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Rasga Coração, de Jorge Furtado
Rasga Coração, de Jorge Furtado

RASGADO

 

O choque de gerações em RASGA CORAÇÃO – no enredo e na comparação entre a peça de Vianninha e o filme de Jorge Furtado.

 

Depois da calça jeans, não há mais conflito de gerações. Não sei quando, mas já tem muitos anos formulei essa tese prática. O assunto é o que se chamava “choque de gerações”, ou “abismo” ou “conflito”. Quando se chamava assim o fenômeno?

 

Na nossa juventude, uns quarenta anos atrás. Meus pais viraram adultos não apenas sem televisão e anticoncepcionais: eles viveram suas infâncias sem geladeira, em cidades relativamente próximas a Porto Alegre. Quando a minha geração cronológica chegou à adolescência, na virada dos anos 1960 para os 70, havia já televisão e anticoncepcionais, assim como transmissão por satélite e leite em saquinhos plásticos. E calça jeans como coisa normal.

 

Parece pouco agora? Não era. Na minha infância, ainda se aprendia a evitar que as calças perdessem o vinco e ganhassem joelhos, com o tecido ficando esgarçado.

 

E aí veio o jeans, a calça que não faz sentido ter vinco, que pode ser marcada no joelho, que, oh céus, agora já vem rasgada na loja. Só que o rasgado atual não nos espanta muito, a nós que já aprendemos de jovens a usar jeans.

 

Daí a tese: depois do jeans, dos anos 70 em diante, não tem mais aquele abismo.

 

O assunto aqui é o filme RASGA CORAÇÃO, que Jorge Furtado dirigiu, com roteiro adaptado da peça de mesmo nome, escrita por Oduvaldo Vianna Filho, em 1974 e encenada pela primeira vez em 1979.

 

Para quem se interessar por um cortejo mais cerrado, uma grande notícia é a reedição caprichada da peça, pela editora Temporal. São dois volumes, sob competente organização de Maria Sílvia Betti: um com a peça em si, e outro com o Dossiê de Pesquisa, material catado pelo autor e Maria Célia Teixeira, em arquivos de jornais antigos, com coleções de palavras e gírias antigas, notícias do Rio de Janeiro da década de 1930, letras de canções populares das quatro primeiras décadas do século 20.

 

O motivo de ter Vianninha feito esse dossiê se liga diretamente com o enredo da peça. Nela, interagem três gerações: a mais antiga e menos importante para o enredo é aquela dos anos 1910, que enfrentou a febre amarela no Rio e é representada por Custódio Manhães; a segunda é a de seu filho, Custódio Manhães Junior, um dos protagonistas da peça, apelidado de Manguari Pistolão (no filme, interpretado por Marco Ricca), que foi jovem no tempo de Getúlio, quando era militante sindical comunista; e a terceira é a do filho deste, Luís Carlos, Luca (no filme, Chay Suede, um baita ator), que vira hippie nos anos 1970, o presente da peça.

 

Nascido em 1936, Vianninha é irmão mais velho, por assim dizer, de Caetano, Chico, Rita Lee e outros. Quer dizer: é da geração que pôde ser, ela mesmo, hippie, usando jeans como roupa comum.

 

Furtado, co Ana Luiza Azevedo e Vicento Moreno, adaptou o enredo para uma geração depois. O passado gora é os anos 1970, da luta contra a ditadura militar; é o tempo do pai e de seus filhos, como o engraçado nihilista Lorde Bundinha (na tela George Sauma, excelente). E o presente é o nosso aqui e agora, das reivindicações de gênero, do novo feminismo, da proatividade imediata – longe das elucubrações e planos de gabinete dos políticos de partido organizado.

 

Tudo a ver, então, nesta adaptação, nesta atualização do enredo?

 

Aqui entra a dúvida, que insinuei na tese dos jeans: embora a atuação dos dois protagonistas no filme seja cem por cento convincente, havendo mesmo momentos de intensa força dramática, algo parece esvaziado, levando-se em conta a peça original.

 

Não que esta seja a oitava maravilha; não é, tem lá seu tanto de esquematização e de opacidade.

 

O conflito entre pai e filho responde ao abismo entre o mundo do rádio e o da televisão. Já no filme, o abismo tecnológico não seria menor, entre a televisão e o smartphone. Mas a energia do conflito parece ter-se esmaecido.

 

(Ou se trata apenas da impressão viciosa de um senhor de 60 anos, que aqui escreve?

 

Não é por acaso que Marco Ricca não usa jeans.

 

Mas, contrariando a minha tese, Chay Suede, bá, nem usa mais jeans, nem os rasgados: veste saia!

 

Confira lá. O debate que o filme traz ajuda, quando menos, a auscultar nossa perplexidade com o que já está aí e com o que por aí vem vindo.

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=7EdKGEKE9aw

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Luís Augusto Fischer/professor do Instituto de Letras da UFRGS em 16/12/2018