Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
15





                                              

                            

 

 

 


Nelson Rodrigues, por Caco Coelho
Nelson Rodrigues, por Caco Coelho

NELSON RODRIGUES REDEFINIDO

 

Depois das reações negativas e da condenação da crítica a ÁLBUM DE FAMÍLIA, de 1946, Nelson Rodrigues retraiu-se. Seu retorno se deu em 1951, quando estreou VALSA Nº 6, um pretenso monólogo que, ao mesmo tempo em que renovava o gênero, abria-lhe novos horizontes. A peça foi dedicada à irmã Dulce, atriz que interpretou a obra, com direção de Henriette Morineau,

 

Sábato Magaldi, na introdução geral à obra rodrigueana que escreveu para a edição do teatro completo do dramaturgo, chama a atenção para o fato de que VALSA Nº 6, de certo modo, retoma e inverte a perspectiva já apresentada em VESTIDO DE NOIVA. Naquela obra de 1943, Alaíde, atropelada, rememora sua vida antes de morrer. A encenação de certo modo objetiva estas memórias. No caso da VALSA Nº 6, Sônia, recém-assassinada, tenta recordar o que aconteceu, mas, por ser um monólogo, tudo ocorre na representação através de sua fala e sua incorporação, digamos assim, de modo que ela, mesmo desconhecendo (num primeiro momento) quem seja Sônia – pois não se reconhece nesta figura e mesmo tenta negar-se a ser ela –, é capaz de rememorar falas e ações de seus pais ou do médico Dr. Junqueira.

 

À parte a renovação radical do gênero, que dá ao texto uma dinâmica única e até hoje incomparável ao texto, originalmente idealizado para dois atos, Nelson Rodrigues, uma vez mais, se colocou na vanguarda de questões que, só muitos anos depois, tornar-se-iam temas polêmicos entre nós, neste caso, o assédio sexual: Sônia se divide entre o asco que sente pelo médico Dr. Junqueira, mais velho, apaixonado por ela e que sempre lhe pede que toque a VALSA Nº 6, de Chopin; e Paulo, aparentemente a paixão de sua vida, mas que seria um homem casado de quem, pois, obrigatoriamente, ela deveria se afastar, segundo as convenções da época. Mas Paulo chega a beijá-la, e isso a transforma em uma pessoa pecaminosa, a seus próprios olhos. Sônia, pois, carrega este sentimento de culpa, de remorso e de repulsa a si mesmo, que permanece logo depois de seu assassinato e que dificulta ela identificar a situação em que está envolvida.

 

O texto sugere que o assassino seja o velho médico, talvez com ciúme do jovem. O título da peça, por seu lado, remete a uma pequenina composição de Chopin, que tem exato um minuto de duração, o que significa, em última análise, que, ao longo dos dois atos de encenação – que em tempo real deve chegar a cerca de uma hora e meia –, estamos, na verdade, acompanhando a um minuto, apenas, de funcionamento da memória da personagem. Veja o leitor, pois, toda a radicalidade e inventividade dramática desenvolvida por Nelson Rodrigues, que, a cada obra de sua autoria que lemos ou que assistimos, sempre nos faz admirá-lo e respeitá-lo cada vez mais, tendo ele, ao longo das décadas de 1940 a 1980, renovado profundamente a dramaturgia brasileira, com toda a certeza e, por certo, dado novas perspectivas à dramaturgia universal, muito antes, ainda, e sem necessitar aderir à tal dramaturgia pós-moderna. Infelizmente, Nelson Rodrigues sempre escreveu em português, foi pouco traduzido e, portanto, continua desconhecido internacionalmente, salvo umas poucas montagens realizadas no exterior e sobre as quais não se pode dizer nada, pois as desconhecemos.

 

Caco Coelho especializou-se em Nelson Rodrigues. Já montou vários espetáculos a partir dos textos do dramaturgo recifense. Pessoalmente, quase nunca concordo com suas leituras, que me parecem forçadas em relação à dramaturgia rodrigueada. Mas, desta vez, com VALSA Nº 6, ele acertou a mão. Coelho manteve fidelidade ao texto mas recriou-o dramaticamente. Para isso, contou com uma atriz excepcional: Gisela Sparremberger, que, por sua vez, teve nesta interpretação seu grande momento.

 

Coelho resolveu personificar, fisicamente, parte do coro idealizado pelo dramaturgo: para isso, conta com a participação de alguns figurantes, além de providenciar que parte da plateia vista jalecos brancos de enfermeiras ou médicos, o que amplia o sentimento de agonia e o ambiente mórbido da encenação. Um cenário de panos brancos leves e esvoaçantes contrasta com alguns elementos vermelhos: é o contraste entre a pureza e ingenuidade da menina, então transformada em mulher, segundo o Dr. Junqueira. Os figurinos de Marco Tarragô, a iluminação de Guto Greca, a trilha sonora de Pedrinho Figueiredo e a cenografia de Vicente Saldanha deram consistência às ideias de Caco Coelho que alcança, assim, com esta montagem, um excelente momento em sua carreira.

 

 

Fonte: Jornal do Comércio/Crítica/Antonio Hohlfeldt (a_hohlfeldt@yahoo.com.br) em 13/05/2018.