
NEUROCIENTISTA DA USP ALERTA: "USAR IA DE FORMA PASSIVA É UM PROCESSO EXTREMAMENTE EMBURRECEDOR PARA O CÉREBRO"
Telma Pantano defende que nomear emoções desde cedo é fundamental para que o indivíduo entre em contato com o que sente e pensa
Professora colaboradora da Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em Psiquiatria e master em Neurociência, Telma Pantano traz um alerta para famílias e escolas: é impossível separar a emoção da cognição cerebral. Por isso, é fundamental que as crianças aprendam desde cedo a nomearem o que sentem e pensam.
A ideia de que "isso é cognitivo, a gente aprende na escola" e "isso é emocional, a gente traz de casa" não existe.
Segundo a pesquisadora, que concedeu entrevista a Zero Hora quando esteve em Porto Alegre para o 18º Congresso do Ensino Privado, organizado pelo Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS), esse processo permite a maturação cerebral, que precisa ser perseguida pelos adultos, para que auxiliem os pequenos no seu desenvolvimento. Ela ainda explica como a relação com a tecnologia impacta no cérebro.
Confira a entrevista:
Seu foco principal de estudo é o desenvolvimento cerebral de crianças e adolescentes. Como a neurociência moderna mudou nossa compreensão do cérebro?
Por muito tempo, o cérebro era visto como uma caixa preta e, para entender o cérebro, a gente analisava o comportamento das pessoas. Achávamos que observar alguém chorando ou sorrindo indicava comportamentos emocionais, e ler ou falar eram comportamentos cognitivos, o que sugeria uma separação entre cognição e emoção.
A partir da década de 1990 e início dos anos 2000, com o advento das neuroimagens funcionais, descobrimos áreas, como as órbitas frontais e pré-frontais do cérebro, que antes não sabíamos bem para que serviam. A neurociência nos mostrou que essa área é crucial porque permite que a gente não use o comportamento para explicar o funcionamento cerebral.
Podemos mentir, simular, disfarçar, nos controlar e nos organizar de forma diferente do que nosso cérebro impulsiona a fazer. O comportamento é sempre um resultado de um processamento cerebral, nunca uma explicação do funcionamento em si.
Então, cognição e emoção não são funções separadas no cérebro?
Exatamente. Hoje, os estudos de neuroimagem mostram que não há separação. Não existe sistema límbico, que são as áreas atribuídas às emoções, que não se ative quando você está em uma função cognitiva, e vice-versa. Essas duas funções não são separadas.
Eu sempre digo que você está triste por um motivo, alegre por uma razão. Se não há isso, estamos diante de um transtorno ou distúrbio psiquiátrico. A ideia de que "isso é cognitivo, a gente aprende na escola" e "isso é emocional, a gente traz de casa" não existe. Para um ser humano funcionar adequadamente, ele precisa unir esse funcionamento e ter consciência dessa união.
Como essa união entre razão e emoção pode ser trabalhada na escola, já que é um ambiente focado em conteúdo e, ao mesmo tempo, precisa lidar com as questões emocionais dos alunos?
O grande ponto é entender que não ensinamos para uma máquina, mas para um ser humano que está conectando essas duas coisas. O segredo para unir isso, como Freud já dizia há 120 anos, é usar a linguagem.
A linguagem nos permite entrar em contato com nosso próprio funcionamento. Por que o aluno não pode se expressar enquanto aprende? Por que ele não pode dizer "nossa, isso é chato"? E então, perguntamos: "Isso é chato por quê? Que pensamentos estão te levando a considerar isso chato? Será que existe alguma outra forma de pensar em que você pode tornar isso menos chato?". Entender as diferenças nos pensamentos dos alunos é mais importante do que o conteúdo em si.
Mas validar emoções como essa não pode fazer com que o aluno deixe de aprender a ter paciência para processos de aprendizagem que demandam mais tempo e concentração?
Precisamos de muito equilíbrio. Essas duas interfaces – cognição e emoção – têm que estar juntas. Todo processo de pensar, planejar e organizar se baseia em memórias que precisam ser formadas. É necessário ter uma base para desenvolver estratégias.
Dentro da sala de aula, o professor precisa saber em que momentos pode provocar uma diversidade de pensamentos e emoções. Quanto mais isso é feito desde cedo com uma criança, mais automático esse processo se torna e menos tempo leva.
