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A Literatura Portuguesa Actual por João Bernardino
A Literatura Portuguesa Actual por João Bernardino

A Literatura Portuguesa actual                             

por João Bernardino

Foi precisamente a partir do século XII, com os cancioneiros populares trovadorescos, que Portugal,  o berço da nossa língua e cultura, nos presenteou ao longo dos tempos, com grandes artistas das letras. Todos eles donos de uma literatura rica e sem par, os escritores portugueses tornaram a literatura, entre os falantes de línguas latinas, num marco único e singular. Claro que estou a referir-me em maior dimensão a escritores enormes como Camões, Eça de Queiroz, Teófilo Braga, Bocage, Almada Garret, Alexandre Herculano, Fernando Pessoa e José Saramago que colocaram a literatura portuguesa num patamar elevado.

Mas não é só do passado que vive a Literatura Portuguesa. Embora menos produtivo e menos divulgado, o Séc. XX e início do Séc. XXI tem também os seus ícones. E se, infelizmente escritores e obras impressionantes foram sucumbidas ao regime ditatorial de Salazar, que além de afundar Portugal numa crise económica e social gravíssima, levando a nossa cultura a um espaço demasiado regional, o certo é que mesmo assim os escritores portugueses fizeram um enorme esforço para preservar e renovar a nossa literatura.

Neste aspecto, creio que só houve uma autêntica renovação dois ou três anos após a Revolução de Abril de 1974 em Portugal, e creio que se pode afirmar que o Séc. XX literário português começou nesse preciso momento. O mais importante (e que gostaria de assinalar) consistiu numa verdadeira reconciliação entre o público e os escritores. O que quero dizer com isto? É que anteriormente, devido à censura, fazia-se uma literatura que poderei dizer de “alusiva”. Depois de 1974 tudo mudou, pelo menos para os escritores porque tiveram o mérito e sobretudo a sorte (porque é também uma questão de sorte) de passarem a ser traduzidos e lidos no estrangeiro, quer nos países de expressão de língua portuguesa quer sobretudo por toda a Europa. E isso ajudou na divulgação da nossa literatura por este mundo fora, mostrando a nossa forte capacidade de escrevermos excelentes textos.

Posso dizer que se instaurou após essa data um novo estado de espírito nos escritores em Portugal. Não há um “movimento literário” do tipo dos movimentos que juntaram alguns escritores antigamente – estou a recordar-me do Orfeu Presença, ou o Neo-Realismo por exemplo. Como dizia, não há um movimento literário (pelo menos que eu conheça) mas estamos profundamente diferentes e é essa diversidade que faz a riqueza da nossa literatura. E é por isso tudo que tenho a boa sensação de que se está a criar uma onda de solidariedade entre os escritores, uma espécie de sentimento da classe de ESCRITOR parecido ao que existe já no Brasil. Hoje, em Portugal, os escritores ajudam-se mutuamente e com uma maior frequência. E isso era impensável há não muito tempo. É verdade, não estou a exagerar. È que hoje, todos nós queremos que leiam os nossos trabalhos e sentimos que ninguém tira o público a ninguém. Organizam-se conferências colectivas, sessões em comum com os leitores, tertúlias onde se declama poesia e se constata uma grande adesão do público. É um fenómeno que não é novo mas que se está uma vez mais a redescobrir em Portugal, que contribui, e bem, para desmistificar o escritor e, porque não dizê-lo, os próprios leitores. Começa-se, quanto a mim, a atingir de novo a qualidade exigida desde sempre na nossa literatura, nos nossos escritores e poetas, através de muita, mas muita arte e dedicação. E toda a Literatura passa a ser assim mais dinâmica nos dias de hoje, a ponto dos escritores surgirem como cogumelos neste país a beira-mar plantado, o que é de louvar, obviamente, mesmo passando pela triste travessia económica, social e cultural em que Portugal está mergulhado há alguns anos a esta parte.

Mais a mais passou-se a dar igual importância ao estado da literatura em cada um dos países mas com uma preocupação crescente sobre o que se passa noutros países. Será que a literatura brasileira é melhor que a de Portugal? Ou a de Portugal é superior à do Brasil? Será que a literatura francesa é superior à nossa? Ou que a Literatura portuguesa nunca chegará aos calcanhares da literatura Rússia? São sempre perguntas que se colocam porque sempre se fizeram ao longos dos últimos séculos. O certo é que em Portugal, tal como no Brasil, há um problema sério porque não se publicam autores nacionais apesar da existência de muitos bons textos. Por exemplo, o escritor Richard Zimler (apesar de não ser português mas vive cá há imensos anos), o seu livro O Último Cabalista de Lisboa foi recusado por 24 editoras norte-americanas e hoje é lido em 12 países, porque uma editora portuguesa decidiu apostar nele. Se temos excelentes escritores para serem descobertos porque é que as editoras preferem as traduções dos autores de renome ou os chamados clássico? Porque obviamente dão dinheiro certo em caixa e em tempo recorde. Portanto, ninguém se arrisca a lançar um livro de autor jovem ou menos jovem mas que seja desconhecido. Apenas para se ter uma ideia, no Brasil mais de  70.000 manuscritos são recusados pelas editoras por ano. Será possivel que em tantos trabalhos não exista uma boa centena ou mesmo um milhar de excelentes romances ou muito bons livros de poesia? Por mim, respondo que obviamente que CLARO QUE EXISTEM! Enquanto perdurarmos neste pensamento empresarial (e que me desculpem as Editoras, mesmo entendendo o seu lado accionista de não pretenderem perder dinheiro), o certo é que assim os novos escritores não conseguirão vingar nunca. E é exactamente em páginas de Facebook, em conversas em rádios ou em Tertúlias que se vão efectuando um pouco por todo o país, ou através da divulgação de algumas editoras por pequenas antologias e concursos literários, que aos poucos os escritores e poetas deste país vão mostrando amiúde os seus trabalhos, as suas aptidões e com uma ânsia de serem publicados como nunca vi até então. Isto só demonstra que esta nova geração (seja de jovens ou menos jovens, mas poderei referir-me pelo menos aos escritores das últimas duas décadas pelo menos) está interessada em demonstrar a este país caduco de ideias e valores culturais, de que não deixaremos morrer a nossa língua e a nossa literatura. Acredito que muito em breve, e isso tenho a certeza, as instituições de grande nome, os políticos e mecenas deste país reconhecerão existirem grandes autores em Portugal que deverão e serão vistos com outros olhos num futuro muito próximo. Temos excelentes escritores, basta que olhem para eles, nada mais! Haja quem aposte nos novos autores porque, tal como as crianças são o futuro deste país, são nos novos escritores, poetas e autores que está o horizonte da literatura e, sobretudo, da nossa língua e do nosso país, porque não dizê-lo.