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Martinho da Vila, Bamba do Samba e da Escrita
Martinho da Vila, Bamba do Samba e da Escrita

MARTINHO, BAMBA DO SAMBA E DA ESCRITA.

 

Músico vem a Porto Alegre lançar o livro de crônicas CONVERSAS CARIOCAS.

 

Martinho da Vila não tem nada a provar no território da música. Aos 79 anos, o bamba acumula uma estrada de respeito dentro e fora do Brasil. O que pouca gente sabe é que ele também escreve – e muito. Hoje, em Porto Alegre (22/06), o cantor mostra seu lado escritor no lançamento do seu 15º livro, CONVERSAS CARIOCAS.

 

Publicado pela editora Malê com organização de Tom Farias, a obra é uma compilação das colunas que Martinho escreveu durante dois anos no jornal carioca O Dia. Em suas páginas, observações do cotidiano, reflexões sobre política e religião, lembranças de grandes figuras da música e até dicas do que fazer com a criança no feriado prolongado. A leitura é fluida, mas ele garante que o trabalho ali foi pesado.

 

- Ser cronista é muito difícil. A coluna era semanal e o prazo, muito apertado – comenta. - Fora que eu começava falando sobre um assunto e, quando via, estava engatando outro (risos). Mas foi uma experiência boa.

 

O lançamento de CONVERSAS CARIOCAS é hoje, na livraria Cultura, no Bourbon Country. Amanhã (23/06), Martinho volta a ser músico e sobe no palco do Auditório Araújo Vianna, em show com Diogo Nogueira.

 

ENTREVISTA

 

 

Você trata de muitos assuntos em CONVERSAS CARIOCAS, incluindo a trinta futebol, política e religião, que o senso comum considera indiscutível. Existe algum assunto que é melhor não falar?

 

Não se pode falar assim. Posso falar de tudo, mas às vezes tenho que arranjar uma forma que não cause polêmica. A polêmica pode ser boa, mas eu não gosto mais (risos). De qualquer forma, é difícil não desagradar as pessoas que gostam de você. Elas acompanham o seu trabalho há tanto tempo que vão se identificando e querendo que você pense como elas, mas não é assim. (risos).

 

Isso ocorre muito no universo das redes sociais…

 

Ah, mas eu não frequento. De jeito nenhum. É um lugar onde todo mundo pode dar opinião sobre tudo, atacar o outro sem pensar muito. Acho complicado. Proibir não pode, claro, mas não é pra mim. Computador eu só uso para pequisa e e-mail. E telefone é só para fazer o que estou fazendo agora contigo (risos).

 

Mas é onde muitas discussões acontecem atualmente, especialmente sobre política. Você, que viveu diversos momentos da política do nosso país, tem acompanhado esse cenário?

 

O cenário político do país hoje é muito difícil. Não consigo ver muita luz, mas acredito que ela esteja lá (risos). Estamos todos muito descrentes, especialmente com os poderes. O sujeito faz alguma coisa boa e, na sequência, faz algo ruim. Parece que não dá para confiar em ninguém mais. Mas o Brasil sempre achou uma saída e uma hora ela aparece. Talvez mudar tudo de uma vez.

 

Nunca pensou em entrar para a política, não?

 

Não e não admiro muito o ser político. A pessoa vira política e se torna outra pessoa. Por exemplo, não gosto de votar em candidato que concorre para um segundo mandato, porque ele já está contaminado e fazendo de tudo para ficar ali. Daí acho que não serve mais para continuar.

 

Outro tema frequente em CONVERSAS CARIOCAS é o seu envolvimento com o movimento negro e a necessidade de valorização das nossas raízes africanas. Como começou esse interesse?

 

Começou quando fui a Angola na época em que muitos países da África estavam se tornando independentes. E no Brasil essa notícia não chegava. Quando voltei, falei com a imprensa sobre o que acontecia por lá, porque aqueles países, muitos deles de língua portuguesa, precisam de exposição para sua luta. Porque quando mais você mostra um problema, quanto mais gente fica sabendo dele, mais rápido ele se resolve. Alguns desses países ficaram gratos, disseram que fiz parte do processo de libertação deles, e ficou essa ligação entre a gente. Hoje não vou com muita constância, mas sempre que vem alguém deles pra cá, acaba entrando em contato comigo.

 

E no Brasil? Estamos avançando nessa discussão?

 

Sim, certamente. O pessoal da minha geração não tinha informação nenhuma. Não estudou a história do negro, não estudou a história da África. Hoje você tem muita publicação a respeito e tivemos, nos governos anteriores, negros no poder Executivo, nos ministérios, nas secretarias, enfim. Nosso problema, hoje, é esse: ocupar espaço. Não acompanho muito essa área, mas tivemos uma Miss Brasil negra, o que é um avanço incrível. O rap é importante e é muito forte, tem o Criolo, o Emicida, o Rapppin Hood.

 

E tem ouvido música?

 

Faço mais música do que ouço, né? (risos) Quando tenho tempo, gosto de ouvir as coisas que curto mais. Pego um disco de um colega, um disco bem feito, bonito, e fico ali ouvido e lendo as informações do encarte. Pra mim, ouvir música é como ler um livro. Também ouço muita música folclórica e música instrumental. O que se está ouvindo no rádio hoje é muito ruim, pelo menos para os meus ouvidos. E acho complicado porque as pessoas são criadas pelo que elas ouvem. Quem ouve uma música muito simples, não vai gostar de uma música mais complexa, mais elaborada. E o gosto do brasileiro hoje é esse.

 

Fonte ZeroHora/Gustavo Brigatti (gustavo.brigatti@zerohora.com.br) em 22/06/2017.