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Festival de Cinema de Gramado 2017
Festival de Cinema de Gramado 2017

KIKITO COM BRILHO RENOVADO

 

COMO NOSSOS PAIS, de Laís Bodansky, foi o grande vencedor do Festival de Gramado, com seis prêmios.

 

Por Roger Lerina

 

No ano em que completou 45 edições, o Festival de Cinema de Gramado, mostrou maturidade, segurança e consistência artística que apontam para uma promissora continuidade. O alto nível em média dos filmes exibidos, a presença numerosa de jornalistas e representantes da produção audiovisual do país e do Exterior e a organização de um fórum de debates e negócios do setor qualificaram essa edição comemorativa do evento serrano. No sábado à noite, a premiação dos melhores curtas-metragens nacionais e longas estrangeiros e brasileiros encerrou a maratona de 10 dias do certame com uma bela festa – que, no entanto, começou com uma hora de atraso.

 

O grande vencedor de Gramado 2017 foi o brasileiro COMO NOSSOS PAIS, dirigido por Laís Bodansky. O ótimo longa-metragem que entra em cartaz nos cinemas do país na próxima quinta-feira levou seis Kikitos: direção, atriz (Maria Ribeiro), ator (Paulo Vilhena), atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra) e montagem. A produção AS DUAS IRENES, longa de estreia de Fábio Meira, também destacou-se ganhando os prêmios de melhor filme do Júri da Crítica, ator coadjuvante (Marco Ricca), roteiro e direção de arte.

 

Ainda na competição de longas brasileiros, BIO, curioso e narrativamente ousado documentário falso de Carlos Gerbase, foi escolhido o melhor pelo Júri Popular e ainda rendeu um Prêmio Especial do Júri para o cineasta gaúcho – que dirigiu 39 atores e atrizes nessa história de um personagem que viveu 111 anos e morreu em 2070. Os atores Paulo Betti e Eliane Giardini, que protagonizam e dirigem FERA NA SELVA também receberam um Prêmio Especial do Júri por sua contribuição à arte dramática no teatro, televisão e cinema brasileiros. O faroeste nordestino O MATADOR, de Marcelo Galvão – primeiro filme produzido pela Netflix no Brasil – levou duas estatuetas para casa: melhor fotografia e trilha musical. Dos sete títulos em competição na categoria, apenas dois voltaram de Gramado de mãos abanando: VERGEL, coprodução entre Brasil e Argentina, e o excelente PELA JANELA – deixar de fora dos premiados esse sensível e delicadamente bem construído longa da estreante Caroline Leone foi um equívoco indesculpável do júri oficial.

 

PRÊMIOS DE CURTAS DESTACARAM QUESTÕES DE IDENTIDADE SEXUAL

 

Já os jurados da mostra estrangeira também fizeram seu deslize ao escolher o irregular e pretensioso SINFONIA PARA ANA como o melhor filme – o longa argentino dirigido por Virna Molina e Ernesto Ardito foi contemplado ainda no quesito fotografia. Federico Godfrid foi eleito o melhor diretor por PINAMAR – película também argentina que recebeu ainda os prêmios de ator, dividido entre os protagonistas Juan Grandinetti e Agustín Pardella, e melhor filme pelo Júri da Crítica. O Júri Popular, por outro lado, preferiu o documentário uruguaio MIRANDO AL CIELO, de Guzmán García.

 

Quem se mostrou mais atendo ao que havia de frescor cinematográfico e estético na seleção deste ano em Gramado foi o júri de curtas, que escolheu como melhor filme A GIS, de Thiago Carvalhaes, e premiou Calí dos Anjos como melhor diretor por TAILOR – ambos abordam de forma inteligente e contundente os desafios, demandas e preconceitos relacionados ao universo das pessoas trans. A identidade sexual fora da norma socialmente aceita esteve presente ainda em O QUEBRA-CABEÇA DE SARA, de Allan Ribeiro, eleito o melhor pelo Júri da Crítica e vencedor do Prêmio Canal Brasil de Curtas.

 

A noite de premiação foi animada pela presença da cantora, compositora e atriz Soledad Villamil: a estrela argentina de filmes como O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (2009), homenageada pelo evento com o troféu Kikito de Cristal, encantou o público que lotou o Palácio dos Festivais com sua simpatia e musicalidade, interpretando no palco quatro músicas. O repertório de Soledad – que lançou na última sexta-feira um novo disco, chamado NI ANTES NI DESPUÉS – incluiu uma saborosa versão do clássico O SAMBA E O TANGO, traduzindo em requebrado portenho a disposição de Gramado em ser reconhecido cada vez mais como um festival de alcance internacional e que neste ano elegeu pela primeira vez um país convidado: o Canadá.

