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O Que Restou da Beleza
O Que Restou da Beleza

O QUE RESTOU DA BELEZA

 

Uma exposição magnífica em Londres mostrou que os gregos não apenas souberam enxergar o belo na forma humana:  eles definiram por meio da arte o que é belo, e nos ensinaram a vê-lo com seus olhos.

 

 Afrodite                                                            Atleta de bronze da Croácia

 

Em 1996, na costa da Croácia, próximo à Ilha de Losinj, um mergulhador amador encontrou uma peculiar estátua de bronze a 45 metros de profundidade.  Recolhida e impecavelmente restaurada por especialistas croatas, tratava-se de uma cópia do período helenístico (entre 323 a.C. e 30 a.C.) de uma escultura grega originalmente do quatro século antes de Cristo:  um atleta de 1,92 metro de altura que o escultor soube notavelmente nos mostrar com cabelos como que suados e empoeirados e que limpa o corpo com um instrumento de ferro recurvado, a estrígil.  A beleza do corpo atlético, os detalhes de cobre nos lábios e nos mamilos, a superação técnica do artista ao transmitir a impressão do suor a cobrir o corpo do jovem de bronze, esse mesmo bronze que parece se mover no gesto de limpeza – nada disso poderíamos apreciar hoje não fosse o acaso de um mergulho de lazer.  Se nunca tivesse sido encontrado, esse “apoxyomenos” (o atleta “que se limpa”, literalmente) seria apenas uma estátua grega a menos que conheceríamos.

Afrodite/Discóbolo, de Míron/estátua mármore do deus Ilissos/réplica romana de escultura grega.

 

Quem entra na magnífica exposição Defining Beauty: The Body in Ancient Greek Art, em cartaz no British Museum de Londres até 5 de julho, logo depara com o atleta croata e com um conjunto impressionante de obras-primas que, ao longo de 2500 anos,  ajudaram a definir uma porção decisiva de nossos mais caros conceitos de arte e de beleza.  Diante dessa reunião de peças únicas que contam uma história nada menos que majestosa, a pergunta sobre o acidente de contarmos ou não com esta ou aquela escultura ganha outra dimensão.  A beleza da Afrodite, surpreendida em seu banho e inutilmente tentando esconder o corpo do olhar intruso; os dois mais celebrados modelos da beleza masculina no mundo grego, o Doríforo (o lanceiro), do escultor Policleto, e o Discóbolo (o arremessador de discos), de seu contemporâneo Míron, expressões matemáticas da perfeição do corpo atlético idealizada pelos gregos – todas essas obras nos recebem já na primeira sala da exposição, mas somente as conhecemos graças a inúmeras descrições em textos antigos e a uma grande quantidade de cópias romanas feitas ao longo dos séculos.  Como muitas das mais celebradas estátuas gregas foram produzidas em bronze, material amplamente reutilizado nos séculos seguintes para os mais ordinários utensílios, são raros os originais da Antiguidade que sobreviveram.

Muito além do acidente material da transmissão histórica, a exposição no British Museum permite uma reflexão de mais longo alcance: e se essas formas artísticas todas não tivessem chegado até nós?  Se, por exemplo, tivéssemos um grande hiato entre a civilização grega e a civilização cristã medieval, da qual também descendemos de maneira incontornável?  Se os romanos, em vez de admirarem, incorporarem e desenvolverem padrões gregos nas artes e nas letras, por exemplo, tivessem aniquilado a cultura que dominaram – ou, para ficarmos em um exemplo mais próximo de nossa realidade, se fossem mais apegados à inovação a todo custo em detrimento do apreço às lições do passado?  É possível dizer, sem exageros, que simplesmente não seríamos aquilo que somos – não apreciaríamos o que apreciamos, não nos emocionaríamos com o que nos emociona, não veríamos beleza no que julgamos belo.

A começar por isto: a ideia mesma de que a beleza física não é simplesmente imitada de um modelo real que encontramos no mundo mas sim aperfeiçoada por meio da arte – da técnica do artista – é uma herança grega profundamente arraigada em nosso julgamento sobre o que é belo.  E, se a ordem matemática de Policleto e a energia calculada de Míron anda estão presentes em nossa sempre renovada admiração pela harmonia, pelo equilíbrio e pela proporção das formas, outro fenômeno da escultura grega do período, Fídias, soube mostrar que essa idealização rigorosa da beleza era compatível com a intuição e com a vivacidade nas artes, não sendo apenas regida pela precisão detalhista.  Sua imponente estátua do deus-rio Ilissos, um mármore original de uma figura masculina reclinada que é puro movimento, enfeitava o glorioso Partenon no apogeu da Atenas do século V a.C. e é exibida ao lado dos demais atletas, completando o time de ouro de escultores gregos do século de Péricles.  Não é por outro motivo que épocas artísticas tão distintas como o Renascimento e o Romantismo puderam, cada qual a seu modo, beber em fontes gregas – razão e emoção, cálculo e instintos, tudo estava ali.

Se a beleza vai se definindo assim, como quer a exposição, pelos corpos que os gregos souberam retratar em sua cerâmica e em sua escultura, também isso é uma herança do mundo de Platão e de Sófocles, hoje indissociável de nossa sensibilidade.  Da Afrodite (ou Vênus) flagrada nua – a única deusa do Olimpo a ser assim representada – aos jovens atletas competindo; das formas delicadas da deusa Íris sugeridas pelo fino tecido (um verdadeiro milagre do escultor) comprimido contra seu corpo aos corpos nus de homens e centauros combatendo, como registram os frisos do Partenon, a definição de beleza que o espectador vai formulando para si coincide com uma verdadeira celebração do nu como forma artística.  E foi precisamente assim que o grande crítico e historiador da arte Kenneth Clark definiu a questão: “O nu é uma forma artística inventada pelos gregos no século V a.C., assim como a ópera é uma forma artística inventada na Itália do século XVII”.  E nada melhor que justamente essa forma artística para nos reconhecermos no nascimento mesmo de nossa arte e de nossa cultura.

Talvez por isso, por nos oferecer uma espécie de percurso resumido das origens de nossa sensibilidade artística, um dos méritos da exposição no British Museum esteja em nos projetar para além de tudo aquilo que exibe:  vemos as distintas Afrodites aqui representadas, as diferentes poses que o corpos todos assumem, e somos remetidos a tantos outros monumentos da história da arte acidental.  Como não reconhecer a maestria do escultor que fez do mármore um tecido junto ao corpo de uma deusa no Partenon nas esculturas do italiano Gian Lorenzo Bernini, vinte séculos depois?  Como contemplar o triunfo da arte sobre a rocha fria que é o gigantesco Dionísio reclinado, um desenho de Fídias para o Partenon, e não perceber seu eco em certas figuras de Henry Moore 2500 anos depois?  E, mesmo que não soubéssemos nada dessa história, simplesmente deixar nosso olhar ser atraído por todas essas formas que encarnaram nossos mais elevados ideais de beleza ao longo dos séculos, para, no fim, determo-nos diante do Torso de Belvedere – um fragmento de perfeição que ninguém menos que Michelangelo Buonarroti considerou insuperável – já seria uma viagem completa pela história da beleza.  Uma história que, por razões muito particulares e com todos os acidentes e acasos que hoje tão bem conhecemos, tornou-se uma história universal: é a história das formas, das cores e das energias criativas de todos quantos são capazes de com ela se relacionar.

 

Fonte:  Revista Veja/Eduardo Wolf