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Iconofobia
Iconofobia

ICONOFOBIA

 

O que leva pessoas e comunidades a odiar, atacar e destruir imagens? A agressão iconofóbica é sinal de crise, pois a imagem costuma fascinar; sua produção tem servido como registro, espelho e experimentação de nossas condições no mundo desde mais de 40 mil anos AP, datação das pinturas da gruta de Chauvet (França); em Lascaux e em Altamira, 20 mil anos depois, reaparece a mesma linguagem, que hoje pode unir as retinas, o sonho e a mente de homens antigos e modernos. A humanidade evolui criando iconosferas, ambientes animados por imagens, formas da cultura com seus signos e símbolos, estéticas, sentidos, fantasias, desejos e assombros. O ataque às imagens da Arte é um ataque ao fundamento da humanidade.

 

O horror às imagens (iconofobia) pode levar à destruição de imagens (iconoclastia) em dois tipos de circunstâncias: rejeição cultural, por razões religiosas, morais, estéticas, psicológicas e educacionais (analfabetismo), e rejeição política, por ato de poder. No Egito antigo, destruíram-se imagens de Hatshepsut, a faraó mulher (1507-1548 a.C.); Os romanos instituíram a damnatio memoriae, em que se eliminava dos registros públicos personalidades condenadas, modelo para Stalin “limpar” fotos. A memória política incomoda. Já a iconofobia cultural advém predominantemente de noções do sagrado, como no judaísmo e no islamismo, que não aceitam que suas divindades sejam representadas em figuras; a reforma luterana, reagindo ao paganismo co m arte dos italianos, interditou imagens, e a contra-reforma respondeu censurando assuntos na Arte.

 

Em 2008, em Londres, o cartaz de uma exposição de Lucas Cranach (1472-1553) foi alvo iconofóbico de usuários religiosos do metrô, pois apresentava o mesmo detalhe que põe em surto os censores do Facebook: mamilos. Era uma de suas muitas Vênus, arrojada experiência de arte e sensualidade no apogeu do Renascimento (início do século XVI). Arte incomoda, sobretudo quando revela tabus que a cegueira cultural quer manter ocultos. Resolveu-se lá a situação, pois a Royal Academy of Arts não foi covarde como o banco aqui. O moralismo religioso preserva latente a iconofobia, pronta para agredir a Arte. Neste brejo, optou-se por dar créditos ao bloqueio simbólico e cultural que impede que se veja Arte como Arte, e imagem como imagem; eis nosso surto iconofóbico.

 

Na aurora do cristianismo, nos séculos IV e V d.C., houve muita agressão a imagens, pois o Mediterrâneo era um Museu a céu aberto das crenças pagãs, então combatidas com vigor. Destruiu-se muito. Em certo momento, porém, bispos esclarecidos em Milão e Roma tentaram conter a iconoclastia de seus crentes, dizendo: “São apenas imagens, não mora ali nenhuma deusa Vênus ou perigo teológico. É bela, preservemos”. É mais ou menos o que diz Fernando Baril para os coitados que não conseguem olhar para sua imagem pop, irônica, bonita, esclarecedora: não é Cristo, nem Shiva, é uma imagem. E com ela podemos pensar muita coisa, inclusive sobre a terrível doença cultural dos que temem ícones e agridem a Arte. E para este mal não há outro remédio, senão mais Arte, e mais imaginação.

 

Fonte: ZeroHora/Francisco Marshall/Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS (marshall@ufrgs.br) em 01/10/2017.