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No Meio do Caminho
No Meio do Caminho

NO MEIO DO CAMINHO

 

DOUTORANDO EM TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA TRATA DO TEMA POR QUE LER CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.

 

Não há literatura brasileira sem modernismo.  O que quer que tenha sido escrito fora do espectro histórico-estético do período modernista não merece ser rotulado como produção nacional.

 

 

Pode ser, é claro, literatura, mas não literatura brasileira.  Não existe adjetivo grátis.  Seguindo essa linha, gosto de defender que o Brasil literário foi inventado a partir de 1922, na Semana de Arte Moderna.  A literatura brasileira é portanto, um produto da mentalidade paulista.  Assim, se a vida seguisse seu curso natural, a vocês, gaúchos, restaria apenas o ofício de debater-se cotidianamente contra essa verdade ofuscante, como a mosca de Jean Baudrillard, que se chocava infinita e belamente contra “a evidência incompreensível do vidro”.  Quanto a mim, paranaense que sou (desculpem, nasci no Paraná, mas prometo que não vai acontecer novamente), restaria apenas o papel de anotar, de forma isenta, as condições materiais geradoras da supremacia cognitiva dos paulistas.  Contudo, o mito não obedece a geografia.  Assim, o maior dos poetas do Brasil, (cuidado, spoiler), Carlos Drummond de Andrade, acabou nascendo em Minas Gerais, em Itabira, uma cidade que, ainda hoje, tem menos de 120 mil habitantes.  Esse evento acidental salvou-nos de uma dívida histórica com os paulistas.  Dito isso, voltemos ao principal, voltemos ao Drummond.  O poeta está hoje impresso n o imaginário porque jamais pretendeu ir ao encontro do povo.  Ele preferiu sempre a atitude mais radical:  viver dentro dele.  A força de sua poesia era de fazer corar a legião de poetas-publicitários que hoje se contentam em fazer trocadilhos e distribuir dicas radiofônicas para salvar relacionamentos da classe média, sempre tão carente de manuais de instrução de como viver.  Drummond estabeleceu uma ponte entre a lírica e o povo.  As pessoas comuns passaram a compreender melhor a poesia a partir de seus textos.  E a poesia passou a reunir um arcabouço maior de elementos para que se possa entender o povo brasileiro.  E assim ele acabou virando nota de 50 mil cruzados.  E assim ele acabou virando estátua em Copacabana.  Para ilustrar sua inserção na cena social de seu tempo, há um causo conhecido.

 

 

Em 1989, um repórter do jornal Folha de S.Paulo ligou para a casa do poeta.  Naquela época, ele era uma espécie de reserva moral do país, sendo constantemente convocado a dar palpite em tudo, do risco de uma guerra nuclear ao governo de Leonel Brizola.  Depois de uma breve introdução do jornalista, a empregada doméstica explicou, com a acidez típica dos que-tem-mais-o-que-fazer:  “Seu Carlos não pode dar entrevista agora, ele tá vendo os Trapalhões”.  Foi o que bastou para que a história corresse o país, primeiro de redação em redação, depois de escola em escola.  Didi (a versão pós-moderna de Leonardo Pataca), Dedé (o pateta inconsciente de sua patetice), Mussum (o malandro injustiçado) e Zacarias (o Peter Pan tupiniquim) receberam um selo de qualidade estética inigualável.  Se é bom, Drummond gosta.  Se Drummond gosta é porque é bom. Esse exemplo (talvez histriônico, talvez folclórico) revela como as afinidades estéticas dependem de fatores extraliterários.  Um autor não é seu texto.  Muitas vezes, para entender o que um autor está dizendo, as pessoas precisam se certificar de que o que está sendo dito é fruto de uma reflexão de alguém que habita o mundo prático, sem ilusões ou perfumaria.  Nesse sentido o episódio dos Trapalhões tem uma função ainda maior: Drummond era “um dos nossos”.  Isto é reforçado toda vez que se ouve em uma mesa de bar, alguém retrucar “esse eu conheço”, após se declamar os primeiros versos de “No Meio do Caminho”.  Este é na verdade uma distinção popular, que arpejada, poderia significar:  “Dentre todas as porcarias que vocês chamam de poesia, essa é uma das poucas que eu suporto”.

 

 

Em meu poema favorito (é muito importante para o seu futuro que você saiba qual é meu poema favorito), Drummond revela um eu-lírico que encontra esgotadas as possibilidades biográficas:  Tive ouro/ tive gado/ tive fazendas... / hoje sou funcionário público.

 

 

A despeito do que pode superficialmente sugerir, a figura do funcionário público é apresentada como a de um burocrata sonhador que, quando descobre ser insuficientes as aventuras individuais, decide se voltar para a atividade pública.  Sei que prestar um concurso público como o objetivo de servir ao seu país tem um aspecto quase quixotesco hoje em dia, mas é justamente por isso que essa interpretação é mais valiosa, a despeito da interpretação corriqueira, segundo a qual a carreira funcionário público representaria somente uma rendição à precariedade da vida burocrática brasileira.

 

 

Um bom poeta está sempre salvando, por acidente, aquilo que pretendia destruir.  Sim, leitores, é precisamente depois de Auschwitz que precisamos de poesia.  Ninguém é obrigado a fazer nada, salvo força da lei, dizem; mas estando cara a cara com um livro de poesias modernistas, faça o que vocês fariam com uma garrafa de La Tâche:  abram.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Luiz Maurício Azevedo (Doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp) em 31 de outubro de 2015.