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Com a Palavra: Marco Nanini
Com a Palavra: Marco Nanini

COM A PALAVRA:  MARCO NANINI

 

“SOU MAIS CONTEMPLATIVO, GOSTO DE OLHAR O CÉU.”

Marco Nanini, 67 anos, é um desses atores que serão lembrados como ícones de uma geração e que muitos espectadores do futuro lamentarão não ter tido a oportunidade de assistir ao vivo.  Este recifense radicado no Rio de Janeiro, que completa 50 anos de carreira em 2015, transita com naturalidade entre papéis de apelo popular, como o Lineu da série A GRANDE FAMÍLIA, e outros de grande exigência técnica, como demonstram seus trabalhos no teatro.

A estrela de espetáculos que marcaram época como O MISTÉRIO DE IRMA VAP (1986) e O BURGUÊS RIDÍCULO (1996) tem procurado se renovar, aliando-se aos novos talentos dos palcos.  No ano que vem, pretende estrear uma montagem do clássico teatral UBU REI, de Alfred Jarry, com a Cia. Atores de Laura (RJ).  Na televisão, deve estar na próxima trama das seis da Globo.  Será seu retorno às novelas depois de 14 anos no elenco de A GRANDE FAMÍLIA.

Em 2011, o experiente e premiado ator concedeu uma entrevista à Revista Bravo! Na qual falou publicamente sobre sua homossexualidade pela primeira vez.  Em depoimento a Zero Hora, Nanini explica que o gesto foi uma resposta à série de notícias de intolerância em curso n o país contra gays e outras minorias.  Na entrevista a seguir, concedida por telefone, relembra momentos-chave da carreira, lamenta as dificuldades financeiras do setor cultural e garante que já está com saudades de fazer comédia.

 

 

Você foi o Lineu, de A GRANDE FAMÍLIA, durante 14 anos.  O que explica a longevidade da série?

A gente não pode saber qual é o segredo exato, qual é a alquimia que leva a isso.  Mas algumas indicações a gente tem.  Os personagens criados nos anos 1970 pelo Vianninha (Oduvaldo Vianna Filho), pelo Armando Costa e pelo Paulo Pontes eram muito bem estruturados.  Foram criados numa época de resistência cultural por causa da censura, tinham que driblar muita coisa.  E o Vianninha era um dramaturgo, aliás, ainda é, porque sua obra continua incrível, como a do Paulo e do Armando.  Então, eles criaram uma substância muito forte para esses personagens.  Criaram a emoção, o conflito, a alma dos personagens.  Isso é um ganho.  O Guel (Arraes, diretor do núcleo), que propôs a nova versão, é um artista muito consciencioso.  A gente fez muita reunião pré-gravação sobre os textos, sobre os temas.  Depois, teve toda a qualidade da equipe técnica, incluindo aí, sem falsa modéstia, os atores, que tiveram a sorte de entender seus personagens, de conviver durante 14 anos.  Porque não é nada fácil.  É um casamento desses mais barra pesada, de privada, de soltar pum.  Estou exagerando, mas é um convívio muito forte.  Era uma turma muito agradável e todos eram muito profissionais.  Acho que isso ajudou.

Seu contrato com a Globo vai até 2016.  Como será escolhido o próximo projeto?

Recebi uma proposta já.  Conversei até com o autor para fazer uma novela.  Será do Walcyr Carrasco e vai se chamar CANDINHO.  Será em cima de CÂNDIDO OU O OTIMISMO, do Voltaire (escritor francês, 1694-1778).  Foi só um primeiro encontro.  Nem conversei com ele depois disso, porque ele está com a novela das 23h.  Então, não quero incomodar.  Mas gostei da sinopse, achei o personagem interessante, gosto do horário.  Achei legal e aceitei fazer.  Agora, não está sacramentado, tudo pode mudar.  A novela pode não sair.  Às vezes acontece isso na TV...

 

 

Conte um pouco como foi o estalo para a vida artística.

