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Yesterday, de Danny Boyle e Richard Curtis
Yesterday, de Danny Boyle e Richard Curtis

O QUINTO BEATLE

 

Em YESTERDAY, Himesh Patel vive em um mundo no qual os Beatles nunca existiram

 

Comédias românticas me tiram do sério: eu rio, eu choro e eu fico brabo quando torcem o nariz para elas. Deve ser porque acredito no amor e no humor; no sol e nas estrelas, na confluência do acaso com o destino.

 

O último choque entre meu otimismo e críticos cricri foi por causa de YESTERDAY, que estreou na quinta-feira (29/08) nos cinemas. Saí da sessão para a imprensa crente de que havia acabado de assistir ao que nos EUA chamam de feelgood movie da temporada, o filme para se sentir bem, e, quem sabe, também um candidato ao Oscar (a Academia de Hollywood não gosta só de história triste). Ao pesquisar o que andavam dizendo, acabei surpreendido pela nota baixa no site Metacritic, que agrega avaliações de sites e jornais americanos, canadenses e britânicos: 56.

 

Quando azedume.

 

YESTERDAY traz o que a gente precisa hoje e amanhã, ontem e sempre: uma lufada de riso e de romance, de arte e de esperança, de sonho e de redenção.

 

O filme é dirigido pelo inglês Danny Boyle e escrito pelo neozelandês Richard Curtis. É um casamento inesperado, como convém a comédias românticas. |De um lado, o realizador do macabro COVA RASA (1994), do visceral TRAINSPOTTING (1996) e do pós-apocalíptico EXTERMÍNIO (2002). Do outro, uma espécie de Quentin Tarantino do gênero, mas sem a violência, obviamente. Como o cineasta de ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD, Curtis, 62 anos, imprime sua assinatura nos filmes que dirige – SIMPLESMENTE AMOR (2003) e QUESTÃO DE TEMPO (2013) – ou apenas escreve (são dele QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL e UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL). Temos um protagonista masculino com humor autodepreciativo, uma personagem feminina que exala doçura, o amigo esquisito que diz verdades ultrajantes, diálogos temperados com a fina mas às vezes cruel ironia britânica, dilemas morais capazes de colocar tudo por água abaixo, uma trilha sonora pop e, fundamentalmente, um convite para que abracemos o implausível – porque, nos universos conspirados por Curtis, o amor é soberano à razão, às convenções, à ciência. Um reles dono de livraria pode conquistar o coração de uma estrela de Hollywood. O primeiro-ministro pode se apaixonar por uma funcionária. Um jovem pode viajar no tempo para reencontrar a garota ideal.

 

ED SHEERAN

 

Em YESTERDAY, como no delicioso QUESTÃO DE TEMPO (se nunca viu, corra para a Netflix), Curtis volta a aplicar conceitos da ficção científica às comédias românticas. Jack Malik (interpretado com gana por Himesh Patel) é um empregado de supermercado que vem tentando, sem vitórias, emplacar carreira de cantor e compositor. Seus shows atraem apenas gatos pingados, como a professora Ellie (Lily James, a Cinderela de 2015), que também é sua empresária, sua motorista e sua fã número 1 – não somente por causa da música. A sucessão de fracassos leva Jack a desistir. Ele precisa de um milagre, diz, certa noite, no carro de Ellie.

 

- Milagres acontecem – ela retruca.

- Me dê um exemplo – ele pede.

- Benedict Cumberbatch ter virado símbolo sexual – ela responde.

 

Na mesma noite, durante um estranho blecaute, Jack sofre um acidente enquanto pedalava de volta para casa. Ao acordar, descobre que é a única pessoa no planeta inteiro que se lembra dos Beatles.

 

A situação rende momentos ora cômicos, ora mágicos. Embora não se detenha no impacto social e nas implicações culturais dessa distopia, o filme dimensiona o tamanho da influência de John, Paul, George e Ringo: para o resto do mundo e para o Google, os Beatles nunca existiram, o que significa que o Oasis igualmente nunca existiu! Quando Jack canta e toca YESTERDAY para Ellie e um casal de amigos, é como se a canção mais regravada da história voltasse a ser inédita, é como se nós também estivéssemos descobrindo a beleza pela primeira vez.

 

O mundo pode ser privado dessa beleza? Não é exatamente essa a nobre pergunta que o protagonista se faz quando confronta a si mesmo refletido em um espelho. Seu impasse é faustiano: em nome da fama e do dinheiro, deve tomar para si a autoria de canções como LET IT BE?

 

Jack assina o pacto com Mefistófeles, mas as coisas não saem como o desejado. Falta uma pequena ajuda de seus amigos. Contar mais do que acontece daí em diante é tirar a graça e a surpresa do espectador. Basta dizer que o elenco inclui um astro da música pop, Ed Sheeran, como ele próprio, e que a comediante americana Kate McKinnon introduz ainda mais humor no papel de uma ferina e absurdamente franca empresária do showbiz. Basta dizer que a perseguição de Jack à letra de Eleanor Rigby nos labirintos de sua memória ilustra a criatividade e a sofisticação dos Beatles. Basta dizer que o filme dá uma amostra de como os Fab Four poderiam ser tratados hoje – alguns nomes de canções e de álbuns poderiam sofrer restrições mercadológicas. Basta dizer que haverá uma participação especial inusitada e epifânica, aquele momento em que – novamente, a exemplo do que faz Tarantino – a ficção se torna maior e mais solar do que a realidade. Basta dizer que, provavelmente, você sairá do cinema mais feliz do que entrou, cantarolando e aliviado pelo fato de que, neste lado da tela, os Beatles sempre existiram e sempre existirão.

