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Entrevista com Andrea Giunta, Bienal do Mercosul
Entrevista com Andrea Giunta, Bienal do Mercosul

AS MULHERES SÃO EXCLUÍDAS DA ARTE”

 

ENTREVISTA: ANDREA GIUNTA – Curadora-chefe da 12ª Bienal do Mercosul

 

Anunciada em outubro como a curadora-chefe da 12ª Bienal do Mercosul, a ser realizada em 2020, a argentina Andrea Giunta veio a Porto Alegre para participar de um seminário marcado para ontem (06/11) na 64º Feira do Livro. O título da Bienal e a equipe serão anunciados até o final do ano. Experiente curadora, pesquisadora e professora da Universidade de Buenos Aires que já passou por instituições de ponta nos Estados Unidos e na Europa, Giunta é uma das organizadoras da mostra Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1985, em cartaz em São Paulo. Leia a seguir a entrevista concedida na sede da Fundação Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.

 

 

Os temas da 12ª Bienal serão arte, feminismo e emancipação. Que reflexões você deseja articular a partir dessas questões?

 

Realizando uma pesquisa de oito anos para a mostra Mulheres Radicais, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, comprovei que as mulheres são excluídas do mundo da arte. Agora, elas representam, no melhor dos casos, 30% dele. Não têm exposições individuais e, se têm, são em número muito menor. Para mim, é importante trabalhar com representação igualitária de 50% a 50% (entre homens e mulheres). Trabalho muito na Argentina para alcançar isso, e foi muito efetivo. Quando falo de emancipação, logicamente é sobre os direitos das mulheres, pelos quais elas lutaram durante todo o século 20, mas também sobre conhecimento. O feminismo é também didática, exploração, capacidade de compreender o lugar do outro, a possibilidade da empatia. E também a fluidez, ou seja, feminino e masculino não estão necessariamente separados em dois. Há afetos, muitas coisas que ficam em termos mais fluidos.

 

 

Você já disse que a Bienal de 2020 começa agora. Além do seminário na Feira do Livro, que outras atividades pensa em realizar até lá?

 

Para o próximo ano, estamos planejando uma grande conferência internacional sobre feminino, feminismo e participação. Virei para organizar coisas específicas, mas ainda não tenho a agenda. Haverá uma preparação do público para a riqueza do conceito e das ideias que vamos explorar com a Bienal. Quando abrir, contará com muita performance, música, vídeo e obras de arte mais tradicionais, por assim dizer, mas o público terá também um campo de problemáticas que poderá conhecer antes da Bienal.

 

 

A Bienal é conhecida como sendo “do Mercosul”, mas já teve trabalhos de diferentes partes do globo. Como imagina a próxima edição?

 

Logicamente, vai haver uma representação muito importante do Mercosul, da América Latina. O Mercosul é um diálogo econômico, mas não são somente os artistas de Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai que estão na conversa. Tem os artistas do Chile, do México. A América Latina vai ter muita importância, mas meu sonho é uma Bienal com muita presença internacional. É bom para o público ter a possibilidade de experimentar outras narrativas e histórias que são particulares.

 

 

Como você projeta a porcentagem de artistas mulheres na 12ª Bienal do Mercosul?

 

Não há uma decisão tomada, mas artistas homens que estão interessados no feminismo e na luta da mulher por representação também são parte da conversa. Sim, eles terão participação. Logicamente, será uma Bienal com mais representação de mulheres porque o tema é esse. A divisão entre 50% e 50% é o que se pretende em uma exposição de tema mais geral.

 

 

A exposição Mulheres Radicais é focada na produção latino-americana entre 1960 e 1985, uma época de autoritarismo e intolerância. Quais são os desafios para os próximos anos, que parecem aludir de alguma forma àquele contexto?

 

A experiência das ditaduras nos deixou um repertório de estratégias para comunicar. Você diz algo em condições nas quais não pode dizer. Então, a linguagem tem mais sofisticação, uma articulação que procura falar das coisas sem uma correlação exata entre a representação direta e o conteúdo. Vamos precisar, no futuro, de uma leitura cúmplice. Estou sendo prospectiva, não sei o que vai acontecer. Temos que trabalhar com a linguagem para poder expressar nossa sensibilidade, nossa concepção do mundo, mesmo que as condições não sejam de manutenção das liberdades constitucionais.

 

 

Um aspecto presente para o público é o fato de a arte contemporânea parecer “difícil”, como se sempre precisasse de uma mediação. Como você vê essa questão?

 

Não sou uma curadora do cubo branco, que coloca a obra e mais nada. Acho que o público que quiser ter a opção de ter um acesso à obra. Mas obviamente o público tem as próprias experiências e pode se conectar ou não com uma obra. Não é uma obrigação se conectar com toda arte. Mas tenho que dar tudo que posso para você conhecer mais, se quiser.

 

 

Poderia dar um exemplo?

 

Na mostra Mulheres Radicais, temos textos para cada obra. Isso não significa que a obra seja o texto. Mas se você quiser ter uma proposta, entre muitas, para compreender algum aspecto da obra, você tem. Caso tenha achado interessante, pode pesquisar depois e compreender que a obra abre muitas possibilidades de leitura. Minha experiência com Mulheres Radicais é que todo mundo compreende, adora e vai duas vezes para ver a exposição. Quanto à Bienal, ela tem uma longa tradição de educadores e um programa educativo que trabalha para isso. A arte tem que ser um lugar em que as pessoas podem ser coisas diferentes do que veem todos os dias. Não é televisão, rádio ou cinema. Mas tudo isso também está misturado com a arte.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Fábio Prikladnicki (fabio.pri@zerohora.com.br) em 07/11/2018