E quando se deve começar a ensinar uma criança a nomear emoções?
A partir do momento em que ela sente emoção, ou seja, antes de nascer. Se o bebê está agitado na barriga, a mãe pode perguntar "O que que está acontecendo? Você está triste? Teve um susto?". É preciso nomear isso.
Aprender a entrar em contato com o próprio funcionamento cerebral desde muito pequeno torna esse processo automático no pensamento. Na sala de aula, por mais que o professor tente integrar, muitos alunos ainda se sentam passivamente, como se estivessem em um teatro. Se o cérebro não está ativo nesse processo, a aprendizagem não acontece.
A chave do desenvolvimento cerebral é saber fazer essa reorganização com moderação e equilíbrio. À medida que o aluno cresce, ele precisa automatizar esses processos, mas automatizar não implica em não entrar em contato.
Essa automatização permite que o aluno mantenha a atividade cerebral mesmo sem tantas dinâmicas?
Sim, sem tantas dinâmicas ou estratégias, porque isso já faz parte do pensamento. O pensamento envolve um automonitoramento, um olhar para si mesmo. A chave para entender o que é um cérebro maduro não é apenas ter completado a mielinização aos 24 ou 26 anos. Um cérebro realmente maduro é aquele que é funcional para o ambiente.
Funcionalidade para o ambiente significa saber como se comportar em diferentes ambientes e situações, o que exige saber quem você é, onde está e o que a situação exige. Isso precisa ser muito rápido. Quando o cérebro automatiza esses processos de forma eficiente, ele está caminhando junto com a maturidade cerebral.
A maturidade cerebral vai além do processo biológico; ela se encontra diretamente com um processo funcional de poder entrar em contato e lidar com a maturidade do pensar e do sentir.
Qual o papel de pais e professores no desenvolvimento desses recursos?
O papel de pais, mães e professores é desenvolver esses recursos. A maturidade cerebral tem que começar no adulto. No hospital, muitas vezes pergunto: "Quem é o adulto aqui?". Vemos comportamentos em crianças que espelham os pais, que querem mudar o comportamento da criança, mas fazem a mesma coisa.
Para trabalhar a regulação do comportamento, precisamos de automonitoramento e autorregulação, e o adulto deve ter a maturidade para isso, pois a criança ainda está em desenvolvimento. Nosso serviço atende crianças e adolescentes apenas com a presença do responsável, porque esperamos que o adulto provoque a maturidade no outro cérebro.
Tivemos que criar grupos de reconhecimento de emoções separados para pais e filhos, porque as crianças começaram a nomear coisas que os pais não sabiam nomear ou considerar. Muitas vezes, o "cérebro adulto" não é o do adulto biológico.
As crianças estão mais abertas a desenvolver esses recursos?
Sim, elas aprendem com muito mais facilidade, devido à plasticidade neuronal e às podas neuronais. Mas qualquer um desses processos, se não for utilizado, trabalhado e mantido constantemente, é perdido.
Quais são os ambientes ideais para desenvolver esses recursos?
Acreditamos que a escola é o ambiente que mais deveria ter cérebros adultos, que estudam e se preparam para desenvolver esses recursos. Não podemos garantir que a família tenha condições de desenvolver esses recursos, pois não sabemos quem são esses pais. Mas sabemos que o professor está lá para estudar e aprender a desenvolver cérebros funcionais e maduros.
Poderia dar dicas de como pais e professores podem trabalhar isso com crianças?
A gente aprende a fazer isso com uma criança e um adolescente a partir do momento que aprendemos a fazer conosco mesmos. Precisamos parar e pensar: "Por que funcionei de uma determinada forma? O que eu fiz? O que poderia ter feito de diferente? O que senti? O que pensei?".
Esses pensamentos devem ser desenvolvidos em nós o tempo todo para podermos desenvolvê-los nas crianças. Em neurociência, não existe comportamento certo ou errado. Bater, morder, xingar são sempre possibilidades. A questão é: por que escolhi essa e não outras? É porque não tenho repertório ou não aprendi a acessá-lo? É assim que colocamos a pessoa como centro e responsável pelo próprio comportamento.
