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A Poesia em Florbela Espanca por João Bernardino
A Poesia em Florbela Espanca por João Bernardino

 


 A POESIA EM FLORBELA ESPANCA

Por João Bernardino 

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894 e faleceu em Matosinhos a 8 de Dezembro de 1930). A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade.

Escreveu poesia, contos, um diário e epístolas; traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa índole. A prosa de Florbela exprime-se através do conto (em que domina a figura do irmão da poetisa), de um diário, que antecede a sua morte, e em cartas várias. Todavia,  Florbela Espanca era, antes de tudo, poetisa. É à sua poesia, quase sempre em forma de soneto e quase sempre sobre a temática amorosa, que ela deve a fama e o reconhecimento. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: a solidão, a tristeza, a saudade, a sedução, o desejo e a morte. A sua obra abrange também poemas de sentido patriótico, inclusive alguns em que é visível o seu patriotismo local: o soneto "No meu Alentejo" é uma glorificação da terra natal da autora.

Florbela Espanca foi uma das mais notáveis personalidades líricas isoladas, pela intensidade de um emotivo erotismo feminino, sem precedentes entre nós [portugueses], com tonalidades ora egoístas ora de uma sublimada abnegação, ora de uma expansão de amor intenso e instável. A sua obra precede de longe e estimula um mais recente movimento de emancipação literária da mulher, exprimindo nos seus acentos mais patéticos a imensa frustração feminina das opressivas tradições patriarcais. Na sua escrita há um certo número de palavras em que insiste incessantemente. Antes de mais, o «EU», presente em quase todas as peças poéticas. Existem ainda e largamente repetidos, vários vocábulos reflexos da paixão: alma, amor, saudade, beijos, versos, poeta, e vários outros, e os que deles derivam. Os escritos de âmbito para além dos que caracterizam essa paixão não são abundantes, particularmente na obra poética, salvo no que se refere ao seu Alentejo. Na realidade, ela não se coloca como observadora distante, mesmo quando tal parece, exterior a factos, ideias, acontecimentos. Inclusivé, a sua exaltação do amor fraternal é considerada fora do comum, uma constante.

A sua primeira obra foi publicada quando ainda estudava na faculdade, “Livro de Mágoas” (1919). Fez contactos com poetas em Lisboa e chegou a colaborar no jornal Portugal Feminino e actuar como jornalista na publicação Modas & Bordados e na Voz Pública, um jornal de Évora. Publicou um livro de sonetos, o “Livro de Sóror Saudade“ (1923). Os outros livros foram publicados quando a poetisa já tinha morrido: ”Charneca em Flor “(1931), “Juvenília” (1931) e “Reliquiae” (1934). Também escreveu contos, com destaque para “O Dominó Preto” (1983), epístolas como “Cartas de Florbela Espanca” (1949) e diversas traduções. Mas era acima de tudo uma poetisa, mestra na escrita de sonetos.

A poesia de Florbela Espanca é caracterizada por um forte teor confessional. A poetisa não se sentia atraída por causas sociais, preferindo exprimir nos seus poemas, os acontecimentos que diziam respeito à sua condição sentimental. Não fez parte de nenhum movimento literário, embora o seu estilo lembrasse muito os poetas do romantismo. Para a escritora portuguesa, nunca importou se a mulher era vista com inferioridade pela sociedade machista. Se para a maior parte delas cabia apenas concluir a escola primária, Florbela aspirava por mais. Em 1908, aos 11 anos, foi uma das primeiras a ingressar no curso secundário do Liceu de Évora, cidade alentejana para onde seus pais se mudaram a fim de facilitar os estudos da filha.

Mais tarde, de matrimónio estabelecido, não é surpresa que Florbela não fosse a esposa subserviente. Dona de um temperamento forte, só fazia o que lhe agradava, principalmente escrever. Era incapaz de viver submissa a um homem, por mais que o amasse. Não aceitava que o amor fosse o confinamento da mulher. E, mesmo casada, sempre lutou para publicar seus versos, actividade condenada pelos seus maridos. Mas amar era justamente o motor propulsor da escritora. Seja o que demonstrou nos versos, no esforço para publicar o primeiro título, “Livro de Mágoas”, em 1919, seja o carnal propriamente dito. O certo é que as maiores transformações de sua vida vieram à tona a partir dos 23 anos.

É dela a melhor definição de quem foi e ainda existe: “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”           

Florbela Espanca causou grande impressão entre seus pares e entre literatos e público do seu tempo e de tempos posteriores. Além da influência que os seus versos tiveram nos versos de tantos outros poetas, são aferidas também algumas homenagens prestadas por outros eminentes poetas à pessoa humana e lírica da poetisa. Manuel da Fonseca, em seu "Para um poema a Florbela" de 1941, cantava "(…)«E Florbela, de negro,/ esguia como quem era,/ seus longos braços abria/ esbanjando braçados cheios/ da grande vida que tinha!»". Também Fernando Pessoa, num poema datilografado e não datado de nome "À memória de Florbela Espanca", descreve-a como "«alma sonhadora/ Irmã gémea da minha!»".

Já em Matosinhos, Florbela revê as provas do seu livro, depois da segunda tentativa de suicídio, em Outubro ou Novembro, período em que a neurose se torna insuportável e lhe é diagnosticado um edema pulmonar. Florbela Espanca trancou-se no quarto. Já passava das 2 da manhã. Que presente poderia querer ela naquele dia 8 de Dezembro de 1930, no dia de seu aniversário e do primeiro casamento, com apenas 36 anos? Ninguém sabe. O certo é que Florbela suicida-se com dois frascos de Veronal. Ao marido, Mário Lage, deixou a recomendação de que não fosse incomodada até a manhã seguinte. E de facto nenhuma pessoa o fez, nunca mais. Naquela madrugada, deitada na cama, sem “haver gestos novos nem palavras novas” – como dias antes escrevera pela última vez no que havia intitulado de Diário do Último Ano –, a poeta portuguesa acabara de colcoar termo à vida.

Desde então, ela é alvo de extensos estudos e biografias. A fama de transgressora, por ter desafiado os preceitos da sociedade – casou-se três vezes e frequentava a boémia, fumando e bebendo, por exemplo – transformou-se nas nomenclaturas precursora e feminista. E, se o reconhecimento, justamente por ser mulher, foi inferior ao que tiveram seus contemporâneos Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, hoje ocupa imenso destaque nos círculos literários. Facto é que são tantos os vieses que a história da escritora propõe que, no mês em que se completam 84 anos de sua morte, um olhar mais amplo sobre sua figura ainda é essencial.

 

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente! 
Amar só por amar: Aqui... além... 
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... 
Amar! Amar! E não amar ninguém! 

Recordar? Esquecer? Indiferente!... 
Prender ou desprender? É mal? É bem? 
Quem disser que se pode amar alguém 
Durante a vida inteira é porque mente! 

Há uma Primavera em cada vida: 
É preciso cantá-la assim florida, 
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! 

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada 
Que seja a minha noite uma alvorada, 
Que me saiba perder... pra me encontrar... 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"