 

ENTREVISTA COM LAÍS BODANSKY- Diretora

 

Qual a sua expectativa com o filme?

 

Eu fiz esse filme para falar sobre a mulher contemporânea brasileira. Espero que haja uma identificação da plateia com esse filme. Quem já viu o filme ou trechos dele vem me perguntar: “Como você sabe da minha vida?”. (risos)

 

Você acredita que o público vai se identificar com as questões de COMO NOSSOS PAIS?

 

Rola uma identificação que está no ar, mas que a gente não tem muita coragem de falar disso em público. Mas acho que a gente precisa falar, até para transformar esse formato de família monogâmica que foi imposto há milênios e que a gente aceita como sendo o padrão. Qualquer coisa fora disso parece uma anomalia, e a gente tem medo de ousar. Nossa protagonista faz isso, bota um ponto de interrogação dizendo: “Não está bom para mim, não estou satisfeita. Não sei qual é a solução, mas eu quero mudar”. Quando o filme passou em Berlim, achei que eles fossem considerar careta. Mas não: eles têm os mesmos problemas familiares lá. O movimento hoje das mulheres no mundo todo é o mesmo, de uma forma solidária. Tem uma frase que circula por aí na qual eu acredito muito: “Mexeu com uma, mexeu com todas”.

 

Em que medida os atores contribuíram na construção dos personagens ou mesmo na história do filme?

 

Eu dou liberdade para eles transformem os diálogos na sua forma pessoal de dizer. Ao mesmo tempo, sou muito rigorosa com o roteiro. Dei mais liberdade para o personagem vivido pelo Jorge Mautner. Não podia dizer para ele falar exatamente o que estava escrito, porque daí não faria sentido ter convidado ele, né? Convidei o Mautner porque, além de ser um grande artista, ele é um livre-pensador.

 

 

 

DISCURSOS ENGAJADOS PAUTAM PREMIAÇÃO

 

Representatividade das mulheres na direção e medidas do governo Temer foram temas lembrados em Gramado.

 

Por William Mansque

 

Com os Kikitos de melhor filme, direção, ator e atriz, COMO NOSSOS PAIS alcançou uma incontestável aclamação no 45º Festival de Gramado – no total, o drama familiar de Laís Bodansky conquistou seis troféus. No palco do Palácio dos Festivais, a equipe do longa criticou o governo federal e destacou temas como a representatividade das mulheres no cinema.

 

- Nós somos poucas (mulheres) na direção e no roteiro, que é justamente o espaço do discurso, onde a gente coloca o nosso ponto de vista e defende uma ideia – destacou Laís. - Essa consciência é muito recente na minha vida. Acho que é porque faço parte de um grupo de mulheres do audiovisual que resolveu parar para pensar onde acontece esse filtro. Será que as mulheres não querem dirigir e não querem roteirizar? Só 15% da indústria do audiovisual do roteiro e da direção são formados por mulheres. Por quê? Essa reflexão é muito importante para entender que não é que nós não queremos contar histórias, mas tem alguma coisa que faz com que a gente não chegue nesse lugar.

 

A realizadora falou ainda da falta de representatividade da mulher negra como roteirista e diretora.

 

- Elas não estão no espaço do discurso. Acho que essa é a nova fronteira. A gente vai descobrir e se alimentar de histórias incríveis que elas vão contar – ressaltou a cineasta.

 

Paulo Vilhena, vencedor do Kikito de melhor ator, criticou o governo Temer pela decisão de liberar uma área da Amazônia para mineração.

 

- A gente tá vivendo uma era tão difícil. Está todo mundo sentindo na pele o que é viver neste país do jeito que ele está existindo. Fazemos cinema e arte para tentar melhorar isso. O cara que está lá representando a gente querer nos prejudicar,vá lá, entendemos. Somos adultos. Agora, querer prejudicar nossos filhos e netos, acho que vale nosso pensamento de (tomar) atitude. Fora Temer e viva a Amazônia.

 

Ao retornar ao palco para receber o prêmio de melhor filme, Laís afirmou:

 

- O cinema brasileiro está vivendo um momento maravilhoso. Nossa indústria do audiovisual é maior do que as indústrias farmacêutica e têxtil. É significativa para o nosso PIB, precisa continuar para o nosso país continuar sonhando.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno em 28 e 31/08/2017.