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Belchior: do Sertão ao Sul
Belchior: do Sertão ao Sul

BELCHIOR: DO SERTÃO AO SUL

 

Biografia recém-lançada recupera a trajetória do cantor e compositor cearense, da juventude monástica ao exílio final na cidade de Santa Cruz.

 

Livro: BELCHIOR: APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, de Jotabê Medeiros – Biografia. Todavia, 240 páginas.

 

O cantor e compositor cearense Antônio Carlos Belchior (1946-2017) morreu em abril, em Santa Cruz, depois de passar anos como protagonista de uma renúncia radical – que o levou a se tornar um errante amparado pela gentileza de estranhos. Uma primeira tentativa de analisar essa vida peculiar está chegando às livrarias na forma de BELCHIOR: APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, biografia produzida pelo jornalista Jotabê Medeiros e que está sendo lançada pela recente editora Todavia.

 

Produzida ao longo de um ano e meio, é um esforço para traçar em linhas gerais a trajetória do artista, de seu nascimento em Sobral, no sertão cearense (o 13º irmão de uma família que, somando os dois casamentos do pai, contava mais de 20 filhos), até seus últimos dias em Santa Cruz, interior do Rio Grande do Sul – passando pela formação como monge no mosteiro dos Capuchinhos em Guaramiranga(CE) e pela carreira artística.

 

Depois de abdicar da vida religiosa, Belchior se tornaria parte de uma brilhante geração cearense articulada para produzir cultura. Belchior, Ednardo, Fagner e Jorge Mello seriam alguns dos primeiros dessa leva a se mudar para o Sul.

 

- De certa forma, aquele “pessoal do Ceará” era cada um na sua. Por exemplo, Belchior e Ednardo tiveram algumas parcerias, poderiam ter mais, dado que eram caras talentosos e da mesma geração. O Belchior teve vários parceiros de composição ao longo da vida, mas com o núcleo mais criativo daquela turma teve estranhamentos – diz Medeiros.

 

O mais profundo desses estranhamentos foi com Raimundo Fagner, parceiro na composição Mucuripe, que catapultou a carreira de ambos depois de ser gravada por Elis Regina em 1972. Instável o relacionamento entre eles foi pontuado por discussões e até brigas – numa delas, conta Medeiros, partiram de faca um para cima do outro e a coisa só não terminou em tragédia pela intervenção severa do amigo comum Jorge Mello.

 

O livro também se dedica aos anos finais de Belchior, vividos sem paradeiro fixo entre Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul. Uma gradual renúncia que Medeiros relaciona com o espírito monástico do jovem artista:

 

- O Belchior adquiriu um comportamento monástico. Primeiro, se despiu dos bens: abandonou tudo, deixou apartamento, carro. Depois, largou as relações familiares. Não tinha nenhum tipo de conexão com o mundo que o criou no Ceará e em São Paulo. E a ruptura mais radical seria com a vida artística que ele construiu.

 

Cria do sertão, Belchior era fascinado com o extremo sul. Santa Cruz, que ele conheceu a partir dos anos 1980, também era uma cidade que o encantava mesmo antes de ele se mudar para lá.

 

- Era um espaço mítico para ele, um mito que envolvia não apenas a geografia mas um imaginário – comenta Medeiros.

 

LIVRO É BEM ESCRITO MAS POUCO PROFUNDO

 

No saldo final, APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO tem mais de um perfil jornalístico do que de uma biografia exaustiva. Jornalista cultural com longos anos de estrada, Medeiros brilha quando a narrativa o leva a viajar pelas muitas e sofisticadas leituras possíveis da música de Belchior. O autor, a propósito, acredita que o mito criado em torno do desaparecimento de Belchior serviu também para a redescoberta de sua música junto a uma geração mais jovem crescida na era da superexposição digital.

 

Mas alguns problemas surgem quando o livro envereda pela biografia propriamente dita. Os principais mistérios que cercaram Belchior em seus últimos anos continuam sem reposta além do insight que compara a vida errante do fim com a rotina monástica que ele vivenciou na juventude.

 

Mesmo a entrada em cena de Edna, companheira de Belchior no exílio, é discreta. Não se fica sabendo mais sobre o relacionamento de ambos do que já foi publicado na imprensa. Até porque, como o próprio autor admite, ela não é uma das fontes da obra.

 

TRECHO DO LIVRO

 

Belchior contou que tinha vivido em Porto Alegre por alguns meses, no Bom Fim, em meados dos anos 1970, hospedado na cidade pela gravadora, que o isolava do eixo Rio-São Paulo enquanto preparava o lançamento do álbum ALUCINAÇÃO, sua obra-mestra. “Radamés Gnattali, músico porto-alegrense, fez o arranjo musical para uma gravação da música Baião, de Luiz Gonzaga (...)”, disse Belchior, enquanto assistia ao trânsito em transe da lenta avenina Venâncio Aires no fim da tarde.

 

 

Fonte: ZeroHora/Segundo Caderno/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 01/09/2017.