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"A Banalidade é o Predador Mais Comum"
"A Banalidade é o Predador Mais Comum"

“A BANALIDADE É O PREDADOR MAIS COMUM”

 

ENTREVISTA:  VALTER HUGO MÃE

 

Para o escritor português Valter Hugo Mãe, 44 anos, a literatura não é um espaço para certezas e sim para interrogações e questionamentos.  Essa foi a tônica de sua participação como convidado do ciclo Fronteiras do Pensamento, no dia 3 de agosto, no Salão de Atos da UFRGS.  Mãe, pseudônimo adotado por Valter Hugo Lemos, é um dos destaques da atual literatura portuguesa e recebeu, em 2012, o prestigiado prêmio literário Portugal Telecom, por seu romance A Máquina de Fazer Espanhóis.  Seu livro mais recente lançado no Brasil é A Desumanização, romance passado na Islândia no qual uma menina de 11 anos precisa lidar com o luto pela morte da irmã.

Por e-mail, Valter Hugo Mãe concedeu a seguinte entrevista à Carlos André Moreira:

 

Você pode antecipar qual será o conteúdo de sua conferência aqui em Porto Alegre?  Qual é o tema principal de sua palestra no Fronteiras?

Estou interessado em algo tão absurdo e impossível de definir quanto o sentido da vida.  Procurarei esclarecer dúvidas que talvez suscitem dúvidas melhores.

 

Seu livro mais recente se chama A Desumanização.  No entanto, “desumanização” poderia ser definida como um dos temas de fundo que percorrem boa parte de seus romances anteriores, com a provável exceção de O Filho de Mil Homens.  Seu interesse pelas formas com que nos desumanizamos é também o interesse pelo que nos humaniza?

Sim.  Creio que vivo obstinado com a hipótese de havermos falhado como espécie.  Por que não?  Encontrar a arte e desenvolver a ciência não será suficiente para nos estabelecer como deuses dessa impressionante oportunidade de existir.  Vivo horrorizado com a frustração.  Envelheço como quem recusa aceitar passivamente uma falta de propósito para o dote racional.

 

A Desumanização representa também uma mudança de cenário para seus livros, que se descolam de Portugal em direção aos fiordes da Islândia.  Essa mudança inaugura um novo ciclo, após romances tão ligados à realidade portuguesa, como O Apocalipse dos Trabalhadores e A Máquina de Fazer Espanhóis?

É verdade.  Pensar Portugal um vício mas não pode impedir-nos a vontade de ter uma visão criada a partir de pontos distintos, diversos, opostos, se for necessário.  A literatura não implica uma deslocação para que seja universal.   Não é a literatura que pede essa viagem.  Sou eu, cidadão sempre insatisfeito, que me perigo com a expectativa do exterior.  Temo que o meu quintal não baste para explicar todos os campos e como se imaginam as plantas.  Talvez aprenda que vejo mal, penso mal, escolho mal, mas não consigo deixar-me quieto perante a extensão do mundo e das gentes.

 

E aproveitando a deixa: por que a Islândia?

Pelo quanto simboliza de espaço extremo, como de gente extrema também.  Pelo que exige de disciplina de solidão e sobrevivência.  Como se pudéssemos supor uma memorização das benesses humanas, civilizacionais.  Coisa que não se comprova hoje.  A Islândia é uma lição de sofisticação e de valores.  Queria usar para descobrir acerca da dimensão grotesca do corpo, acabei por usar como elevação espiritual do próprio lugar, como se um lugar tivesse um pensamento inteligente para si mesmo.

 

Seus livros trabalham buscando a invenção de uma linguagem ao mesmo tempo própria e sofisticada, com raízes na oralidade, mas, ao fundo, sempre põem o dedo em questões sociais profundas:  o lugar da mulher em uma sociedade patriarcal, a identidade portuguesa em tempos de crise, a velhice, o mundo do trabalho.  É uma inquietação natural esse incômodo como o mundo?  Você vê a linguagem como elemento de interrogação da realidade?

