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Deborah Colker apresenta: Cão sem Plumas
Deborah Colker apresenta: Cão sem Plumas

DO POEMA AO GESTO

 

Inspirada na poesia de João Cabral de Melo Neto, Companhia de Dança Deborah Colker apresenta “Cão sem Plumas” em Porto Alegre.

 

Ao saber que Deborah Colker traduziria em dança o poema O CÃO SEM PLUMAS, um dos mais conhecidos de João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999), a filha Inez Cabral abordou a coreógrafa: “Adoro tudo o que você faz, mas quero ver como você vai construir essa ponte”. Era um voto de confiança da herdeira do poeta e, ao mesmo tempo, uma advertência sobre o tamanho do desafio.

 

Reconhecida internacionalmente por sua companhia de dança e por ter concebido o espetáculo OVO para o Cirque du Soleil, em 2009, a coreógrafa carioca dedicou três anos de estudos, vivências, trocas de experiências e ensaios à construção do espetáculo CÃO SEM PLUMAS.

 

Deborah já era apaixonada pelo poema, mas depois de uma residência artística de quase um mês em Pernambuco, em novembro de 2016, concluiu que só é possível compreender O CÃO SEM PLUMAS na plenitude ao travar contato com o rio Capibaribe, a terra e as pessoas. É um pouco dessa experiência de visitar o poema, e não apenas apreendê-lo intelectualmente, que a coreógrafa deseja transmitir aos espectadores.

 

Deborah imaginava, inicialmente, uma coreografia que contraria com a projeção de um vídeo de no máximo 20 minutos gravado durante a estada em Pernambuco. O itinerário por cinco localidades que ela e sua companhia percorreram ao longo do rio, trocando conhecimento com os moradores em workshops diários, levou-a a concluir que a dança e o cinema se fundiriam durante toda a apresentação. É como se os bailarinos transitassem com graça e desenvoltura entre o palco e a tela. Para isso, contou com a parceria do cineasta Cláudio Assis, diretor de filmes como AMARELO MANGA (2002).

 

Assis não foi o único pernambucano da equipe. Além dele, estão presentes o fotógrafo Cafi e os músicos Jorge Du Peixe (da banda Nação Zumbi) e Lirinha (ex-integrante do Cordel do Fogo Encantado) – os dois respondem pela direção musical, ao lado do carioca Berna Ceppas.

 

DANÇAS BRASILEIRAS SÃO REVERENCIADAS

 

Sem a intenção de construir um discurso panfletário ou levantar bandeiras, Deborah reconhece que o poema de João Cabral é quase u manifesto sobre o que ela considera “inadmissível”:

 

- É um espetáculo de dança, cinema e poesia. No entanto,é uma poesia que traz em si assuntos políticos importantíssimos. O descaso com a água, por exemplo, que é a essência da vida. O descaso com as pessoas, das quais precisamos cuidar como seres humanos que somos. Penso muito nas crianças, que representam o ciclo da vida. Que mundo é esse no qual vivemos e vamos prosseguir?

 

Se no poema o rio, o homem e o animal se fundem em uma fábula da precariedade da vida, o espetáculo expande sua potência lírica ao trazer referências da obra do pensador pernambucano Josué de Castro (1908 – 1974), do movimento mangue beat e de danças populares de diferentes regiões do país, entre elas cavalo-marinho, caboclinho, maracatu, samba, frevo e danças urbanas.

 

Deborah discorda que este seja seu primeiro espetáculo “brasileiro”. Para ela, há brasilidade em tudo que cria, mesmo quando se baseia no épico russo EUGÊNIO ONEGUIN, de Púchkin (na coreografia TATYANA), ou no romance do escritor franco-argentino Joseph Kessel, que inspirou o filme A BELA DA TARDE, de Luis Buñuel (em Belle). A coreógrafa admite, no entanto, que CÃO SEM PLUMAS é um mergulho nas raízes do Brasil e, especificamente, de Pernambuco. Se era necessário uma prova de que a empreitada valeu a pena, ela veio de um comentário de Inez Cabral depois de assistir à adaptação do poema do pai em Pernambuco: “Você conseguiu”.

 

O CÃO SEM PLUMAS

 

Trecho do poema de João Cabral de Melo neto

 

Como o rio

aqueles homens

são como cães sem plumas

(um cão sem plumas

é mais

que um cão saqueado;

é mais

que um cão assassinado.

 

Um cão sem plumas

é, quando uma árvore sem voz.

É quando de um pássaro

suas raízes no ar.

É quando a alguma coisa

roem tão fundo

até o que não tem).

 

(…)

 

Na paisagem do rio

difícil é saber

onde começ o rio;

onde a lama

começa do rio;

onde a terra

começa da lama;

onde o homem.

Onde a pele

começa da lama;

onde começa o homem

naquele homem.

 

 

Fonte: ZeroHora/2º Caderno/Fábio Prikladnicki (fabio.pri@zerohora.com.br) em 30/06/2017.