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Os Jovens e a Leitura
Os Jovens e a Leitura

ESTÃO MENTINDO SOBRE OS JOVENS

 

Meio histérica essa reação à queda na venda de livros. Não que não seja ruim – é claro que é. Sou solidários às livrarias e editoras, até porque graças a elas tenho acesso a boa parte do que leio, mas parece haver uma confusão entre duas coisas: 1) o que é ler um livro; 2) o que é ler.

 

De uns tempos para cá, manchetes vêm alardeando que “jovens brasileiros estão lendo menos”. Só que as matérias, embaixo das mesmas manchetes, não mostram nada disso: mostram que os jovens estão lendo menos livros. Desde o fim do ano passado, quando o diretor da Companhia das Letras fez um apelo para que as pessoas comprassem livros no Natal, não faltou quem esculhambasse os “Hábitos das novas gerações” - textos nessa linha ainda brotam em colunas de jornais e (ironicamente) nas redes sociais.

 

Essas novas gerações, claro, seriam um bando de iletrados ignorantes com aversão não só à literatura, mas a qualquer expressão cultural de reputação razoável. Gente que, ao enterrar as fuças no smartphone, ocupa-se apenas de inutilidades e, veja que horror, abdica do inebriante cheiro do papel, da incomparável sensação de folhear as páginas, do prazer indescritível de rabiscar o texto para melhor absorver os ensinamentos que apenas um bom livro é capaz de oferecer.

 

Besteira.

 

Primeiro, que não entendo essa mania de achar que leitura e internet são coisas opostas – não encontrei dados sobre isso, mas duvido que os jovens lessem mais há 20 anos do que leem hoje. Você dirá que hoje leem muita bobagem, e eu direi que é verdade, mas, sem ler bobagens, como é possível saber o que NÃO é bobagem?

 

Aliás, os jovens dos anos 70, 80 e 90 não liam bobagens? Eu sei, você dirá que liam menos bobagens, e novamente eu direi que é verdade, mas só é verdade porque eles liam menos. O jovem de hoje lê muito mais – e o problema é justamente este: ele lê demais, não de menos.

 

O biólogo E. O. Wilson costuma dizer que “estamos nos afogando em informações mas famintos por sabedoria”. Quer dizer: temos acesso ao conhecimento como ninguém jamais teve, mas falta quem nos oriente. Falta quem nos situe nessa biblioteca de fragmentos, quem nos ajude a filtrar essa enxurrada de informações que, às vezes, pode mais atormentar do que educar.

 

Semanas atrás, um rapaz de 23 anos, formado em Economia, me procurou para conversar sobre um aplicativo de jornalismo que ele está desenvolvendo. Não posso dizer do que se trata, senão arrebento o negócio do guri, mas a ideia é brilhante. Ele, aliás, é brilhante. Inteligente, articulado, muitíssimo bem-informado. Lá pelas tantas, perguntei sobre os livros.

 

- Em média, leio um por ano – ele respondeu, frisando que passa “o dia todo lendo” sobre tendências, tecnologia, mercado e economia em sites e redes sociais. - Em 2018, li O INVESTIDOR INTELIGENTE (do economista Benjamin Graham, com 640 páginas).

 

Quis saber por que o interesse por livros despencou tanto.

 

É que o jovem, hoje, não quer perder nada. Quer abraçar o mundo. E a leitura muito longa pode se tornar meio monótona; já os textos mais curtos nos permitem dispersar um pouco – ele disse.

 

E eu lembrei de escritores como Anderson França e Mentor Neto, que publicam crônicas diariamente no Facebook e atingem dezenas de milhares de leitores. Que diferença faz lê-los ali ou lê-los em livro?

O cheiro do papel? A sensação de folhear as páginas? Eu adoro livros em papel, claro, mas minha prioridade maior, no momento, é ler menos bobagem.

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Paulo Germano (paulo.germano@zeohora.com.br) em 17/02/2019