Repentinamente.  Meu pai me levava para v er algumas peças.  Me lembro muito de uma versão que vi de UM BONDE CHAMADO DESEJO, com a Maria Fernanda (atriz de destaque nos anos 1960 e 70).  Fui ver outras peças e fiquei encantado, era jovem.  Hoje não pratico religião alguma, mas minha mãe criava o maior problema se eu não fosse a uma missa com ela às 11h em uma igreja aqui do Rio.  Eu ia, mas não gostava.  Tinha minhas reservas em relação a ter um mediador entre Deus e eu.  Por coincidência, no fundo da igreja, tinha um grupo mambembe de teatro infantil, e eu fui ficando amigo deles.  Tinha uma sala com palquinho, e eles fizeram uma peça chamada A FLORESTA ENCANTADA.  Fiquei amigo deles, ficava na bilheteria, ajudava nisso e naquilo.  Ai, conheci o Pedro Paulo Rangel, que é da minha geração.  E acabei entrando para fazer um papel pequeno nessa peça.  Foi meu primeiro cachê, em 1965.

Você comentou que hoje não pratica qualquer religião.  Qual é sua relação com a espiritualidade?  Acredita em Deus?

Eu acredito nessa força.  Tenho essa fé, eu rezo, tudo.  Quando era garoto, as rezas eram muito grandes.  Aí, perguntei para minha mãe se eu podia inventar uma.  Inventei uma muito rapidinha, aí rezo essa.  Às vezes, faço uma cerimônia íntima quando estou na coxia, que é um momento solene.  Relembro os mortos, minhas referências, e rezo para eles, peço proteção.  Também tenho os orixás na minha bancada.  Acredito e aceito qualquer tipo de religião.  Só não gosto de ter esse atravessador.  Acho que posso conversar com Deus, com a natureza, um pouco como Espinosa (filósofo holandês, 1632-1677).  Naquele Deus eu acredito.  Agora, não sei se ele tem barba, se vai atender um telefonema meu...

 

 

Falando sobre os problemas do Brasil, você acha que a arte pode contribuir para mudar alguma coisa?

Olha, acho que deve.  Não escolhi UBU REI (peça de Alfred Jarry que Nanini pretende montar em 2016) à toa.  UBU REI é um retrato contemporâneo da história, não digo somente nossa, mas da história do século 20 até agora.  Há um massacre pela ganância, pela vontade de poder, pelo ódio.  Isso é de causar uma perplexidade absurda.

Há um antigo debate sobre a questão de o artista se posicionar publicamente sobre assuntos da sociedade ou não.  Qual a sua opinião sobre isso?

Acho que não é uma questão do artista, é do cidadão.  Como ele vê, até onde interfere, até onde você vai ser manipulado ou não.  Não acho que seja uma coisa do artista.  Tem muito artista que se posiciona claramente, tem outros que nem tanto.  Eu, por exemplo, não gosto de ser partidário, de pegar em bandeiras e armas.  Mas tenho meu lado crítico.

 

 

Ser um artista conhecido e assumir a homossexualidade é um ato de coragem?

Isso só aconteceu porque encontrei um jornalista muito experiente e educado, com um caráter muito bom, que não me pediu absolutamente essa declaração.  Confiei tanto que pensei:  “É agora”.  O que aconteceu é que esses atos explícitos de violência contra os homossexuais com certeza influenciaram a decisão, contra outras minorias também.  Esse ódio que as pessoas estão desenvolvendo em uma escala maior, o que acontece com as religiões no Oriente Médio agora, por exemplo, isso tudo me provocou uma angústia muito grande.  Achei que tinha chegado o momento de eu me colocar, embora não fosse segredo para ninguém, porque nunca escondi isso.  Só não declarava.  Por quê?  Porque sabia que ia me causar uma chateação, como de fato ocorreu.  Todo mundo me pergunta sobre isso.  É uma chateação.  Toda hora tenho que falar a mesma coisa.

A repercussão dessa entrevista lhe frustrou no sentido de blogs e sites terem focado no lado espetaculoso, em vez de tratar do assunto com a devida seriedade?

