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A Poesia da Vida, Abrão Slavutzky
A Poesia da Vida, Abrão Slavutzky

A POESIA DA VIDA

 

Diante do peso das forças autoritárias que tentam impor suas crenças, é preciso construir pontes de leveza.

 

A poesia da vida está na dança, na música, no amor, no humor. Também está na invenção, no erotismo, na imaginação. Já a vida prosaica é a ordem, a lei, o trabalho, o horário, a racionalidade; assim como a organização, a eficácia, a obrigação, o mercado. Em toda cultura existiriam, assim, as duas linguagens: uma, a prática, empírica, tão necessária para sobreviver. A outra é a linguagem poética da magia, dos sonhos, indispensável para bem viver.

 

É possível que o homem tenha começado a falar em verso, não em prosa. Suas frases iniciais deviam ser curtas, cadenciadas, repetindo sons e criando, com isso, a rima. O homo sapiens imitou os ruídos que a própria natureza emitia (o vento nas folhas, o canto dos pássaros, uma pedra rolando no morro) para que a comunicação fosse ritmada. A natureza se encarregou de fornecer uma cadência que os primeiros habitantes da Terra absorviam para usar no que desejavam dizer. Primitivamente, a poesia era usada em rituais sagrados ou quando se entoavam hinos. O teatro grego se desenvolveu a partir da vida religiosa como coro e música. A vida prosaica cresceu devido à complexidade da vida social.

 

Já um bebê se comunica através da variação de sons, da mímica, do esforço que faz por se comunicar. Incrível é presenciar as verdadeiras conversas entre uma criança e um adulto. Há uma musicalidade presente que toca, emociona. Sempre me espantam as cenas entre adultos e crianças que ainda falam pouco, são cenas de arte dominada por sentimentos. Um e outro buscam se entender, criando à memória anterior à linguagem. Há, nessa fase, um fluxo sonoro, visual e sensitivo que tanto interessou a escritores e educadores.

 

Num mundo onde o futuro está problematizado, que acena com dificuldades na manutenção da liberdade, precisamos da poesia. É nas artes que reside a rebeldia criativa, a vitalidade da vivacidade pura do amor. Estamos precisando construir novas pontes nas esquinas das redes sociais. Diante do peso das forças autoritárias que tentam impor suas crenças, é preciso construir pontes de leveza através das quais podemos nos aproximar. Que bom seria recuperar a emoção das crianças que fomos e perceber que, apesar das dificuldades, ainda há vida excitante.

 

Vamos abrir as portas, abrir para novas conversas, e assim aliviar o peso do isolamento. A poesia da vida é o sentimento do mundo nos aplausos da diversidade em defesa da liberdade. As artes ajudam a festejar, afastam o tédio que, por sinal, é a mãe das artes. A arte da vida… viver com arte é fortalecer os encontros através do espanto. Desenvolver diálogos instigantes, abrir o coração, dar asas à imaginação e sentir a mais bela das artes, que é a arte de amar. Vamos nos aproximar na vida real e, assim, reanimar a frágil fraternidade. Apesar das desgraças, aí estão as graças com sua beleza ímpar que alivia o peso da existência. Estou sonhando, não devemos perder os sonhos, porque o ano que está para começar, 2018, finaliza com o número 18. Dezoito é a expressão em hebraico de chai, bem-vinda a poesia da vida amorosa.

 

Fonte: ZeroHora/Abrão Slavutzky/Psicanalista (abraoslavu@gmail.com) em 17/12/2017