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O Homem é o Lobo do Homem, Thomas Hobbes
O Homem é o Lobo do Homem, Thomas Hobbes

DE LOBO DO HOMEM À SEGREGAÇÃO SOCIAL

 

O homem é o lobo do homem. Thomas Hobbes publicou sua obra LEVIATÃ em 1651 e tornou esta frase famosa. Diate da tendência do homem de tomar seus semelhantes como inimigos, Hobbes argumenta no livro que apenas um contrato social que estabeleça um poder centralizado com a autoridade de fazê-lo valer tem condições de proteger a sociedade e garantir a paz civil e união social. Esse contrato social hoje se chama constituição. Fazer valer a constituição é fundamental para assegurar a paz social. Em uma democracia, como Estado de Direito de fato, implica que a constituição seja defendida pelos três poderes institucionais.

 

 

Em 1930, analisando o mal-estar na cultura, Freud endossa a afirmação de Hobbes de que um lobo habita cada ser humano. E que a tarefa do processo civilizatório é evitar que o laço social se transforme em campo de batalha em que cada um busca a satisfação de seus impulsos custe o que custar. Freud argumenta que a dura realidade, que se prefere recusar, é de que “o ser humano não é uma criatura afável e carente de amor que, no máximo, é capaz de se defender quando atacado”.

 

Sem os limites impostos à barbárie pela lei estabelecida, o ser humano é levado a buscar a satisfação de seus impulsos agressivos e violentos. Isso o leva facilmente a tomar seu semelhante como “uma tentação de satisfazer nele a agressão, explorar sua força de trabalho sem recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de seus bens, humilhá-lo, causar-lhe dor, torturá-lo e matá-lo.”

 

Não é fácil para os seres humanos renunciarem à satisfação de sua tendência agressiva. A maneira mais comum é formar um círculo cultural restrito de seres humanos ligados entre si por laços de amor em torno da identificação a valores e ideais compartilhados. Para tanto, é necessário que haja quem fique fora para servir de alvo da hostilidade contida dentro do círculo. Quanto mais uma comunidade tem como fundamento o amor universal pela humanidade, mais se acentua a demonização e intolerância em relação às diferenças.

 

Entretanto, se esta agressividade inerente ao ser humano é uma realidade presente na história da humanidade. Ao que pode ser atribuído o surgimento de práticas de segregação e eliminação do diferente em proporções tão massivas como nos últimos dois séculos?

 

Basta lembrarmos o genocídio armênio que precedeu a II Guerra Mundial, cuja prática de segregação, eliminação e apagamento de memória foi esgrimida por Hitler para justificar os campos de extermínio. O nazismo chamou de “solução final” a segregação e extermínio de milhões de seres humanos das comunidades judaicas, ciganas e de homossexuais através de uma verdadeira linha de montagem industrial da morte.

 

Recentemente, o renomado artista plástico e cineasta chinês Ai Weiwei concluiu o documentário HUMAN FLOW: NÃO EXISTE LAR SE NÃO HÁ PARA ONDE IR (2017). Filmado em 23 países (disponível no YouTube, legendado), o artista propôs retratar a realidade que 65 milhões de pessoas vivem ao redor do mundo na condição de refugiados, no maior deslocamento humano desde a II Guerra Mundial.

 

Muitos se encontram em campos de refugiados – havendo casos de gerações que nasceram nos mesmos e jamais saíram de lá. Outros ficam acampados de modo ainda mais precário pelo caminho. E outros vagueiam sem rumo a pé, sendo detidos nas fronteiras sem serem aceitos em país algum. A ajuda humanitária chega para uma minoria, ainda assim sem resolutividade em sua condição.

 

São expostos no documentário as circunstâncias que levam os refugiados a a abandonarem seus lares e países, fugindo da fome, de mudanças climáticas, das guerras e perseguições étnicas ou religiosas, em busca desesperada de condições de vida minimamente melhores. São registrados também testemunhos dos efeitos nefastos psíquicos, físicos e nos laços sociais que esta condição desencadeia.

 

Os seguintes trechos narrados no documentário permitem dimensionar a violência da segregação e suas consequências:

 

(…) Ser refugiado é muito mais do que um status político: é a crueldade mais penetrante que se pode cometer contra um ser humano. É privar forçosamente o ser humano de todos os aspectos que tornariam a sua vida mais tolerável e com significado e dignidade. Quando se é imune ao sentimento alheio, é muito perigoso. É crucial não perdermos nossa humanidade.

 

(…) Se as crianças crescem sem esperança, sem perspectivas para um futuro, sem terem a noção de que são capazes de fazer algo com suas vidas, elas se tornarão muito vulneráveis a todos os tipos de exploração, incluindo a radicalização. (…)

 

Jacques Lacan, leitor de Freud, também procurou dar uma resposta ao mal-estar na cultura. Apontou, nos anos 60, dois discursos que ão dominantes em nossas sociedades. Trata-se do discurso da ciência e do discurso do capitalismo. Lacan definiu discurso como uma estrutura de linguagem que define as relações entre significantes, sujeitos e seus objetos, relações que determinam os laços sociais e a posição do sujeito nos mesmos, bem como aquilo que cada discurso produz.

 

Em 1967, afirmou que os campos de concentração foram precursores dos efeitos do remanejamento dos grupos sociais pela universalização introduzida pela ciência. Antecipou que o nosso futuro de mercados comuns iria encontrar seu equilíbrio (precário, diga-se de passagem) numa ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação. Cabe ressaltar que o universal deixa de fora a singularidade do sujeito, remetendo-o à condição de objeto dessubjetivado, fazendo com que não lugar de reconhecimento no laço social, salvo pelos objetos de consumo que ostente.

 

Com relação ao discurso do capitalista, ressalta o imperativo de gozo ordenado pelo capital, de sempre acumular mais e mais. Por outro lado, exclui o sujeito do laço social, pois o mesmo só se relaciona com os objetos-mercado. Esse discurso produz sujeitos insaciáveis, seja pelo acúmulo do capital, seja em sua demanda de consumo por novos gadjets.

 

A concentração acelerada de renda nas mãos de cada vez menos pessoas pelo capitalismo financeirizado implica a segregação de um contingente cada vez maior de pessoas em direção à linha de pobreza e mesmo abaixo da mesma. Segundo levantamento recente, no Brasil apenas 1% da população ganha a partir de R$ 27 mil mensais.

 

O documentário de Ai Weiwei é eloquente nesse sentido. Mas não precisamos ir tão longe. Basta olhar os números da violência no Brasil: são em torno de 56 mil mortes violentas por ano, em sua grande maioria de jovens negros, pobres, homens, moradores das periferias urbanas das grandes cidades de acordo com o Mapa da Violência (Ipea). É a segregação social e econômica com a dimensão de genocídio.

 

Sempre que nos dirigimos ao outro como sujeito em sua singularidade, estamos no discurso da psicanálise, qualquer que seja o contexto ou atividade profissional. A humanização do laço social é promovida por dispositivos onde a fala circula e o testemunho do sujeito é escutado. É o avesso da segregação.

 

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=_jO9DqVztLQ

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Jaime Betts/Psicanalista, membro da APPOA em 30/03/2019.