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Rodin, O Escultor Esculpido
Rodin, O Escultor Esculpido

RODIN, O ESCULTOR ESCULPIDO

 

Em 17 de novembro de 1917, em Meudon, França, morria Rodin, Como um francês toma contato com a obra do grande escultor?

 

Por Bertrand Ricard

Doutor em Sociologia, Universidade de Reims

 

Rodin em 2017, cem anos após sua morte. Vamos deixar de lado o homem ou, melhor, o ogro interpretado por seu duplo mimético Gerard Depardieu no belíssimo filme de Bruno Nuytten, “Camille Claudel”, uma das muitas vítimas do “bode sagrado”, como o qualificavam então os jornais sensacionalistas, para nos focarmos apenas na sua obra ou, ao menos, na emoção que ela provoca e que nunca deixará de produzir. Podemos estar certos disso!

 

Em Orsay, de repente, Rodin e sua PORTA DO INFERNO aparecem diante de você como uma evidência enganosa que quebra a doce tranquilidade das salas impressionistas: hinos à beleza da natureza e celebrações da vida, frágeis e efêmeras. O indiscutível impressionismo de Rodin – o artista não pode escapar completamente de seu tempo, no sentido de que o escultor nunca pode voltar atrás depois que o mármore é quebrado – não é da mesma natureza daquele do qual surgem as Nymphéas de Monet. A impressão que Rodin deixa no espectador é imediatamente a de roçar a eternidade, de condensá-la em uma única obra.

 

O indiscutível humanismo de sua arte reside na apresentação de uma condição humana crua e selvagem, sem compromisso, total. Quando os seres se amam, como em O BEIJO, eles o preenchem com toda a humanidade. Corpo e almas entrelaçados inextricavelmente e talvez permanentemente até o próximo beijo ou relacionamento físico. A arte de Rodin é um oxímoro que expressa a eternidade vivida de um momento às vezes muito curto mas que, como em Proust, ressoará em você indelevelmente e você encontrará esse tempo que se acreditava irremediavelmente perdido. Rodin nunca faz as coisas pela metade: em casa, o homem que ama é um entusiasta, aquele que sofre, um mártir com todos os estigmas da extrema dor que os homens e a vida como um todo podem infligir. Rodin é um “monstro” no sentido próprio dessa palavra. Ele se atreve a mostrar o que os outros escondem. Os rastros que ele voluntariamente deixa na argila estão aí para testemunhar. Não se esconde atrás de pretensões morais ou de convenções estéticas acadêmicas. Não se deixe enganar pelos discursos dos catálogos: Rodin não é moderno.

 

Ele é o primeiro artista pós-moderno na sociedade francesa do final do século 19 burguesa e hipócrita. Por sua contínua presença na obra que realiza, está constantemente nos mostrando sua “pegada” como se nos dissesse com essa mão que é um Rodin que temos diante de nós. Mostra antes de qualquer outro artista da época a condição de uma arte em que o autor também é quase tão importante quanto a própria obra, às vezes, até o ponto de saturação. Ele será copiado, imitado e nunca se cansará de usar o seu ateliê para executar as encomendas que se acumulam. Rodin conhece sua grandeza e não pode deixar de brincar com prazer e duplicidade, outro sinal claro de seu pós-modernismo e não de sua “suposta modernidade”.

 

Rodin se atreve a reverter os cânones da época, tão rápido para esconder o que não pode ver, para revelar seres de carne e osso, seres, acima de tudo, encarnados. Mas o corpo de Rodin não é o de David de Michelangelo, escultural e atemporal. Para ele, é, acima de tudo, o lugar onde nossa humanidade está aninhada: o cinturão de transmissão de nossas emoções, simbolizado pelo “pensador”. Em uma única estátua, Rodin ilustra maravilhosamente o que a sociologia interacionista nos revelará mais tarde, como se fosse uma grande revelação: o homem é um ser total que também pensa com seu corpo. Arte mais intuitiva do que puramente intelectual, a obra global de Rodin constantemente nos lembra que é inútil querer separar o corpo e a mente. Que toda ação humana nos envolve em nossa totalidade física e mental, mesmo que seja apenas por um breve momento. Rodin, porque ele é um “milagre artístico” por si só, ainda hoje nos interroga. Seu trabalho continua desafiando o sociólogo da vida cotidiana em seu questionamento sobre nossa relação com a arte e a estética em geral.

 

 

A arte de Rodin cruza o tempo, ele está sempre no presente, seu trabalho fala em todas as culturas, todas as eras e fronteiras e continua inegavelmente (todas as pesquisas realizadas na França o mostram) incessantemente provocando esse “choque artístico” tão querido por André Malraux, que nele se baseou para construir sua política cultural francesa durante anos. Á semelhança do “Balzac” de magnífica “presença”, Rodin não pode deixar de ser uma ilusão? A de fazer-nos crer que o acesso à arte se faz sem explicações, que acontece sem querer exigir análises/ Que a força da arte com “A” maiúsculo é tal que ela dispensa qualquer forma de mediação e pode ser apreciada mesmo por quem não domina os códigos culturais susceptíveis de torná-la compreensível? No momento em que as desigualdades culturais cristalizam os debates no mundo, o caso de Rodin merece ser estudado “no vazio das aparências”, sem preconceitos ou ideologias, pois exemplifica por si só a realidade de uma polêmica que continua intrigar-nos. É nessa “revelação artística” que encontramos a maior força de sua obra!

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=3Aio5ElhT_M

 

Fonte: Correio do Povo/caderno de Sábado em 23/12/2017