Também achei isso, foi meio raso.  Mas não esperava coisa melhor, não.  O importante é que muita gente viu com serenidade, compreendeu isso tudo.  A partir daquele momento em que quebraram lâmpadas na cara da Avenida paulista (em 2010, jovens agrediram um rapaz homossexual com lâmpadas fluorescentes), fiquei chocado.  Depois, teve outros, milhares.  Queimaram índio, fizeram o diabo.  Então, não esperava que fosse uma coisa melhor porque nossa sociedade ainda é muito conservadora.

 

 

Você já relatou, em entrevista, ter dificuldade com a tecnologia.  Como você sente essas transformações na maneira como consumimos informação e entretenimento hoje?

Olha, rede social eu não tenho.  Nunca tive nem quero ter.  É um tempo enorme.  Vejo essas transformações tão rápidas em estado de choque.  Porque jamais vou aprender isso.  Eu fui a uma consulta na minha oftalmologista e tinha uma criança, talvez de sete anos, que manuseava seu tablete com uma tranquilidade que me deixou humilhado.  Eu sei lidar com o básico para o que preciso.  Ir no Google, fazer uma pesquisa, ir no Word.  Mas naquele outro de tabela (Excel) eu não sei mexer.  E não adianta que não vou aprender.  Também meu problema era gravíssimo com a televisão.  Não é que eu não soubesse ligar a Netflix.  Eu não sabia ligar a TV.  Porque o controle hoje tem tantas opções... Sou mais contemplativo, gosto de olhar o céu.  Tenho uma ingenuidade que não tem essa praticidade.  Então, tenho um assessor que entende um pouco disso.  Chama-se Gutemberg.  Ele me assessora nas coisas práticas e também nessas coisas de computador, que ele entende um pouco.  Às vezes, ligo para ele e digo:  “O computador está com raiva de mim, pifou”.  Aí ele vem aqui e vê que é a tomada que não estava no lugar.

Vários espaços culturais no Brasil têm sofrido para se manter financeiramente.  Qual é a receita do Galpão Gamboa (centro de atividades culturais e sociais no Rio criado por Nanini com o sócio Fernando Libonati) para fechar as contas no fim do mês?

É admitir a angústia (risos).  Agora mesmo estamos enxugando nossos serviços.  Durante um tempo, eu mesmo coloquei verba minha, pessoal, porque aquilo me dá muito prazer.  Mas não estou conseguindo mais manter.  Nem crescer.  Então, estamos tendo que adaptar essa conjuntura e estamos sofrendo as mesmas coisas.

Então, para criar um empreendimento como esse, no Brasil, tem que ser idealista.

Tem que ser totalmente idealista.  Eu tinha a ingenuidade ou a ilusão de que um programa social fosse despertar o interesse de várias empresas.  Mas não é assim.

A limitação da meia-entrada para apenas 40% da plateia é uma boa ideia?

Nesse momento, é um passo importante, porque você tem um critério.  O que aconteceu no início?  Teve a meia-entrada, mas surgiram aproveitadores que faziam da carteira de estudante falsa um mecanismo.  Então, você é atacado por todos os lados.  Você não é uma indústria, é uma carrocinha de cachorro-quente.  O aluguel do teatro é o mesmo, o aluguel do material que se compra de cenogr4afia e luz é o mesmo.  Aí, você tem a receita desperdiçada.  Isso inclusive afetou as bilheterias dos teatros ditos comerciais, que são obrigados a fazer sessões contínuas.  De alguma maneira, isso prejudica a qualidade do espetáculo, porque você tem que mudar a cenografia em meia hora, uma hora.  Então, não pode arriscar uma cenografia maia complexa.  A solução que eu achei foi entrar nos editais.  Nessa conjuntura, felizmente, a prefeitura aqui do Rio tem sido bastante companheira da cultura.  Mesmo com as obras do metrô, eles estão atentos a essa questão.  Teve um ano em que não ganhei edital algum.  É sempre uma insegurança.  O Festival de Curitiba sofreu o mesmo problema e parece que o de Porto Alegre (Porto Alegre Em Cena) também.  Isso é uma tristeza.  São eventos importantes.

