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Copacabana, A Trajetória do Samba-Canção
Copacabana, A Trajetória do Samba-Canção

A OBRA-PRIMA DE ZUZA HOMEM DE MELLO

 

Crítico escreve a futura enciclopédia indispensável da música popular brasileira.

 

COPACABANA – A TRAJETÓRIA DO SAMBA-CANÇÃO (1929-1958) Zuza Homem de Mello, Editora 34, 512 páginas.

 

Como se não bastasse o currículo vasto e invejável, Zuza Homem de Mello acaba de publicar, aos 84 anos, aquele que é o seu livro mais importante, a futura enciclopédia indispensável da música popular brasileira, o clássico instantâneo COPACABANA – A TRAJETÓRIA DO SAMBA-CANÇÃO (1929-1958).

 

Escrito num intervalo de 12 anos, COPACABANA é também uma eloquente e bem- humorada declaração de amor a um país que já não existe mais, um certo Brasil cuja música popular foi equivalente ao que havia de melhor no mundo em seu tempo – e que tempo!

 

E é pela história do samba-canção – a ponte da modernidade entre o samba e a bossa nova – que somos conduzidos, sempre indo e voltando do bairro cario ca que dá nome ao livro. “Uma vez no Rio de Janeiro, Copacabana é que era bacana”, escreve Zuza. E ataca, com uma lição de história e urbanismo, as origens do bairro em que floresceria o samba-canção.

 

Feito de histórias e canções e histórias de canções e artistas, COPACABANA é também a viagem de um paulista de passaporte carimbado pelos sons que admira. Zuza estudou música nos EUA, foi contrabaixista da noite, topou com diversos monstros artísticos internacionais e esteve no centro dos grandes festivais da Record, que lançaram a nata da MPB, de Chico Buarque e Caetano Veloso para a frente. Suas experiências são múltiplas, e tudo aquilo que ele vai desfiando pelas páginas de COPACABANA ganha esse toque de conhecimento pessoal intransferível.

 

Ele encontra com Sammy Davis Jr. na cozinha de uma boate, mas também vê a cantora Maysa tocar os seus temas de fossa num violão pela primeira vez, quando ainda era uma Matarazzo. Ouve depoimentos de cartola e se surpreende com os conhecimentos artísticos de Dorival Caymmi. Ao mesmo tempo, conta a gênese notável de algumas de suas músicas, como AS ROSAS NÃO FALAM e ACONTECE, do primeiro, e MARINA, DORA e JOÃO VALENTÃO, de Caymmi, todos sambas-canções de rara estirpe. Faz o mesmo com boa parte dos artistas que atravessam as páginas de COPACABANA, pessoas que em sua imensa maioria, ele conheceu pessoalmente.

 

Com verve, humor e conhecimento de causa, Zuza diz tudo o que sabe, com grande generosidade, sobre o talento único desses astros de trajetória fantásticas.

 

Para aqueles que não sabem nada de música brasileira, é uma lição e tanto, graças ao conhecimento musical do autor. Para quem entende doassunto, é um bálsamo, pois o livro mexe com o inconsciente coletivo. Página a página somos tomados por memórias de trechos de letras e sons familiares.

 

Zuza, no entanto, não fica batendo na tecla saudosista do “antes era melhor”. De um jeito paradoxal, ele parece olhar para a frente, sem se lamentar por aquilo que ficou para trás. “Chega de saudade”, ele parece dizer, ao mesmo tempo em que demonstra com histórias e fatos o estofo de uma nação muito mais divertida, na qual a música exercia um papel fundamental. De Noel Rosa a Tom Jobim, passando por Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto e também pelas divas que dominaram o rádio nos anos áureos, COPACABANA fala de trajetórias extraordinárias.

 

Para tanto, os capítulos são divididos em temas divertidos, todos girando em torno do bairro “que era bacana”: Os Cafajestes, Os Cassinos, Os Presidentes, O Sambolero, As Damas e as Divas, O Refúgio Barato dos Fracassados no Mar… e por aí vai.

 

De Nelson Gonçalves ficamos sabendo que “dava piruetas mudado de endereço a toda hora, para sustentar” um pequeno harém. De Dolores Duran aprendemos que era uma poliglota autodidata, e que rabiscava suas composições com lápis de maquiagem em guardanapos de papel. Sobre Noel, entendemos que o seu samba-canção mais bonito, TRÊS APITOS, de 1933, foi composto “quando dividia um namoro entre Clara, que morava a três quarteirões de sua casa, e Fina (Josefina), com quem passeava de automóvel às escondidas por bairros distantes”. E tudo deságua na bossa-nova, pois o samba-canção é, nas palavras de Zuza, “a plataforma da modernidade na nossa música”.

 

Na levada de um SÁBADO EM COPACABANA, o samba-canção de Caymmi que, entre muitos outros, também celebrava o bairro, Zuza nos conduz como ilustres passageiros de um bonde antigo rumo a essa modernidade que é passado. As novas gerações, felizmente, tem nas mãos um clássico musical capaz de inspirá-las para tocar o trem adiante. E não é só de música que estamos falando.

 

 

Fonte: Revista Valor/Livro/Cadão Volpato em 22/12/2017