Se a criança age por falta de repertório, nosso papel como professor é ampliar esse repertório. Se ela tem repertório, mas é impulsiva e não consegue acessá-lo, nosso papel é desenvolver o cérebro para que a impulsividade seja limitada pelo pensamento. A emoção bloqueia o pensamento. Precisamos desbloquear para que ela entre em contato com o que sente e como pensa. É um processo contínuo e longo.
Usar a inteligência artificial de forma passiva, por exemplo, é um processo extremamente emburrecedor para o cérebro.
Como o uso de telas se conecta a essa discussão, considerando que adultos e crianças são viciados nelas e as utilizam de forma automatizada?
Na neurociência, o comportamento não pode explicar o cérebro. Estar na frente da tela não indica o funcionamento cerebral. Eu posso estar em um jogo de ação e reação ou numa rede social com likes/dislikes, que são processos automáticos, ou construindo um jogo, elaborando um processo, resolvendo problemas, o que envolve processos cerebrais muito distintos. A pergunta é: por que usamos a tecnologia para processamentos automáticos?
O cérebro não é louco para aprender, ele tem preguiça e quer descansar, quer automatizar o que puder. Ficar no TikTok é mais fácil do que corrigir trabalhos. O problema da tela é o adulto que ensina o uso automatizado. Desde cedo, a tela é usada para a criança ficar quieta, se acalmar, ou para o adulto ter tempo.
A conscientização de pais e mães é fundamental, mas como nem sempre é possível, a escola é o lugar para despertar o uso consciente da tecnologia. O problema não é a tecnologia em si, mas o que provocamos com ela. Usar a inteligência artificial (IA) de forma passiva, por exemplo, é um processo extremamente emburrecedor para o cérebro.
O que acontece com o cérebro se usamos a IA para tudo?
Quanto mais você pensa, mais fácil fica pensar. Essa é a grande regra do cérebro: quanto mais você funciona de uma forma, mais fácil fica para continuar funcionando daquela forma. Se mantivermos o cérebro em automatismos, ou se a escolha for por automatismos, provavelmente não sairemos disso, ou exigirá um esforço gigantesco para mudar.
Se não provocamos isso desde cedo, tendemos a ficar cada vez mais inflexíveis e rígidos, com poucas chances de mudança. Numa sociedade em rápida mudança, sem desenvolver esses recursos, ficamos ultrapassados. Isso é um enrijecimento cognitivo e emocional. Não desenvolver esses recursos leva a um funcionamento em que se perde o controle. A pergunta crucial é: você controla o seu cérebro ou o cérebro que te controla?
Quais são as implicações do exercício físico e do sono para a maturidade cerebral?
Ter maturidade cerebral é fundamental para saber ligar e desligar o cérebro, saber quais partes ligar e desligar. Por exemplo, a principal característica do déficit de atenção não é a falha de atenção, mas a incapacidade de se desligar, de focar em algo.
Um bom funcionamento cerebral envolve ter controle sobre os processos. Estudos mostram o efeito do mindfulness, que é um efeito de liga-desliga. O esporte é uma atividade que nos ensina a ligar e desligar. A atividade física ativa o cérebro, melhora a circulação e nutrição, mas principalmente desenvolve áreas que podem ser ligadas e desligadas.
Esse jogo de funcionamento é muito importante e deve acontecer com frequência para modificar o funcionamento cerebral. Um funcionamento único e constante é exaustivo; precisamos de diversificação. Quando crianças chegam à sala de aula agitadas após a Educação Física, elas podem não estar prontas para uma prova naquele momento. Mas a questão é: como eu sei que estou pronto para entrar em meu funcionamento? Me olhando.
O uso constante de telas prejudica esse processo de ligar/desligar?
Sim, o uso de telas coloca o cérebro em um desligamento que é provocado pelo ambiente, não por escolha própria. Quando estamos no TikTok e perdemos a noção do tempo, nossa área pré-frontal é desligada, e estamos no automatismo. O cérebro está fazendo por nós, e não estamos nos dando conta.
Quando você está em uma atividade física que te dá prazer, você está em um automatismo que você mesmo programou. Você está no controle, não contando com um estímulo externo para provocar o automatismo.
O cérebro não precisa ficar ligado o tempo todo, mas deve saber desligar e relaxar, e a escolha do momento e da forma de relaxar de forma saudável deve ser sua.
Fonte: Zero Hora/Isabella Sander em 31/07/2025