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Humanista em Defesa da Arte
Humanista em Defesa da Arte

BIGORNA CADENTE

 

Hoje, se eu, humanista, disser que defendo a arte, muitos entenderão que defendo pedofilia. Francisco Marshall.

 

Quem quiser conhecer mitologia grega, que comece lendo a Teogonia de Hesíodo, belamente traduzida por Jaa Torrano; nela, conta-se o surgimento do Kosmos, do Caos originário à dura era em que vivia e sofria o poeta. Hesíodo viveu no século VII a.C., e cantava como Homero, sobre um mundo repleto de deuses, heróis e feitos extraordinários, mitos de que gregos mais filosóficos logo começariam a duvidar. Hesíodo foi injustiçado por juízes corruptos e um irmão safado, o que o levou a denunciar a sociedade em crise. Uma de suas imagens mais assombrosas é quando descreve as distâncias cósmicas: “Nove noites e dias uma bigorna de bronze / cai do céu e só no décimo atinge a terra / e, caindo da terra, o Tártaro nevoento”. É com esta imagem que podemos sentir a dimensão da crise atual: nada de fundo do poço, é bigorna de bronze caindo rumo ao Tártaro.

 

A crise vai passar, não há dúvida, e o humanismo não vai morrer, tem muitos séculos e a força de Safo, Sófocles, Virgílio, Dante, Leonardo, Shakespeare, Mozart, Goethe, Freud, Machado, Borges, Saramago e muitos outros sábios, poetas, artistas, cientistas e bons leitores. A travessia atual, todavia, é muito dura, pois chegamos ao ponto em que as palavras deixaram de comunicar, e rompeu-se o pacto mais elementar de qualquer sociedade. Hoje, se eu, humanista, disser que defendo a Arte (e o farei sempre), muitos entenderão, antes de qualquer argumento, que defendo pedofilia. E que vivo de mamatas da Lei Rouanet, e me acusará de ser professor de universidade pública, como de fato sou, com enorme honra e orgulho. A trama que fez Arte passar a significar pedofilia é uma das mais vergonhosas da história da humanidade, sintoma de horrores maiores, em tudo similar à que assolou a Alemanha desde maio de 1933, quando se queimou livro em praça pública, prenunciando a catástrofe nazista e o terror da II Guerra, seus 80 milhões de mortos. Assim estamos hoje no Brasil, e a bigorna segue em queda.

 

Muitos jovens e profissionais de alta qualidade estão partindo, desacreditaram no país. Partem porque amam o Brasil, mas não este monstrengo que é hoje cevado com o sumo das piores ignorâncias. Os que ficam, movem-se em arquipélagos de civilidade, com escassas ilhas, mas veem a água fétida subir e ouvem crescer os ruídos da marcha de zumbis, e assombram-se por ver que quem hoje ataca a Arte e a civilização não são os deserdados da periferia, mas apaniguados com diploma e passaporte. Este país nunca teve elite, sabemos, mas apenas alguns pouco educados que jamais foram modelo ou meta, e agora viram lixo, em prol da sabedoria de um ator pornô,de meia dúzia de analfabetos, do ódio de um neurastênico armado, das mentiras de malignos poderosos. E segue a rota da bigorna.

 

Um dia olhares para esta era e diremos algo parecido com o que disse o papa em Auschwitz: como isto pode acontecer? Já teremos erguido a cabeça, mas saberemos o que ocorre quando a bigorna começa a cair. E saberemos que o que nos ergue é a leveza da pluma, a doçura e o brilho das cores, a poesia de pensamentos alados e o amor que se eleva dos mais singelos sorrisos.

 

               

 

Fonte: Zero Hora/Francisco Marshall/historiador, arqueólogo e professor da UFRGS (marshall@ufrgs.br) em 15/10;2017