso significaria que por muito tempo o termo caelestis foi usado integralmente antes de ser reduzido, fato do qual não ficou registro algum. Terceiro, não existe hipótese de um vocábulo do Latim erudito desse tipo transformar-se numa saudação usual sem que o fato atraísse no mínimo a atenção dos eclesiásticos da época, todos eles bons ou razoáveis latinistas. Por fim, se a palavra tivesse vindo para cá na bagagem dos espanhóis, estaria presente na fala de todos os países que eles colonizaram; ora, isso não ocorre, porque só usam che a Bolívia, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai – e nós, do Rio Grande do Sul, por nosso íntimo contato com o Prata.

 

Embora ainda pairem dúvidas sobre a origem do tchê (ou chê, como registra o Houaiss), a origem europeia do vocábulo já está definitivamente descartada. Todos os estudos modernos admitem que o termo é nativo da América, sendo, portanto, uma contribuição indígena ao nosso léxico, o que ainda se discute é de que grupo linguístico ele teria vindo. Existem alguns estudiosos que apontam o Mapuche, povo nativo do Chile, mas esta ideia vem perdendo força pelo simples, mas importante fato de que o Espanhol falado no Chile não conhece o che.  A hipótese mais provável é a de que provenha do Guarani, como defende José Pedro Rona, que ressalta o fato de que os países que usam esta forma coincidem exatamente com a área de abrangência deste grupo indígena.

 

É claro que, apesar de absurda, a lorota do caelestis vai continuar ganhando corpo na internet, já que, seguindo o espírito da época, as versões populares para a origem das palavras, embora falsas, são muito mais interessantes do que a história verdadeira. Infelizmente elas jamais perderão o seu prestígio, por mais que eu escreva artigos como este, em que assumo o antipático papel de um desmancha-prazeres que teima em substituir hipóteses tão engenhosinhas pela fria e insossa realidade.

 

Fonte: Zero Hora/O Prazer das Palavras/Cláudio Moreno/escritor e professor (cmoreno@terra.com.br) em 30/05/19