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Poesia Popular Portuguesa por João Bernardino
Poesia Popular Portuguesa por João Bernardino

 

POESIA POPULAR PORTUGUESA

por João Bernardino 

Gostaria de dedicar um curto espaço à Poesia Popular Portuguesa que, muitas vezes, não sei se concordarão comigo, tem sido vista um pouco como a parente pobre da dita Poesia.

A poesia portuguesa tem raízes bem antigas, ainda antes da afirmação da nacionalidade, e esteve quase sempre presente durante toda a história literária e cultural de Portugal, tendo representado diversos movimentos artísticos populares pelos quais o povo atravessou.

Com a Reconquista Cristã e a fundação da nacionalidade, inicia-se a época da poesia galaico-portuguesa. Admite-se que a mais antiga poesia em português é de 1189 e teve como autor Paio Soares de Taveiros. O seu estilo é de cantiga e fala de uma queixa ingénua de um grande amor.

Quanto às cantigas de amigo, as cantigas de amor e as cantigas de escárnio e maldizer, foram compiladas em antologias da época, manuscritas, a que se deu o nome de Cancioneiros, aos quais posso referenciar como os mais importantes o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Apenas a título de curiosidade, os trovadores e jograis cultivaram ainda outros géneros poéticos, como as tenções, as cantigas de seguir, as cantigas de vilão, as pastorelas, os prantos, os descordos, os lais. Como se vê, por vezes escrevemos poesia e desconhecemos os estilos que nos trouxeram até à poesia popular. 

Existe uma época da história da poesia portuguesa no seu global que é considerada como uma idade de ouro, que compreende um período afonsino, com os reinados de Afonso X de Castela e de Afonso III de Portugal, seguindo-se depois um período dionisíaco, com o reinado de D. Dinis onde as cantigas encerram um período de florescimento poético.

A poesia galego-portuguesa passa, então, por um período de decadência, desde fins do século XIV e ao longo do século XV. A par desta poesia lírica, outros os jograis divulgavam as gestas, poemas de cariz épico, muitas vezes utilizadas como fontes de informação para os cronistas da época.

Mais tarde, o início do Renascimento em Portugal é marcado por Gil Vicente e Francisco de Sá de Miranda. Porém, é Luís Vaz de Camões o vulto maior da poesia portuguesa.  Não se deve esquecer a sua poesia lírica em Os Lusíadas, a todos os níveis incomparável, reunida nas Rimas, postumamente, em 1595. É com Luís de Camões que se faz, também, a nível de estilo e conteúdo, passagem para o Maneirismo, de uma poesia melancólica e de profundo questionamento existencial que já se verifica em Camões (onde a temática do exílio, na sua lírica, e a crítica aos aspectos menos heróicos de Portugal já faz entrever).

Depois viria a Época do Barroco com os poetas portugueses da altura, sem o mesmo brilho dos mestres espanhóis, e, mais tarde, como reacção ao Barroco, surge o Neoclassicismo, inspirado nos modelos gregos e latinos na segunda metade do século XVII.

E é então que a partir de 1815, com o Romantismo, que em Portugal surge o culto pelo folclore e, portanto, pelas composições poéticas populares de tradição oral, amorosamente trazidas a público pela mão do «divino» Almeida Garrett, a quem devemos a publicação da primeira colectânea do Romanceiro popular português. De real interesse é recordar que, desde a infância, bailavam na mente e no coração do poeta os versos desses velhos romances, de mistura com lendas, histórias e tradições várias. Esse amor formou-se no carinho que, em criança, lhe foi dado pelo convívio com duas mulheres do povo, suas criadas na quinta do Castelo e na do Sardão. A Almeida Garrett, que tão bem sentiu e compreendeu o valor do «Grande livro nacional que é o povo e as suas tradições» pertence a glória de ter sido o primeiro a atentar nos tesouros do folclore português em geral e em especial do Romanceiro, que publicou em 1843 e 1851.

Relativamente à poesia popular portuguesa coube a Teófilo Braga ter sido o entusiástico e infatigável pioneiro do seu estudo e recolha, elevando a poesia popular portuguesa a um patamar nunca antes visto e que ainda hoje conserva fortes raízes.

Teófilo Braga debruça-se cada vez mais sobre a poesia popular tradicional, considerada o reportório poético da essência da nacionalidade e da humanidade. “Eis o que é a poesia do povo: a natureza no momento mais expansivo da sua verdade, a inspiração no voo mais livre e inconsciente. É ele que nos faz estender a mão para sentir as pulsações latentes do coração da humanidade. Faz escutar as harmonias do mundo através desta harpa animada, em que ressoam todas as alegrias e tristezas do poema da vida”.

Afinal, quem de nós nunca escreveu poemas populares cheios de ironia e crítica social? Quem é o poeta que nunca escreveu usando a métrica mais comum na língua portuguesa (heptassílabos, em pequenas composições de quatro versos, conhecidas como "quadras" ou "trovas")? E quantos de nós estamos disponíveis hoje para declamarmos poemas populares e contribuir para que nunca a poesia popular tenha uma perda irreparável no nosso património cultural e língua portuguesa?