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A Poesia em Amália Rodrigues por João Bernardino
A Poesia em Amália Rodrigues por João Bernardino

 

A POESIA EM AMÁLIA RODRIGUES

Por João Bernardino

Já li bastantes poemas dos mais variados autores, e sempre me perguntei qual deles seria o melhor. É uma pergunta difícil dado que eram todos excelentes, mas finalmente consegui descobri um pelo qual me apaixonei e que, na verdade, não é um poeta mas uma poetisa: AMÁLIA RODRIGUES! Essa mesma que estão a pensar: a fadista Amália Rodrigues.

Há muito que li a obra completa de Pessoa, Bocage, José Régio, Natália Correia, Cesário Verde, vários de Florbela Espanca, e muitos outros "soltos", e são todos geniais, mas a Amália consegue ser das mais geniais que li até hoje. Afirmo tudo isto com intensa propriedade talvez devido à força dos seus poemas, o seu significado, a sua entrega, a sua maneira de ver a vida, a sua dor e sofrimento, enfim TUDO nela é simplesmente de arrepiar quando se lê os seus versos e poemas. Claro que já nem falo na sua música, que essa já é mais que sabido o quão boa e linda que era, reconhecida literalmente em todo o mundo, fazendo sucesso por onde quer que passasse, desde a Ásia, à América, a África e Europa.

O meu intuito poder aqui falar neste espaço da poesia que Amália tanto amava, dos versos que ela própria escreveu, das maravilhas que Amália cantou e, sobretudo, quanto a mim o que mais me interessa, da sua humanidade ao tirar os poetas das gavetas... Porque Amália foi a maior cantora portuguesa do século XX, porque levou e elevou Portugal ao mundo, divulgando a canção mais genuínamente portuguesa que se chama FADO mas também aquela que ajudou imenso na divulgação da nossa poesia, a poesia de grandes poetas como José Régio, por exemplo.

Amália Rodrigues, uma mulher do povo, revolucionou a temática do “corpus" fadista de então, direccionada desde a implantação do Estado Novo para cantar a tristeza nacional repleta de um fatalismo doentio. Dos seus encontros com grandes poetas da Literatura portuguesa, nasceu um movimento de ruptura no Fado, tornando-o no grande divulgador do lirismo português. Amália possuía um bom gosto, uma intuição e uma enorme sensibilidade que influíram nas suas escolhas, optando por letras que, através dos seus temas, do ritmo e da oralidade melhor se adaptaram à sua voz e ao fado. Cantou o que sentia numa coerência total entre a vida e a obra e fê-lo de uma forma natural e despretensiosa, como só o conseguem as grandes intérpretes, aquelas, como Piaf ou Greco, que cantam com o corpo inteiro e possuem a música no coração e na voz. Assim, a sua voz foi o veículo de difusão e popularização da nossa cultura literária, em Portugal e no mundo e isso, estimados ouvintes, teremos de ser humildes em reconhecer e bater-lhe palmas. Porque este país precisa é menos de criticas baratas e de refúgios de pessoas que pensam mas nada dizem ou fazem e precisa essencialmente de quem bata palmas a quem pratica o bem e divulga a nossa arte, a nossa cultura, a nossa literatura, talvez por isso, pedindo desculpas se possa manifestar alguma espécie pretensiosismo que não existirá na verdade, creio poder ser um especial porta voz de todos os leitores das Literárias Mosqueteiras porque, embora numa escala mais pequena que a praticada por Amália Rodrigues, é verdade, também os escritores aqui representados nesta belíssima página difundem a poesia portuguesa por todo o mundo e engrandecem a literatura portuguesa como muito poucos sites e páginas de Facebook o fazem infelizmente, de forma a que os grandes poetas já falecidos possam estar em paz sentindo que as suas obras permanecerão para sempre vivas nas nossas memórias e os que continuam a escrever possam perpetuar a poesia e a suas obras para sempre.

Como é óbvio, este pequeno apontamento não estaria completo sem que deixasse aqui um dos poemas de Amália, mas o problema nos seus poemas é exactamente esse: o de escolher apenas um ou dois entre tantos textos belíssimos. A título de exemplo, deixarei com muita honra um dos seus melhores poemas de sempre quanto a mim (e realço o quanto a mim para não ferir susceptibilidades), talvez por ser dos que mais me tocou e o achar extremamente bonito. Talvez nos fascine tanto os seus poemas por também ela se preocupar com o sofrimento, sempre todo ele tão sentido e profundo que quis revelar e deixar nas suas palavras. Talvez seja por me identificar tanto com ela que a considero, a meu simples ver, uma poetisa divinal, mas como já sabemos, como disse um heterónimo de Fernando Pessoa "Vejo o mundo como sou e não como ele é". Quem a quiser conhecer melhor, e acho que toda a gente devia ler pelo menos uma vez os seus poemas, recomendo o seu livro, que se intitula "Versos Amália Rodrigues".Assim, se me permitem, gostaria de vos deixar em baixo um lindo poema de Amália Rodrigues, prestando então a minha sentida homenagem a esta extraordinária e enorme fadista e também ela poetisa, que infelizmente já não se encontra no meio de nós há precisamente 15 anos, mas que com toda a certeza nunca nos deixará pela grandiosidade da sua voz e obra poética.

 

 

 

Estranha forma de vida  (http://www.youtube.com/watch?v=uFgctURyGp4 )

 

Foi por vontade de Deus

que eu vivo nesta ansiedade.

Que todos os ais são meus,

Que é toda a minha saudade.

Foi por vontade de Deus.

 

Que estranha forma de vida

tem este meu coração:

vive de forma perdida;

Quem lhe daria o condão?

Que estranha forma de vida.

 

Coração independente,

coração que não comando:

vive perdido entre a gente,

teimosamente sangrando,

coração independente.

 

Eu não te acompanho mais:

para, deixa de bater.

Se não sabes onde vais,

porque teimas em correr,

eu não te acompanho mais.