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O Divã do Poeta
O Divã do Poeta

O DIVÃ DO POETA

 

Só a leveza pode abrir as portas do humor, que tão bem rima com amor.

 

Por Abrão Slavutzky

Psicanalista

 

Quando Drummond fez 80 anos, mudou mais uma vez, pois passou a dar entrevistas. Perguntado sobre seus famosos poemas eróticos, disse que buscou “enaltecer o lado físico do amor numa linguagem poética e com dignidade”. Só autorizou a edição em livro cinco anos após sua morte. Em 1992, foi publicado O AMOR NATURAL. Suas poesias líricas exaltam o abraço dos amantes como experiências cósmicas. Portanto, escreve sem pudores sobre o membro, a bunda, o clitóris, o orgasmo, integrando o corpo e a alma. Expressou no erotismo o ser gauche na vida, sua alegre liberdade.

 

Recentemente, li DOSSIÊ DRUMMOND, de Geneton Moraes Neto, uma das melhores leituras do ano. No prefácio, escrito por Paulo Francis, este assegura que é a melhor entrevista de Drummond. Foi feita poucas semanas antes de sua morte, onde diz, por exemplo: “Fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético”. Isso porque teve uma infância difícil e triste, além de uma mocidade tumultuada. Expressou em sua obra os conflitos e contradições vividos. Desenvolveu desde adolescente uma gosto pela transgressão social, juntamente a um apego aos valores da ordem. Conviveu com um lado revolucionário e outro conservador. Drummond foi um amante da liberdade, um rebelde, um anarquista. Viveu com seus paradoxos na vida íntima e pública.

 

Um exemplo de rebeldia ocorreu no episódio em que escreveu defendendo a cantora Nara Leão. Ela havia feito críticas à ditadura militar, estava ameaçada de prisão, e o poeta publicou o poema APELO: “Meu honrado marechal / Dirigente da nação / Venho fazer-lhe um apelo / Não prenda nara Leão / (…) A menina disse coisas / De causar estremeção? / Pois a voz de uma garota / abala a revolução?” E concluiu: “Meu ilustre marechal / Dirigente da nação / Não deixe, nem de brinquedo / Que prendam Nara Leão”. A poesia e a música unidas desafiaram a ditadura com o humor ímpar do Drummond.

 

Também expressou em poemas sua vida pessoal, que só com o tempo foram sendo entendidos. Por exemplo, em CAMPO DE FLORES expôs sua intimidade amorosa: “Deus me deu um amor no tempo de madureza, / quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. / Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro, / e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor”. Ele se referia à namorada, Lygia Fernandes, uma segunda esposa, fartamente entrevistada no final do livro DOSSIÊ DRUMMOND. Conviveram quase diariamente durante 36 anos. Os poemas de O AMOR NATURAL expressam a vitória de Eros, pois o erotismo transcende a traumática realidade. Como também já tinha escrito Macedonio Fernández, um dos gurus do velho Borges: “A morte ganha da vida / o amor da morte!”. Na poesia, Eros é mais cantado que o poderoso Thanatos da Psicanálise.

 

O divã do poeta foi escrever, buscando assim seus desejos e mantendo o sentimento do mundo. Nós, através da leitura, podemos aprender a levitar diante dos pesos da existência. Só a leveza pode abrir as portas do humor, que tão bem rima com amor. Além de tudo, a poesia de Carlos Drummond de Andrade segue nos conduzindo ao coração do mundo.

 

Fonte: Zero Hora/Colunistas em 14/01/2018