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Caetano, uma Biografia: A Vida de Caetano Veloso
Caetano, uma Biografia: A Vida de Caetano Veloso

O BÁRBARO CAETANO

 

Livro biográfico passa em revista a vida e a obra do cantor e compositor baiano, que segue em efervescente atividade como protagonista da vida cultural do Brasil.

 

Livro: Caetano, uma Biografia: A vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos ´De Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, Editora Seoman, 544 páginas.

 

Aos 74 anos – completa 75 em 7 de agosto – e em plena forma física e artística, Caetano Veloso é personagem onipresente na vida cultural do Brasil e figura pública que vira notícia até mesmo por banalidades como a folclórica estacionada de carro no Leblon. A dimensão artística de Caetano e sua inter-relação com nomes, movimentos estéticos e episódios históricos tão relevantes quanto ele já foram iluminadas em diferentes publicações, inclusive na autobiografia VERDADE TROPICAL, que lançou em 1997. Nesta mesma época, Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco deram início a um projeto de pesquisa ambicioso, que somente 20 anos depois conseguiram apresentar: CAETANO, UMA BIOGRAFIA: A VIDA DO MAIS DOCE BÁRBARO DOS TRÓPICOS passa em revista vida e obra do cantor e compositor baiano ao longo de 544 páginas. Sua publicação é resultado da decisão do Supremo Tribunal federal, em 2015, que derrubou a restrição que condicionava trabalhos biográficos à autorização dos biografados ou seus familiares.

 

Drummond e Nolasco, ambos cariocas, investiram em um trabalho de fôlego. Costuram na narrativa depoimentos de 103 entrevistados, incluindo a mãe do artista, Dona Canô (1907-2012), irmãos e amigos que cresceram com Caetano em Santo Amaro da Purificação, além de músicos e produtores que trabalharam com ele.

 

A reconstituição da juventude de Caetano no interior da Bahia, apresenta o menino franzino que se apaixonou cedo pelas grandes vozes do rádio (Vicente Celestino, Noel Rosa e Nelson Gonçalves, entre outros cantores que animavam o casarão da família), enfurnava-se no cinema para ver clássicos italianos, em especial os de Federico Fellini, e precocemente mostrou interesse por poesia e filosofia.

 

Esse resgate memorialístico, segundo relatam Drummond e Nolasco, emocionou Caetano quando este teve acesso a um rascunho do material, nos anos 2000, e escreveu uma carta reconhecendo a pesquisa e dando aval a sua continuação. Mas o artista nunca deu a autorização formal exigida pelas editoras receosas de futuros processos. O projeto foi engavetado em 2004 e acabou salvo pela resolução do STF 11 anos depois – Caetano, aliás, integra o Procure Saber, movimento de artistas que defende a restrição a publicações de biografias não autorizadas.

 

Mas não há nada, na biografia, com que Caetano possa se incomodar. O tom é o da celebração a um artista inquieto, multifacetado, transgressor e por vezes polêmico. Episódios da vida privada, como seus relacionamentos amorosos (envolveu-se co sua mulher a empresária, Paula Lavigne, quando tinha 40 anos e ela, apenas 13), já são bem conhecidos. O que teria incomodado Caetano diz respeito à “baixa qualidade literária” do projeto, conforme Paula Lavigne declarou com a chegada da publicação às livrarias. Em entrevista a ZH (abaixo), Drummond explica que a opinião de Caetano é referente a um esboço do livro que recebeu em 2003:

 

- Alguns jornalistas abordaram o tema sem apurar com rigor esse fato.

 

Para leitores mais exigentes da forma aliada ao conteúdo, pode ser mesmo um entrave o passeio por tão aprofundada pesquisa em meio ao tom por vezes laudatório e aos clichês narrativos, que vão de trocadinhos ingênuos com títulos de canções a expressões como “gostinho de quero mais” (usada duas vezes no intervalo de quatro páginas),

 

Vencido esse quesito, o trabalho mostra-se robusto na reconstituição de momentos emblemáticos do caminho trilhado por Caetano: o primeiro show, aos 12 anos abrindo uma apresentação de Silvio caldas em Santo Amaro (aos oito já havia cantado na rádio local); o desbunde com o conterrâneo João Gilberto e a bossa nova; a efervescência cultural de Salvador vivida com Glauber Rocha, Torquato neto e Wally Salomão – e, logo mais, com Gil, Gal e Tom Zé; a ida para o Rio (em 1965, acompanhando Bethânia quando a irmã foi convidada para cantar no espetáculo Opinião); as primeiras gravações.