 

 

Você participou de diversos sucessos no teatro.  Irma Vap ficou mais de 10 anos em cartaz.  Mas alguns artistas têm a impressão de que o público do teatro está encolhendo.  Como você vê a questão do público?

São duas matemáticas.  Uma delas é que o espetáculo  ao vivo sempre interessa.  Agora, quando você arrisca um empreendimento muito grande, como festivais de teatro, está minguando tudo.  Tanto que nosso Ministério da Cultura tem uma verba ridícula.  Está aí a radiografia de como a cultura é vista hoje.  A Lei Rouanet tem seus problemas, ela deve ser modificada, mas tem que ser muito discutida, porque o que é bom teria que ficar.  Tem uma discussão enorme aí da Rouanet sobre a qual não estou muito seguro porque é um assunto que até me deixa nervoso, não gosto de saber muito.  Sei que tem um problema aí.  Mas todos têm um problema de verba hoje.  Não sei até que ponto vamos ter estofo para segurar essa coisa toda.  Estamos à beira de um abismo na cultura.  Só não dá mais desespero porque vemos que a saúde e a educação também estão com pouca verba.

E como tem sido a sua experiência com a questão da quantidade de público no teatro?

Acredito que tem várias questões, como trânsito difícil, violência, no caso de Rio ou SP, isso tudo afasta o público do teatro.  A juventude está mais interessada em outras coisas, até que a gente ache um canal que leve essa gente para lá.  Quando eu fiz UMA NOITE NA LUA (em 1998), um monólogo, houve a desvalorização do real, no governo Fernando Henrique.  Isso liquidou a peça.  Eu já sabia que ia terminar no vermelho, que não conseguiria pagar, mesmo lotando a casa.  Então, trabalhei de graça muitas vezes, botando dinheiro para poder pagar. E o público se retraiu.  Por outro lado, a gente conseguiu lotar os teatros com peças como AUMENTO (A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento, apresentada em Porto Alegre em 2013).  Não era um texto muito palpável.  Para minha surpresa, esse espetáculo lotou em todos os lugares aos quais eu fui por meio desses patrocínios.  A descoberta desse novo público foi muito interessante.  Se eu fosse economista ou empresário... sou só um artista, mas procuraria fazer coisas interessantes no sentido de ver esses novos públicos.

Embora você seja um ator versátil, a frequência com que interpretou personagens cômicos o associa a esse gênero.  Você já se viu querendo se desvencilhar da comédia?

Até estou com saudade da comédia.  Fiquei mais conhecido pelas comédias.  E calhou com o esplendor da minha juventude.  Mas tenho sempre outras coisas.  Fiz A MORTE DE UM CAIXEIRO VIAJANTE (2003), ENCONTRO NO BAR (1973), PTERODÁTILOS (2010) que é praticamente uma tragédia.  Fiz O AUMENTO, que não chega a ser um stand-up.  Agora mesmo, fiz BEIJE MINHA LÁPIDE.  Tenho feitos outras coisas, mas fiquei mais associado com a comédia.  Adoro fazer comédia, foi uma descoberta na escola de teatro.  Eu queria fazer tragédia, achava que só o que importava era tragédia.  Mas fui obrigado a fazer comédia e vi que tinha jeito.  Fui gostando, conheci Molière (dramaturgo francês, um dos mestres da comédia satírica, 1622-1673).  Até estou sentindo falta de fazer de novo.  Fiquei conhecido mais por esse lado, mas tenho feito outras coisas.  O próprio Lineu... eu tive pudor de fazer uma comédia rasgada com o Lineu.  Preferi uma situação mais intermediária do que apelar para algum tipo de graça que fosse frívola.

Há uma parcela do público que é muito apegada à comédia, seja na TV, no cinema ou no teatro.  Pensam que a vida é trágica e querem um alívio.  Mas, nesses casos, o drama e a tragédia ficam desprestigiados.  O que se pode fazer para mudar a resistência dessa parcela do público?

