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Os museus em Portugal por Adelina Antunes
Os museus em Portugal por Adelina Antunes

Museu Nacional dos Cochos

 

 

Por: Adelina Antunes

 

A tendência para juntar, ou colecionar, objetos existe desde os primórdios da antiguidade a par do poder político, económico e social. O gosto pelo belo, pelo invulgar e pelo exótico levaram a que monarcas, papas e membros da burguesia formassem coleções destinadas ao seu bel-prazer, à sua instrução e a serem exibidas em bibliotecas, salões e gabinetes de curiosidades.

D. Afonso, 1º Duque de Bragança (1377-1461), com a sua “Casa de Couzas raras” que conseguiu nas suas viagens fora do reino, ou seu filho D. Afonso – 1º Marquês de Valença (?-1460), que se dedicou a adquirir objetos de arte e arqueológicos na sua visita à Alemanha, na companhia de D. Leonor (filha do rei D. Duarte) e futura esposa do Imperador Frederico III, ou ainda André de Resende (c.1500-1573) com a sua coleção de cipós, lápides com inscrições romanas, árabes e hebraicas, são exemplos do que poderá ser designado como os primórdios do colecionismo em Portugal.

As caraterísticas das coleções eram bastante diversificadas e se como vimos predominavam as coisas raras, os objetos de arte e arqueológicos ou lápides com inscrições antigas, outras havia como a do padre Severim de Faria (1852?-1655) que reuniu um tesouro de moedas romanas e portuguesas e um conjunto de relíquias romanas que lhe permitiram formar um museu digno de um príncipe (ROQUE, 2010).

O Renascimento trás ao homem uma visão mais humanitária, naturalista e de preservação da obra antiga. O homem torna-se o centro de todas as atenções e objeto de estudo numa visão antropocêntrica. A coleção de arte abandona o cariz religioso que até então detinha adquirindo uma vertente pagã e, por vezes, de cariz político. A redescoberta da filosofia e das ciências da antiguidade, novos conhecimentos sobre anatomia, fisiologia e geometria aliados às riquezas conseguidas com a expansão marítima, levam ao aparecimento de novos colecionadores (a nova burguesia que possui desejos de ascensão social e política) e a novas formas de colecionismo. São descobertos novos povos, nova fauna e nova flora, adquirem-se novas riquezas, aumenta a curiosidade e o desejo de saber, de conhecer e de possuir espécimes exóticos como podemos testemunhar na carta de Pero Vaz de Caminha, dirigida a D. Manuel em 01 de Maio de 1500 a propósito da descoberta do Brasil  “…E huu deles lhe deu huu sombreiro de penas daus compridas com huua copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de pagayo (…) outras cousinhas de pouco ualor que leuauam papagayos vermelhos mujto grandes e fremosos… ”.

Neste contexto museológico (poder-se-á já nesta altura considerar a existência de museus?) Marques de Pombal através dos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772, ao dizer que “…muitas pessoas particulares por gosto, e curiosidade têm ajuntado muitas collecções deste género, que fechadas nos seus Gabinetes privados não produzem utilidade alguma na Instrução Pública…” (ROQUE, 2010) vem estabelecer o museu e definir os seus parâmetros de atuação. Surgem deste modo o Museu de História Natural para instrução da mocidade, o Jardim Botânico que deveria mostrar plantas vivas e o Gabinete de Física Experimental, para as lições de física que deveria comportar uma coleção de máquinas, aparelhos e instrumentos, necessários para as lições de física.

Marquês de Pombal vê o museu como um espaço conjunto onde o dualismo educação/instrução, belo/agradável, útil/necessário são possíveis e exequíveis. A constituição do acervo do Museu de História Natural para o que foram organizadas expedições científicas a Moçambique, Cabo Verde, Angola e Brasil (Amazónia), em finais do século XIII, nesta última com recurso a desenhadores e um jardineiro botânico, a fim de se conseguirem produtos naturais e exóticos, comprovam todo o empenho e dedicação aplicados nestas tarefas.

Por aviso de 25 de janeiro de 1777 procede Marquês de Pombal à criação de uma coleção de numismática na Casa da Moeda na qual deveriam ser incluidas  “… uma moeda de cada cunho e qualidade de metal, (...) não só deste reino mas geralmente de todas as partes do Mundo. E semelhantemente uma medalha também de todas as qualidades de metaes, que for possível alcançar-se assim antigas, como modernas…”

Poderia o museu em Portugal ter a evolução que teve sem a ação de Marquês de Pombal? Teriam as coleções abandonado os salões os gabinetes de curiosidades ou as galerias particulares, sem a sua intervenção? Sem pretender responder a essa questão poderá sempre concluir-se que a sua ação foi fundamental.

Os museus especializam-se, surgem novos com novas e variadas coleções. Do amontoado de curiosidades dos antigos gabinetes evoluiu-se para o museu, em que a peça deixa de ter sentido por si só, passando a fazer parte de uma coleção que se completa e complementa fazendo sentido não pela unidade mas pelo todo. Surge o museu como um lugar onde se reúnem curiosidades de qualquer espécie ou exemplares científicos, artísticos, etc., destinado ao estudo das ciências e das artes.