Eu aspiro à arte e acho que a realidade aspira à arte.  O que se demite de ser arte aceita existir como algo banal.  A banalidade é o predador mais comum de todos nós.  Quero fugir-lhe.  Não compreendo que se escreva um livro sem uma atenção fundamental prestada à linguagem.  A diferença entre as receitas de bolos e a literatura vem daí.  Todo o texto facilmente encontra um assunto, mas só com sorte encontra uma estética importante, fundadora, participante.  Vivo, claro, na utopia de conseguir alguma originalidade, sabendo que a originalidade é já do domínio do absurdo.  Só são originais os acasos.  Tudo o resto é trabalho e erro, e mais uma esperança quase injustificada.

 

Você voltou a assinar seu nome com letras maiúsculas, bem como a usá-las em seus livros, porque se sentia incomodado com o rótulo rápido que elas representavam para sua obra.  Você busca conscientemente ser um autor cuja obra não pode ser compreendida “depressa demais”?

Adoraria até eu mesmo não me definir depressa demais, embora toda a vertigem seja colocada na descoberta dessa definição.  Posso abreviadamente dizer quem sou, mas odeio.  A resposta mais rápida, que pode ser a mais exata, também é uma morte.  Ela mata a pessoa.  Diz: você é isto, não será mais do que isto.  Retira o sentido para continuar.  Mais vale colocar logo a terra por cima.  Sim, quero eu dizer, eu preciso da complexidade embora procure fazer luz sobre tudo quanto não entenda.

 

Com a exacerbação da crise na Grécia e dos conflitos do país com a comunidade europeia, muito se especulou também sobre os reflexos em países menores e de economias mais instáveis da União Europeia, como Irlanda e Portugal.  Como você vê a situação do país hoje?

Portugal está entregue a um governo obediente aos mandos da Alemanha e, por isso, é visto como um país bem comportado, como se estivesse no bom caminho.  Contudo, exceptuando a Grécia, somos os recordistas de emigração novamente.  A dívida pública mais do que duplicou com este governo (em menos de quatro anos), e as condições de vida e a ideia de Estado Social recuaram demasiado.  Eu tenho nojo desta Europa política.  Tenho nojo desta hipocrisia que instrumentaliza uma união de prometeu igualdade entre todas as cidadanias mas que apenas distingue gente como consumidores.  Esta união vira uma farsa.  Os povos europeus lembram-se, novamente, que grandemente se odeiam uns aos outros.  Isso é o pior serviço que qualquer política podia fazer.  É criminoso.

 

Você começou escrevendo poesia.  Ela ainda ocupa algum espaço em seu trabalho?  Ainda escreve poesia ou considera que a linguagem específica de seus romances é ela própria a poesia que você compõe agora?

Eu ofereço toda a poesia aos romances e fica uma sombra que, inexplicavelmente, vou colecionando.  Não deixo de gostar de ver um poema no meu caderno, mas encaro-o cada vez mais como um ser estranho, inesperado, que olha para mim com problemas de convicção.  Meus poemas de hoje nascem estupefatos.  E eu sou um poeta estupefato.  Triste porque a poesia é minha escola inteira, mas grato porque ela me deixa ser infiel.  Ela espera.

 

Você é prosador, artista visual, poeta, músico, cantos, apresentador de TV.  Ao expressar-se por tantos meios, crê que se multiplica ou se divide?

Eu me complico.  Você tem razão.  Eu devia parar com isso.

 

Aos poucos, uma nova geração de escritores portugueses vai sendo editada no Brasil.  Nomes como você, Gonçalo Tavares, João Ricardo Pedro, Patrícia Reis, João Tordo, Nuno Camarneiro e José Luiz Peixoto têm sido publicados com mais frequência no Brasil.  A tão falada e necessária ponte entre as literaturas de ambos os países está a se fazer, finalmente?

Creio que há um pouco mais, mas isso não retira a lacuna de tudo quanto não se fez.  Alguns autores brilhantes, de um e de outro país, não atravessaram nunca o oceano.  Eu acredito que há a mesma falha em cada sentido.  É um mito achar que os brasileiros editam mais portugueses ou vice-versa.  A falha é muito equivalente.  Acontece que em Portugal a cultura brasileira é mais presente do que ao contrário.  Isso devia favorecer a presença dos clássicos brasileiros aqui, mas não é bem assim.  Falha sempre demasiado.  Por isso minha carteira dói quando viajo para o Brasil.

 

Fonte:  ZH-PrOA de 02/8/2015