É uma questão de educação e hábito.  O que importa numa comédia, num drama ou tragédia?  A emoção do personagem, aquilo que ele vai transmitir.  Um personagem cômico tem que ser estudado pelo lado trágico dele, porque o que faz a comédia é a tragédia.  O que faz o Lineu ser engraçado?  É o drama que ele tem para manter uma família, com problemas financeiros.  O Molière tem muito disso.  O personagem de O BURGUÊS RIDÍCULO não sabe, mas é totalmente patético.  Ele tem uma tragédia de solidão, é feito de idiota por todo mundo, é uma tragédia de alguma maneira.  Tem um quê de tristeza do personagem.  O que chama o espectador é a emoção transmitida naquela hora, ao vivo.  Mas se não temos formação de plateia, então quem vai saber disso? O teatro, a arte de interpretar, não é um patrimônio somente do ator profissional.  É de toda a sociedade.  Quando você é criança, você brinca de bandido e ladrão ou de princesa.  Quando a pessoa fica adulta, também gosta de fazer isso.

Você foi dirigido por encenadores de uma era de ouro do teatro, como Gianni Ratto, Flávio Rangel, Aderbal Freire-Filho, Sergio brito.  Que tipo de lições esses mestres lhe deram?

Eles têm uma importância fundamental.  A gente  pode ler as teorias, nos livros, mas eles passam o bastão mão a mão.  Passam a experiência que tiveram, os sentimentos, o aprendizado, as dificuldades em conversas que você não teria em uma sala de conferências.  Eles passam no dia a dia do teatro, dos ensaios, num jantar depois de um espetáculo.  Vão passando as experiências.  É muito diferente.  Você começa a receber informações ao vivo e a cores de um pessoal que, nesses casos que você citou, já vinha labutando havia muito tempo.  A Dercy (Gonçalves), por exemplo, me ensinou muito ritmo de comédia no palco, uma coisa que eu não saberia entender se tivesse apenas lido.  Seria uma teoria.  Ela me ensinou na prática.  O Flávio Rangel tinha toda uma encenação grandiosa, espetacular.  O Sergio Britto atentava para o lado particular de cada personagem, fazia anotações diárias, deixava bilhetinhos.

Ao mesmo tempo, grandes críticos escreveram sobre seu trabalho.  Alguma vez você já se sentiu injustiçado com alguma crítica?

Olha, já pensei muito sobre isso.  Mas não me senti injustiçado.  É uma opinião.  Quando você acha que o crítico foi duro com você e você não concorda...  Eu acho que vai até aí:  não concordar.  Nunca tive ódio dos críticos.  Acho que eles são necessários.  Tive a sorte de ter críticas boas e ruins.  Tive que me submeter a essa situação naturalmente.  Pensei:  "Esse cara não quis me ver ou não gosta de mim, mas tudo bem, paciência”.  Às vezes, um gosta e outro não gosta.  É a função deles.  Não tenho qualquer problema quanto a isso porque não tenho aspiração estelar.  Ter encontrado meu ofício, ter sobrevivido dele em circunstâncias quase milagrosas, porque eu não tinha nenhuma ligação com teatro, já é um prêmio.  Eu teria uma vida completamente diferente se não tivesse achado esse ofício.  Trabalhei em hotel.  E não era um bom funcionário de hotel.  Era garoto, comecei com 13 anos no hotel.  Sempre despertei muita ternura das pessoas para comigo.  Então, o gerente do hotel me aturava do jeito dele, o pessoal do banco também tinha uma paciência extrema, porque eu não sabia fazer conta.  Uma hora, eu chefiava uma seção que precisava fechar balanço.  Começava meu balanço com o banco fechado e ficava a noite inteira.  O banco abria, e eu não tinha fechado meu balanço.

 

Fonte:  ZeroHora/Fábio Prikladnicki (fabio.pri@zerohora.com.br) em 26/7/2015