As alterações não só no conceito em si, mas também no modo como guardam e divulgam o seu acervo vão sendo cada vez maiores e mais visíveis. Independentemente das situações, mais ou menos precárias, melhor ou menor autonomia financeira a que vêm sendo sujeitos, os museus têm conseguido encontrar mecanismos de resposta, mantendo-se a par das novas especificidades tecnológicas e ideológicas das épocas por que passam contribuindo dessa forma para a consolidação do conceito “museu”.

João Couto na sua obra As Exposições de Arte e a Museologia escrita em 1950 e citado por Celina Bastos e Conceição Borges de Sousa em Museografias, 2008, enuncia uma série de regras que, primando pelo futurismo, se mantêm perfeitamente atuais nos dias de hoje. Ou seja estabelecem um paralelo perfeito entre o que enunciou e o que se faz, em termos de museologia, nos dias que correm. O museu atual deixou de ser um local onde se guardam objetos adquiridos por gosto ou pelo valor que detêm, onde desfilavam alguns estudiosos ou curiosos, para passar a ser um centro cultural vivo, um local que pretende transmitir bom gosto e saber, que visa facultar acesso regular e fomentar a cultura com conteúdos programáticos, cooperando com estudantes de diversos níveis de ensino e que é organizado de acordo com objetivos pré-definidos visando, tal como preconiza a UNESCO, estabelecer um elo de ligação entre a teoria e a prática.

As exposições (permanentes e de longa duração, temporárias ou itinerantes) são organizadas segundo um programa estudado, orientado para o observador e que o guia por um percurso a percorrer, orientando-o no modo como serão visionadas as peças e facultando-lhe o conhecimento definido no programa desenvolvido.

Para que tal aconteça é necessário que museólogo, historiador e arquiteto definam espaços e percursos conformes à programação pretendida. As peças deverão ser expostas em expositores adaptado às suas caraterísticas, obedecendo a uma lógica estética e mantendo as distâncias apropriadas ao objeto que expõe. As legendas devem ser descritivas e bem iluminadas. As peças por seu lado devem usufruir de uma iluminação que respeite a densidade luminosa[1] indicada para cada objeto. A temperatura, a humidade e os agentes poluentes devem ser considerados e minimizados de forma a salvaguardar as peças expostas.

Os museus atuais refletem novos conceitos e realidades que envolvem o visitante. Com espaços estruturados de modo a que aí se possa permanecer, estudar as peças expostas e embrenhar-se na atmosfera e na dinâmica da exposição são, de facto, um veículo de informação, de cultura e de conhecimento que o transportam para novas realidades e conceitos que nos seus primórdios não eram possíveis.

Exemplos da atual museologia e do modo como é oferecido o conhecimento das coleções e de todo o saber a elas associado podem ser encontrados em diversos museus nacionais que, aliada à visita local, proporcionam visitas virtuais onde é possível, na comodidade do lar, percorrer as suas salas, coleções e adquirir o conhecimento que estas oferecem. Exemplo disso é o Museu Calouste Gulbenkian que oferece ao seu visitante uma coleção estruturada, que orienta o visitante pelas teias do conhecimento e lhe permite usufruir de um espaço no qual pode permanecer, a seu bel prazer, enquanto aprecia e estuda as coleções apresentadas.

O museu é hoje um espaço didático e cultural, dinâmico e abrangente, onde os elementos essenciais e de configuração técnica e teórica oferecem às partes integrantes da exposição uma identidade própria e contextualizada, integrada num projeto que visa proporcionar ao público um espaço agradável, confortável, informativo e educativo e em que este sente, não só que está a ver uma exposição, mas que faz parte integrante do espaço e da envolvência que lhe é oferecida.

 

 

Bibliografia:

 

RAMOS, Paulo Oliveira, "Breve História do Museu em Portugal", in Maria Beatriz ROCHA-TRINDADE, Iniciação à Museologia, Lisboa, UAb, 1993, pp. 21-62

 

ROQUE, Maria Isabel, "Museologia oitocentista do património religioso em Portugal", idearte - Revista de Teorias e Ciências da Arte, nº 6, 2010.

 

TRINDADE, Maria Beatriz Rocha (1993), Iniciação à Museologia, Lisboa: Universidade Aberta.

 

 

Webgrafia:

COMISSÃO NACIONAL DA UNESCO – PORTUGAL (2011), A UNESCO [em Linha] Lisboa: UNESCO.

[Consult. 16 Mai. 2011] Disponível em: < http://www.unesco.pt/cgi-bin/unesco/unesco.php>.

INSTITUTO DOS MUSEUS E DA CONSERVAÇÃO (2011), Museus e Palácios [em Linha] Lisboa: IMC.

[Consult. 17 Mai. 2011].

Disponível em < http://www.ipmuseus.pt/pt-PT/museus_palacios/ContentDetail.aspx?id=1125 >.

 



[1] Para assegurar a integridade física de cada peça esta necessita de uma intensidade luz própria (de 50 lux a 150 lux).