 

https://www.youtube.com/watch?v=jOVJ7z2aLzc

 

10 FILMES COM BEATLES EM CENAS CLÁSSICAS

 

Curtindo a Vida Adoidado (1986)

Os Beatles não curtiram – reclamaram da inclusão de instrumentos de sopro –, mas a sequência em que Ferris Bueller (Matthew Broderick) dubla Twist and Shout em uma parada de rua, em Chicago, ajudou a tornar antológicas tanto essa comédia adolescente do mestre John Hughes quanto a própria canção.

 https://www.youtube.com/watch?v=oZ7Xy-kf-dc

 

Rain Man (1988)

A cena em que os personagens de Tom Cruise e Dustin Hoffman cantam um versinho de I Saw Her Standing There acontece em um momento-chave do filme de Barry Levinson sobre a relação entre o jovem Charlie Babbit e seu irmão autista e mais velho, Raymond.

 https://www.youtube.com/watch?v=w5oGOhPcyvw

 

Pleasantville: A Vida em Preto e Branco (1998)

No filme de Gary Ross, dois irmãos (Tobey Maguire e Reese Witherspoon) vão parar dentro de um seriado dos anos 1950. Fiona Apple faz uma linda cover de Across the Universe quando o mundo volta a ganhar cor.

https://www.youtube.com/watch?v=v9EHRObUQqY

 

I Am Sam – Uma Lição de Amor (2001)

Jessie Nelson conta a história de um homem com atraso intelectual (Sean Penn, indicado ao Oscar de melhor ator) que cria sozinho a filha (Dako0ta Fanning, adorável) A trama é pontuada de referências aos Beatles, e a trilha traz duas dezenas de covers. Destaque para Two of Us (Aimee Mann e Michael Penn), Blackbird (Sarah McLachlan), You’ve Got to Hide Your Love Away (Eddie Vedder), Here Comes the Sun (um improvável Nick Cave) e Across the Universe (um arrebastador Rufus Wainwright).

 https://www.youtube.com/watch?v=ir6_2EkhzAc

 

Os Excêntricos Tenenbaums (2001)

O cineasta Wes Anderson convocou The Mutato Muzika Orchestra para uma versão instrumental de Hey Jude, que aparece na apresentação da cativante família disfuncional encabeçada por Gene Hackman e Anjelica Huston e culmina, na hora do arrepiante “na na na na”, no voo da águia Mordecai pelo céu de New Jersey.

 https://www.youtube.com/watch?v=AbZXt952qjU

 

Tiros em Columbine (2002)

Hábil em lançar mão da cultura pop para maximizar o efeito de seu discurso político, o documentarista Michael Moore usou Happiness Is a Warm Gun (A Felicidade É uma Arma Quente) no filme em que, ao reconstituir o massacre em uma escola, investiga o fascínio dos americanos por armas de fogo.

 https://www.youtube.com/watch?v=nOwheNAXiVo

 

Simplesmente Amor (2003)

Richard Curtis já havia declarado amos aos Beatles nesta comédia romântica que ele dirigiu: na sequência do casamento dos personagens de Keira Knightley e Chiwetel Ejiofor, um coral interpreta All You Need Is Love.

 https://www.youtube.com/watch?v=A5I5DeToRWU

 

Across The Universe (2007)

O musical de Julie Taymor retrata as transformações e as turbulências dos anos 1960 tendo canções dos Beatles como inspiração. O filme começa em Liverpool, de onde Jude (Jim Sturgess) viaja aos EUA em busca de seu pai. Lá o rapaz conhece Lucy (Evan Rachel Wood). O elenco interpreta músicas como Helter Skelter, Dear Prudence e Revolution. Bono Vox e Joe Cocker participam.

 https://www.youtube.com/watch?v=2p1aaX_mP_s

 

As Melhores Coisas do Mundo (2010)

O drama adolescente de Laís Bodsanzky foi o primeiro filme brasileiro com uma música dos Beatles na trilha – no caso, Something, composta por George Harrison.

 https://www.youtube.com/watch?v=eIGGnj3MBZc

 

A Rede Social (2010)

Baby You’re a Rich Man é uma coda irônica e melancóiica ao filme de David Fincher sobre o surgimento do Facebook: já rico, Mark Zuckerberg (Jason Eisenberg) atualiza sem parar sua página na rede social para ver se sua ex-namorada vai aceitar sua solicitação de amizade.

 https://www.youtube.com/watch?v=6VtX6przSlI

 

Fonte: Jornal Zero Hora/Caderno Fíndi/Ticiano Osório (ticiano.osorio@zerohora.com.br) em 01/09/2019