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Estrangeirismos
Estrangeirismos

OS LIMITES DA TRANSFORMAÇÃO

Língua portuguesa: Os estrangeirismos ganham espaço e as demandas de grupos sociais, também. Preservar a língua, nesse contexto, é preservar um patrimônio intelectual mundial, defende especialista

 

O fato de que palavras novas (neologismos) são criadas a partir do momento em que haja uma nova realidade a ser denominada já foi comprovado em minha pesquisa que resultou no livro: OS NEOLOGISMOS DO PORTUGUÊS E A FACE SOCIAL DA LÍNGUA (Editora AGE, 2003). Ali compilei mais de 200 palavras ainda não dicionarizadas, mas presentes na linguagem oral e escrita, criadas dentro das normas da língua portuguesa, mostrando que podemos gerar novas denominações quando surgem conteúdos a serem referidos, sejam eles objetos concretos ou abstrações. Os usuários da língua fazem isso espontânea e semi conscientemente, impulsionados por conhecimentos e princípios linguísticos pré-existentes, subjacentes em qualquer falante.

 

Assim sendo, a língua de uma comunidade, seja ela qual for, constitui um todo coerente, e seu léxico (vocabulário) é gerado pela necessidade de comunicação entre seus falantes, indicando como eles se relacionam entre si e com o meio onde se encontram. Dessas interações resulta uma simbiose que reflete uma visão de mundo única, bem como um conjunto de interpretações, comportamentos, valores e imaginários que pode ser denominado de cultura. Nessa relação consiste a identidade da língua.

 

Dentro desse panorama, o acréscimo de um novo conceito aí introduzido, de certa forma, abala todos os demais, como em um jogo de xadrez em que cada lance modifica todo o tabuleiro. Mas isso é normal, aceitável e mesmo desejável, já que as línguas devem crescer para acompanhar o desenvolvimento humano.

 

São vários os fatores que contribuem para que isso ocorra. Sem dúvida, o desenvolvimento da ciência é o maior gerador de novos conceitos. O avanço científico, ao detalhar cada vez mais o conhecimento, por meio de novas descobertas ou interpretações, necessita, constantemente, nomear novos elementos, processos etc.

 

Mas, quando se trata da introdução de uma palavra estrangeira, diferentemente do que foi posto antes, ela provoca turbulência no novo meio, justamente por ter sido conceptualizada em outro ambiente linguístico-cultural, rompendo o processo natural de que cada sistema linguístico gera suas palavras conforme suas próprias necessidades de denominação, de acordo com suas próprias normas e em consonância com as palavras já existentes.

 

Essa questão, que vem ocorrendo cada vez mais no presente, sem dúvida, requer a intervenção de uma teoria que dê conta da nova situação, e que, certamente, não diz respeito a propriedades estruturais da língua em si, mas a fatores relacionados ao poder, digamos assim, de uma língua sobre outra.

 

Atualmente, o contato frequente entre grupos de línguas diferentes, havendo um ou mais grupos de maior poder político, econômico ou científico, que muitas vezes dominam instituições públicas internacionais, fez surgir o que passou-se a chamar de línguas minorizadas, fato esse produzido por um processo relacional e uma pressão exercida por aquela assimetria.

 

 

Nesse contexto, as novas tecnologias que importamos, normalmente acompanhadas de literatura em língua estrangeira, têm contribuído para tornar o inglês uma língua franca* no mundo atual. Como não podemos deixar de compartilhar dessas tecnologias, temos que traduzir aquela literatura, o que implica, muitas vezes, em ter que criar novas palavras para novos conteúdos ainda não existentes em português. Esse processo, por sua vez, deve ser conduzido dentro dos parâmetros morfológicos, fonológicos e semânticos da nossa língua. Diga-se de passagem que, tanto o procedimento de traduzir quanto o de criar novas palavras, implicam complexidades que demandariam a intervenção de especialistas. Portanto, não será um deus ex machina que fará isso. É uma tarefa para entidades culturais e acadêmicas nacionais, assessoradas e financiadas por órgãos governamentais.

 

É importante frisar, neste momento, que o enfoque das línguas atrelando-as a seus ambientes originais nunca foi abandonado pelos linguistas. Ao contrário, vem sendo fortalecido na esteira das questões ambientais de respeito às biodiversidades.  Essa influência, que fez surgir a expressão ecologia das línguas, enfatiza a necessidade da manutenção das diversidades linguísticas diante do risco de enfraquecimento ou abandono de línguas minorizadas, especialmente no caso daquelas que convivem em um mesmo território.

 

Como já disse acima, quem cria novas palavras, pelo menos no Brasil, tem sido os próprios usuários da língua, e isso ocorre também porque não dispomos de nenhum órgão ou academia que se encarregue oficialmente dessa tarefa, fato esse que tem sido totalmente relaxado em nosso país.

