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Nós, Os Tincoãs
Nós, Os Tincoãs

HISTÓRIA: “NÓS, OS TINCOÃS” RELEMBRA AMÁLGAMA CULTURAL PIONEIRO.

 

Corais católicos e ritmo do candomblé estão na raiz do grupo dos anos 70.

 

Além de baianos, qual seria o elo entre João Gilberto e Carlinhos Brown? A resposta, nada óbvia, está em Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano a 120 km de Salvador. Dona do segundo maior conjunto arquitetônico do estilo barroco da Bahia e conhecida por seu sincretismo religioso, Cachoeira também é o local de nascimento do trio vocal Os Tincoãs. As igrejas e os terreiros de candomblé sempre conviveram lado a lado, influenciando os moradores com suas crenças, seus rituais e sua música. É desse amálgama cultural que surge a matéria-prima que alimenta os tincoãs.

 

A mistura do canto de corais litúrgicos católicos com o ritmo dos terreiros de candomblé está na essência da música dos Tincoãs, que surpreende pela junção de harmonia e vocalizações sofisticadas com elementos rítmicos africanos. Esse som, que mistura melodias muitas vezes jobinianas com percussão africana, foi pioneiro na união entre harmonia e ritmo. O grupo, que obteve algum sucesso nos anos 70, principalmente com músicas como “Deixa a Gira Girar”, “Promessa ao Gantois” e “Cordeiro de Nanã” (gravada por João Gilberto), tem sua história relembrada em livro e CDs, por meio do projeto Natura Musical.

 

O livro NÓS, OS TINCOÃS narra a vida do grupo por meio de depoimentos de artistas, produtores, jornalistas e de Mateus Aleluia, de 74 anos, integrante do grupo na ativa, em livro recheado de fotos históricas, transcrições de textos de jornais e ensaio fotográfico realizado em cachoeira, com direção artística de Gringo Cardia. A cereja do bolo é a edição em CD de três álbuns essenciais do grupo, lançados entre 1973 e 1977, encartados no livro, dois deles nunca lançados em formato digital anteriormente.

 

Embora o grupo tenha gravado pouco, o legado que construiu é expressivo o suficiente para ter impressionado João Gilberto, Carlinhos Brown, Martinho da Vila e Gilberto Gil. A influência do grupo chega até os dias de hoje, sendo citadas por artistas mais novos, como Criolo e Emicida e a banda Bixiga 70.

 

Para Martinho Da Vila, os Tincoãs uniram os cânticos de candomblé à música barroca gregoriana. Na década de 80, Martinho gravou com os Tincoãs em discos voltados para pesquisa de música africana, principalmente de Angola, país onde chegaram a fazer shows juntos. O músico ressalta a importância do trio em levar a música milenar do Recôncavo da Bahia para o Rio de Janeiro, e de lá para os lares brasileiros por meio do rádio e da televisão.

 

A formação musical de seus componentes se deu tanto nas igrejas quanto no candomblé. Cachoeira é rica em igrejas e em terreiros. Mateus Aleluia conta que a iniciação se deu no coral da igreja de Nossa Senhora do Rosário, mas as músicas dos terreiros de candomblé despertavam mais o interesse, o que levou o grupo a interpretar as canções milenares do candomblé com tratamento artístico de conservatório.

 

Formado no início dos anos 60, o trio de Cachoeira passou por várias formações. Aleluia e dadinho participaram da maioria das gravações realizadas pelo grupo, com exceção do primeiro LP, lançado ainda no início dos anos 60 com influência dos boleros e sucesso radiofônicos.

 

A partir do segundo LP, “Os Tincoãs”, lançado em 1973, a base do repertório do grupo já havia mudado e era formada por cantos de candomblé, sambas de roda e cantos litúrgicos católicos adaptados no formato de canção. O ineditismo da apresentação das canções levou-os às trilhas sonoras de novelas, a shows em todo o país e a programas de TV, como o Fantástico (Rede Globo).

 

Mais dois Lps se seguiram, “O Africanto dos Tincoãs”, em 1975, e “Os Tincoãs”, em 1977. São esses três discos que foram encartados no livro. Embora a reedição desses discos por si só seja de extrema importância pois estavam esquecidos pelas gravadoras, ela peca por não disponibilizar um encarte que identifique as músicas contidas nos discos ou informações técnicas sobre os músicos participantes. Um livro que visa resgatar a história do grupo deveria ter cuidado em preservar informações importantes.

 

Depois do sucesso inicial, em 1983, uma viagem para Luana, em Angola, que deveria durar uma semana, acabou se tornando mais longa. Aleluia e Dadinho se mudaram para o país africano onde, com o mecenato do governo, desenvolveram pesquisa sobre a presença da influência de Angola na música, cultura e nas religiões africanas no Brasil.

 

Dadinho morreu em 2000 e Mateus Aleluia tornou-se o único integrante ativo do grupo. Voltou ao Brasil alguns anos depois. Mais recentemente, gravou dois discos solo, “Os Cinco Sentidos” (2010), e “Fogueira Doce” (2017), trabalhos em que retoma o legado dos Tincoãs. Em parcerias com Carlinhos Brown, continua sua busca para o entendimento da influência dos ritmos africanos na musicalidade brasileira.

 

Fonte: Revista Valor/Eduardo Magossi/SP em 23/02/2018