 

O protagonismo de Caetano à frente do Tropicalismo e a temporada do exílio em Londres são também ricamente detalhados, inclusive destacando figuras como Jorge Mautner, guru intelectual da turma de expatriados e artistas múltiplo e visionário com suas incursões pela literatura, música, cinema e ciências diversas. São interessantes também as notas de rodapé que indicam a inspiração de Caetano para muitas de suas canções mais conhecidas.

 

- Não éramos fãs de Caetano – diz Drummond. - Sabíamos da importância de sua obra, mas não de forma aprofundada. O primeiro personagem que pensamos biografar foi Roberto Carlos. Caetano veio como segunda opção. Cada nova entrevista nos trazia histórias e detalhes que nos surpreendiam. Conhecer também a origem de uma infinidade de canções mudou nossa visão e percepção sobre o repertório dele. Mas as surpresas não se resumem a Caetano. No livro há muitas histórias inéditas de Maria Bethânia, Gal Codta, Gilberto Gil e tantos outros. Nesse sentido, são várias biografias dentro da biografia.

 

ENTREVISTA COM CARLOS EDUARDO DRUMMOND

 

O livro é muito rico na reconstituição da infância e juventude do caetano em Santo Amaro. Como se deu o trabalho de mapeamento e contato com as pessoas que ajudam a contar essa história?

 

Foi um dos períodos mais gratificante de toda a pesquisa. Rodrigo Velloso, irmão de Caetano, nos recebeu em Salvador e Santo Amaro e nos colocou em contato com amigos de infância, professores, colegas de classe, cenários e locais frequentados por Caetano menino e adolescente. Passamo tardes agradáveis ao lado de Dona Canô e de outros parentes de Caetano. Ouvimos histórias inéditas, muito íntimas, e tivemos acesso irrestrito ao acervo documental da família. As informações e documentos obtidos ajudam o leitor a entender como se deu a formação do artista.

 

Houve algum episódios que, na pesquisa, mostrou-se diferente ou conflitante em relação ao relato em outros trabalhos?

 

Não há outro livro semelhante que servisse plenamente de parâmetro. Nosso livro aborda todos os períodos da vida e da carreira de Caetano Veloso, desde antes de seu nascimento até 2016, isto é, quase um século de história, considerando as passagens envolvendo os antepassados dele. Encontramos muitas dessas passagens em resumos biográficos ou livros com ênfase no tropicalismo. A exceção é o livro VERDADE TROPICAL, escrito pelo caetano. Mesmo aí não encontramos versões conflitantes, mas sim, complementares. Por exemplo, durante a ditadura, enquanto caetano apresenta a visão dele de dentro da cadeia, apresentamos a movimentação que ocorreu do lado de fora. Entrevistamos um militar, citado por Bethânia, que foi fundamental para nos ajudar a entender o protocolo empregado pelo regime. Além de apresentarmos os fatos ocorridos dentro da prisão, complementamos com o que ocorreu do lado de fora, impossível de ser testemunhado por Caetano.

 

Como estão recebendo as declarações de Caetano, por meio de Paula Lavigne, de que não falaria sobre o livro por considerá-lo “de baixa qualidade literária”?

 

Importante esclarecer que essas opiniões de Caetano são de 2003, quando ele teve acesso ao esboço do livro. Alguns jornalistas abordaram o tema sem apurar om rigor esse fato. O assunto foi deslocado no tempo, virou o destaque da notícia e colocou na cabeça das pessoas que o texto final recém lançado desagradou Caetano. Em recente viagem à Europa, Caetano foi questionado por jornalistas portugueses e declarou que não tinha lido a versão final e que o faria quando voltasse ao Brasil. A essa altura, é possível que já tenha lido. Naturalmente ele pode gostar ou não gostar, isso faz parte do repertório de opiniões sobre um livro. A opinião de um artista com a história dele tem peso, mas o gosto pessoal é algo muito subjetivo. Alguns leitores se basearam somente nas matérias iniciais e não compraram o livro. Mas o livro está vendendo bem e temos recebido excelentes opiniões dos leitores. Alguns elogiam exatamente a informalidade do texto, porque resgata o artista popular aproximando-o de seus fãs. Não seri adequado contar a história de um personagem tão complexo empregando uma linguagem rebuscada, igualmente complexa. O livro tem o mérito de ser simples, sem ser simplório, sem fazer análises filosóficas da obra e da postura do artista. Escolhemos esse estilo e fomos fiéis a ele até o fim.

 

Leia a íntegra da entrevista com os autores em: bit.ly/biocaetano

 

 

Fonte: ZeroHora/2º Caderno/Marcelo Perrone (marcelo.perrone@zerohora.com.br) em 20/06/2017