 

A falta de uma política linguística nessa área deixa os usuários da língua e, principalmente, os meios de comunicação sem alternativas e sem critérios pré-estabelecidos para lidar com lacunas ou problemas de tradução. Eles, certamente, não podem ser responsabilizados pela desorganização daí decorrente.

 

Tenho sido interpelada, também, sobre o chamado "internetês", o que não se trata nem de neologismo nem de palavra importada, mas de um vale-tudo deplorável. Infelizmente, as redes sociais são território sem lei para a linguagem.  Outra pergunta recorrente é com relação ao uso do "todes" ou "todxs", esse último impronunciável dentro do universo fonológico do português.

 

Se me fosse dado decidir sobre esse tema, sugeriria uma forma só, para o plural, que abrangesse todos os gêneros, e que, poderia ser o pronome todos, cujo significado gramatical é: pronome indefinido plural. Conjunto de coisas ou pessoas não especificadas nem determinadas, quaisquer. Ex.: todos irão ao casamento?

 

Até pouco tempo atrás, usava-se o pronome todos para uma pluralidade onde houvesse indivíduos de ambos os sexos, e isso não era contestado. Foi a partir do início da afirmação do feminismo, em uma tentativa de enfatizar a igualdade política dos dois sexos, que passaram a referir-se aos dois gêneros separadamente usando todos e todas para se dirigir a um público misto. Atualmente, temos mais de dois grupos sexuais, portanto, se quisermos nos referir a cada um de forma diferente, teríamos que utilizar vários pronomes diferentes (de que a língua não dispõe) e ainda correríamos o risco de deixar algum ou alguns de fora. Então, repito, o que eu proporia seria a volta do todos e assim contemplar qualquer opção sexual colocando-as em condições de igualdade. Presentemente o feminismo já se impôs de forma quase completa e, mesmo se não fosse assim, isso não dependeria apenas de uma palavra.

 

Quanto à exacerbação do uso de estrangeirismos, devo dizer que, no momento, não observo nenhum sinal que possa indicar uma mudança no comportamento das pessoas ou de autoridades com relação a isso. Sendo a língua um fato social, submetido à evolução social de uma comunidade, essa sociedade deve criar condições para a língua se desenvolver. Mas isso não acontece, e a chamada norma social, que costuma julgar a aceitabilidade ou não de uma palavra malformada, se omite diante do estrangeirismo.

 

Poucas pessoas sabem exatamente o que estão dizendo quando empregam um estrangeirismo. Já fiz esse teste várias vezes.

 

Além disso, essas palavras são mal grafadas e mal pronunciadas, o que faz lembrar algo semelhante ao que ocorreu em ex-colônias inglesas, onde os nativos usavam a língua dos colonizadores com a fonologia de suas línguas originais, resultando no que passou-se a chamar pidgin, uma língua ágrafa.

 

A permanecer essa tendência, o nosso vocabulário tenderá a empobrecer fazendo-nos reféns de palavras estrangeiras, o que desfigura e compromete (talvez irreversivelmente) a nossa identidade linguística.

 

Dificilmente uma geração que só ouviu dizer pet voltará a dizer animal de estimação, ou entrega a domicílio em vez de delivery. Aquelas expressões, como tantas outras, cairão no esquecimento. No caso em questão, as duas denominações em português são transparentes (autoexplicativas), uma propriedade inerente à nossa criação lexical que perpassa a formação de palavras na nossa língua e está fortemente atrelada ao nosso modo de perceber a realidade.

 

Nossa língua tem o poder de moldar nossas consciências ao criar e denominar significados aqui gerados, como também de influenciar nosso modo de pensar, nossas escolhas e nossa maneira de abordar as questões pessoais e públicas. Ela é parte fundamental e fortalece nossa identidade. Ela nos define e nos faz diferentes dos demais. E é essa diferença que tem que ser mantida, porque é a diversidade de pensamento que faz o mundo existir. Finalmente, uma língua só permanece viva e florescente enquanto seus recursos forem explorados.

 

Permitir que uma língua desapareça ou enfraqueça ao ponto de perder suas características fundamentais, seria, no âmbito do patrimônio intelectual do mundo, como permitir a devastação de uma floresta, no âmbito do patrimônio ecológico global.

 

No Brasil houve duas tentativas de passar leis que pudessem obstaculizar o uso indiscriminado de palavras estrangeiras. Nenhuma vingou, sendo que a segunda não proibia o uso, apenas exigia que o usuário acrescentasse a tradução da expressão estrangeira utilizada. Chegou a ser aprovada por unanimidade na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, mas não avançou nas instâncias seguintes.

*Língua franca: expressão latina usada para denominar uma terceira língua à qual recorrem dois ou mais interlocutores quando nenhum conhece a língua do outro.

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Éda Heloisa Teixeira Pilla/Professora e pesquisadora na UFRGS em 30/01/2022.